09/06/2009 Número de leitores: 571

Budapeste - o filme

Felipe Iszlaÿ Ver Perfil

Por Felipe Iszaÿ


     ?O que a traça disse quando saiu do cinema?
    ? Prefiro o livro!?




Quando terminei a primeira leitura de Budapeste fechei o livro com a certeza de que esta era uma obra literária impossível de ser adaptada para o cinema. Hoje, depois de outras leituras e depois de assistir ao filme homônimo, com roteiro de Rita Buzzar e direção de Walter Carvalho, preservo a mesma cautela.

Deve-se ter muito claro que esta não é ?mais uma? dentre tantas adaptações literárias que estamos acostumados a ver no cinema. Este filme não se insere, a par e passo, nos habituais debates que opõem (ou aproximam) literatos e cineastas, leitores e cinéfilos, e que nos últimos anos se proliferam entre teses e dissertações acadêmicas e alimentam tantas mesas redondas em festivais de cinema e literatura pelo país. Esta adaptação se diferencia das demais por se fazer a partir de uma obra literária que é, por excelência, metalingüística.

Não se trata aqui de dizer simplesmente que o livro é melhor que o filme, como sugere a anedota da traça. Esta é uma questão que nem se coloca dentro de uma crítica responsável, por existir na passagem de uma linguagem para a outra um problema estrutural que de antemão impossibilita a fidedignidade do filme com o universo do livro. A anedota, aliás, só funciona porque evoca um senso comum, habituado às adaptações, que opina sobre o fato de uma história estar melhor contada no livro ou na tela. Opinião que evolui, nos debates mais maturados, para a conclusão de que na verdade sempre se tratam de duas obras distintas onde a história adquire nuances próprias de cada meio, de cada linguagem. O problema aqui é que no livro de Chico Buarque a linguagem ? no caso, a linguagem verbal ? não está a serviço de contar uma história qualquer, mas de contar uma história em que ela mesma, a língua, é a personagem principal.

Budapeste é o melhor dos romances de Chico Buarque porque é uma prosa alçada sobre poesia, terreno no qual o autor passeia a vontade. Como disse Caetano Veloso, ?Budapeste é um labirinto de espelhos que afinal se resolve, não na trama, mas nas palavras, como os poemas?. Em Budapeste, Chico Buarque desdramatiza a narrativa e privilegia a poeticidade do texto, reordenando o espaço do romance por meio de jogos de linguagem, trabalhando com a substancialidade das palavras, com a circularidade narrativa e a construção em abismo. Isto não quer dizer que o livro não possua uma boa estrutura narrativo-dramática, mas quer dizer sim que esta estrutura não se sustenta quando dissociada da linguagem verbal. A transposição para o cinema acabou, portanto, produzindo um inevitável esvaziamento da narrativa, criando lacunas que a equipe do filme tentou desesperadamente completar, seja criando adendos narrativos que não estão no livro, seja imprimindo sobre a história uma dramaticidade inexistente no original. A Vanda interpretada por Giovanna Antonelli, por exemplo, possui uma carga dramática, oriunda da tradição novelística brasileira, que a Vanda de Chico não possui.

No filme, o personagem de José Costa é retratado quase como um bobo, um sujeito passivo sobre o qual as coisas agem sem que ele dê muito conta. Tal fato decorre, dentre outros motivos, da má utilização da narrativa em terceira pessoa instituída pela câmera de cinema quando empregada na sua forma clássica, forjando o que chamamos de ?quarta parede?. Mesmo as inserções em off da voz da personagem não são suficientes para desfazer essa sensação. No livro, todo narrado em primeira pessoa, temos uma impressão completamente diversa da força do protagonista. O José Costa do romance, por exemplo, se orgulha de seu anonimato, enquanto que o personagem de Leonardo Medeiros parece apenas um resignado.

O protagonista de Chico Buarque é obcecado pela palavra, ele pode ser visto como uma alegoria, uma representação hiperbólica da forma como o homem apreende o mundo mediado pela língua. Foi por sentir saudades de sua língua materna que Costa abandonou Kriska e voltou para o Rio. Depois, é para esquecer a língua portuguesa que ele embarca de volta para Budapeste. Todas as ações do personagem são motivadas pela sua obsessão com a palavra. E isto não está no filme. Quando tenta, o filme consegue apenas uma caricatura mal feita desta relação com a palavra e o universo da língua, como na cena em que o protagonista e sua esposa tomam uma sopa de letrinhas.

Podemos comparar, livremente, os problemas enfrentados pela roteirista e pelo diretor do filme com os desafios que se colocam diante de qualquer tradução dentro do universo literário. Sabemos que nenhuma tradução substitui o original, mas ainda assim podemos dizer que existem melhores e piores traduções. E o trabalho executado por Rita Buzzar e Walter Carvalho é uma tradução mal feita, pois não consegue ultrapassar o plano mais superficial da narrativa e encontrar a embocadura da obra ? captar o estilo, o ritmo, a sutileza e o sabor do original.

A cena que melhor funciona no filme é a cena que ilustra as passagens de O Ginógrafo, biografia que Costa está escrevendo para o seu cliente alemão. Talvez, pelo filme assumir ali um tom não-realista. Sintomático é perceber que no livro esta cena não se destaca do restante do livro, pelo contrário, o autor faz questão de misturá-la e dissolvê-la na sua própria narrativa. O Ginógrafo é uma verruga no tecido literário de Budapeste, um pequeno adensamento da mesma temática e da mesma poética do livro como um todo no qual ele está contido. Se esta relação fosse mantida e Walter Carvalho tivesse deixado que a atmosfera poética das sequências de O Ginógrafo contaminasse todo o restante do filme, certamente estaríamos agora lidando com uma obra melhor.

Leonardo Medeiros olhar na direção da câmera e a câmera de cinema surgir refletida no espelho aparecem como soluções desesperadas para saldar a questão com a metalinguagem. Ao invés de satisfazer um interessante paralelo entre as duas linguagens, a sequência final torna ainda mais evidente os problemas da adaptação. Sugere quase que uma mea culpa dos realizadores.

Querer adaptar o romance Budapeste para o cinema é como querer romancear o de Fellini: só um grande artista poderia tentar e nenhum grande artista tentaria. Quando digo que só um grande artista poderia tentar, estou novamente pensando no trabalho da tradução. Para se traduzir um poema, por exemplo, é preciso ser um grande poeta. Não basta conhecer a outra língua, é necessário dominar a linguagem. Walter Benjamin dizia que traduzir é dar vida nova a um texto. Se isto também for verdade para as adaptações, é preciso dizer que, de fato, não há vida fora de Budapeste ? o livro.








 

Felipe Iszlaÿ é mestre em Cinema e doutorando em Linguística pela Unesp, poeta e realizador de curtas-metragens. E-mail: felipealbuquerque2006@gmail.com

Felipe Iszlaÿ