14/04/2009 Número de leitores: 1040

Twit Lit

Claudio Soares Ver Perfil

Ainda não sabemos se a deveríamos chamá-la assim, Twit Lit [de Twitter Literature], ou literatura baseada, distribuida através de pequenos trechos no Twitter, mas como experimento, é impossível negar que a ideia não tenha lá os seus atrativos.


O Twitter é o assunto do momento. Ou a dúvida do momento. Passamos a semana anterior, discutindo se existe ou não um modelo de negócios que possa sustentar o Twitter, à rede social que mais cresce nos EUA, criado em 2006, e com mais 6 milhões de usuários no mundo.


O Twitter, é verdade, ainda não dá dinheiro. Mas, fora essas questões financeiras [importantes, claro], não há como negar, que o Twitter tenha se transformado em um verdadeiro fenômeno social.

 

Twittersphere


Através do Twitter [um site que mistura blog e SMS], qualquer um pode enviar mensagens de até 140 toques para seus “seguidores”, como os torpedos dos celulares, a diferença é que as mensagens circulam pela internet como os textos de blogs.


Esses textos de até 140 caracteres, também conhecidos como tweets, procuram responder a uma pergunta básica: “o que o você [usuário] está fazendo?”


O potencial do serviço é grande [apesar de alguns pretenderem que seus usuários acabem se tornando zumbis], ainda mais quando sabemos que no mundo todo, segundo pesquisas são disparados cerca de 2,4 trilhões de SMS por mês, e neles cabem 140 toques ou pouco mais [a fonte é uma recente matéria da Revista Época],.


Se há lá fora 1,57 bilhão de pessoas que usam a internet e outros 3,3 bilhões com celulares em punho [e, isto fica cada vez mais claro] é claro que essas duas redes acabarão se fundindo.


Mas, de que forma [e aqui me posicionarei como escritor interessado em entender de que forma essa revolução impacta o meu trabalho], o Twitter poderia ser usado para distribuição [quem sabe até criação] de textos literários? 


Twitterization


Sabemos que uma literatura em doses homeopáticas já é sucesso no Japão. Os “romances de celular” [keitai shosetsu, em japonês] fizeram cinco em cada dez best-sellers do país em 2007. Mas, teria chegado a hora e a vez de a literatura invadir, além da telefonia móvel, também os microblogs e assemelhados?


Twitterização [de twitterization] é o termo que está sendo usado nos EUA para indicar a serialização de textos maiores, como um romance, por exemplo, através do Twitter. Bem, twitterizar um romance, presumimos, não é tarefa fácil, mesmo quando se trata apenas de uma migração ipsis litteris entre plataformas, do papel para o on-line.


E é tarefa difícil por vários motivos, inclusive, pela dificuldade, natural, do leitor se manter concentrado no “fio da meada”.  Microtextos fatiando parágrafos, fatiando seções, fatiando capítulos etc, mas, não temos dúvidas, é espetacular para manter-se o foco em passagens específicas.


O segredo está em como interligar e contextualizar [antes isoladamente, depois em conjunto] todas essas mensagens que, juntas, devem compor um romance.


Será que é mesmo possível implementar-se uma adaptação entre os dois recursos/processos, o Twiter [uma grande ferramenta de comunicação] e a contação de uma história?


A tecnologia está mudando a forma como recebemos e absorvemos as informações. Não que uma forma forma deva, necessariamente, substituir a mais antiga [bem, talvez, no futuro] mas, nesse periodo de transição que vivemos, uma pode [e deve] ser complementar a outra.


Acredito que cada leitor [e será sempre ele que receberá e consumirá o texto] terá a sua predileção pelo momento, dispositivo, ou forma através da qual deseja usufruir do processo de leitura.


Os escritores, penso, também são beneficiados. Se por um lado, os escritores independentes não têm grandes orçamentos para atingir seu público leitor com campanhas maciças de marketing para seus livros, mesmo o processo de produção, quando levando em consideração o meio digital, sofre um grande impacto, não só em termos de orçamento, mas também na diminuição de algumas etapas.


Então, eu fico aqui imaginando, de que forma uma leitura fragmentária [reflexo de nossa era] poderá  ser, ainda assim, uma experiência prazerosa e informativa? O texto funcionará de maneira diferente para cada leitor? Bem, acho isso um tanto óbvio, pois sempre tem sido assim, mas em que grau será essa diferença?


 

Siga o @sd8


Estas são algumas das perguntas que pretendemos responder através do projeto de twitterização do romance Santos Dumont Número 8: O Livro das Superstições [Universo dos Livros, 2006] que, a  partir da próxima quarta, 01 de abril, começaremos a twitterizar em http://twitter.com/sd8.


Uma série de pequenos trechos, tweets, adaptados do romance original, linkados a outras mídias [sim, afinal, o que é o texto para além do texto?], que infelizmente no livro de papel não nos foi possível explorar [por motivos óbvios] aparecerão, diariamente, no Twitter [mais detalhes no site do romance].


Sim, é um experimento, mas que acreditamos, possa ser bastante interessante e produtivo.


Uma história que se escreve, dizem diversos autores, pode ser bem diferente da história que se lê, já que o leitor traz para o ato da ler, suas próprias experiências, transformando o texto [ algo ainda incompleto antes do momento da leitura, do momento em que o cérebro do leitor processa as palavras ],  em algo pessoal, uma experiência exclusivamente  sua, mesmo quando lê-se no meio de uma multidão.


Seja nos livros, no Twitter, onde quer que seja, ainda assim, o que importa, penso, é a experiência de leitura. Pessoal e instransferível experiência de leitura. É ali, não tenho dúvidas, que está o grande x da questão.

 

 

 

Claudio Soares