27/07/2009 Número de leitores: 1000

Ao mestre Saramago: sobre literatura e não-literatura

Claudio Soares Ver Perfil

José Saramago, que considero um dos meus mestres, falou ao Prosa Online (O Globo) sobre Twitter, sobre o lançamento de seu blook, sobre literatura e política. Afirmou que continuará a “utilizar frases longas, das que dão espaço e tempo para observações e análises quer considero necessárias” (no que faz muito bem, pois assim aprendemos a admirar sua obra).

Saramago disse que considera que “escrever num blog não difere em nada de escrever numa folha de papel”, apesar de considerar que ao texto escrito em blog “se aconselha uma certa brevidade”.

Eis um ponto importante. Mídias diferentes, requerem métodos diferentes de criação (”wihtgreat power“, sabemos desde Peter Parker, “comes great responsibility”). Agora, temos o papel e o digital, e nesse espaço, multicamadas, teremos o texto, o metatexto e o software aplicado a este texto e metatexto. Nossa relação com o texto muda e, claro, como nos antecipou Marshall McLuhan, o meio influencia a mensagem, assim, novos e diversos métodos de criação (literária) aparecerão.

O futuro da literatura, penso, não está nas palavras do mestre, mas na subversão delas. A literatura (palavra que Maurice Blanchot chama de tardia, sem honra, útil apenas aos manuais) só tem futuro no que hoje se chamar de “não-literatura”. O twitter e outras propostas on-line, o “cloud-book”, etéreo, disperso em redes sociais (cuja unidade é recuperada pelo leitor, jamais predefinida pelo autor) são exemplos, hoje, dessa não-literatura.

O mestre Saramago não a compreende e a meu ver nem deve perder seu tempo com isso. Teve a visão de se permitir um blog, e por isso o aplaudimos. Perguntado sobre se acompanhava o fenômeno do Twitter, e se acreditava que a concisão de se expressar em 140 caracteres teria algum valor, Saramago respondeu:

Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.”

Penso que, em verdade, não é que tenhamos a tendência para o monossilábico, mas para o imagético, por isso, as palavras, cada vez mais são substituídas pelas imagens. Imaginem se para acessar a web, por exemplo, precisássemos ainda recorrer à linha de comando do MS-DOS? As interfaces gráficas comprovam essa tendência ao imagético. E sobre a limitação estabelecida pelos 140 caracteres (limite que levou em consideração a distribuição de texto através das telas reduzidas de celulares), entendemos que não são novidade alguma: quem a de negar que a estrutura de versículos da Bíblia (proposta por Robert Estienne em 1555) não a torne bastante apropriada para o Twitter?

Eis um ponto importante que gostaria de comentar: mídias diferentes, parece-me claro, requerem métodos diferentes de criação (“with great power”, sabemos desde Peter Parker, “comes great responsibility”): escrever no papel, diríamos, se assemelha (mas não é igual) a escrever para ser publicado no meio digital, pois nesse espaço multicamadas acessamos (seja como escritores ou leitores) o texto e o metatexto através da intermediação do software. E isso faz toda a diferença: nossa relação com o texto muda pois, como nos antecipou Marshall McLuhan, o meio influencia a mensagem. Assim, necessariamente, novos e diversos métodos de criação (literária) romperão, em um primeiro estágio talvez (é o que percebemos), como um amálagama de linguagens e mídias (aparentemente) diversas.

Para Saramago, “a internet é uma fonte de informação rápida e em geral eficaz, porém não confundamos: a literatura ou é ou não é, não há meios termos. Muitas transformações teriam de dar-se (e eu não vejo como nem quais) para que a internet tomasse lugar no fazer literário”.

O futuro da literatura, penso, não estará nas palavras do mestre, mas na subversão delas. A literatura (palavra que Maurice Blanchot chama de tardia, sem honra, útil apenas aos manuais) só tem futuro no que, hoje, se chamar de “não-literatura”. O twitter e outras propostas de publicação on-line, o “cloud book”, etéreo, disperso em redes sociais (cuja unidade é recuperada apenas pelo leitor, jamais predefinida pelo autor) são exemplos, hoje, dessa “não-literatura”.

O mestre Saramago (ainda) não a compreende e a meu ver não precisa perder seu tempo com isso. Teve a visão de se permitir um blog e por isso o aplaudimos. Perguntado sobre se acompanhava o fenômeno do Twitter e se acreditava que a concisão de se expressar em 140 caracteres teria algum valor, Saramago respondeu:

Nem sequer é para mim uma tentação de neófito. Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido.”

Penso que, em verdade, não é que tenhamos a tendência para o monossilábico, mas para o imagético, por isso, as palavras, cada vez mais são (e serão) substituídas pelas imagens. O movimento proporcionado pelo hipertexto, trata-se de um favor à palavra escrita. Já imaginou se para acessar a web, por exemplo, ainda precisássemos recorrer à linha de comando do MS-DOS? As interfaces gráficas comprovam nossa vocação para o imagético. E assim, seguindo a lei do eterno retorno espiralado, voltaremos à pictografia (não em pedras, mas em telas).

E sobre a limitação estabelecida pelos 140 caracteres (que leva em consideração a tendência d os celulares se transformare nos dispositivo universais de acesso à informação: emails, redes sociais, jornais, livros etc), entendemos que não seja exatamente uma novidade: quem a de negar que a estrutura de versículos da Bíblia (proposta por Robert Estienne em 1555) não a torne bastante apropriada para o Twitter?

Ainda assim, seja através do “grunhido”, como afirma mestre Saramago, ou mesmo de um (improvável) silêncio total, ainda assim, a literatura, imagino, não deixará de ser som e pausa. Por isso, sempre que possível e necessário, quando as desesperanças sobrepujam as esperanças, recorro à sobriedade de Maurice Blanchot (compartilhada, claro, por Roland Barthes):

Escrever sem “escrita”, levar a literatura ao ponto de ausência em que ela desaparece, em que não precisamos mais temer seus segredos que são mentiras, esse é o “grau zero da escrita”, a neutralidade que todo escritor busca, deliberadamente ou sem o saber e que conduz alguns ao silêncio.

Assim, cada escritor continuará fazendo da escrita, seu problema, e desse problema, o objeto de suas decisões. A literatura é um meio onde tudo se transforma. É uma tentação mantê-la e, ao mesmo tempo, querer (inutilmente) destruí-la. Entretanto, apesar de tudo e de todos, pressinto que ela permanecerá (tem sido assim por séculos) em sua neutralidade, pois é esse, enfim, o elo divino que nos une a todos: a tradição e a modernidade.




Claudio Soares