04/10/2009 Número de leitores: 852

Guerra nas Estrelas turco

Alfredo Suppia Ver Perfil

Guerra nas Estrelas (Star Wars, 1977), de George Lucas, alçou o cinema de ficção científica definitivamente à primeira fileira de produção dos grandes estúdios da New Hollywood. O blockbuster recheado de efeitos especiais seduziu platéias de diversas gerações e inspirou vários realizadores. Naturalmente, uma legião de imitações e paródias “pegariam carona” no sucesso da saga. Os Trapalhões na Guerra dos Planetas é apenas um de vários títulos ao redor do mundo que se apoderaram do universo de George Lucas. Na Turquia houve não exatamente uma paródia, mas uma imitação “escancarada” de Star Wars, conhecida como Turkish Star Wars (Dünyayi kurtaran adam ou, na tradução literal para o inglês, The Man Who Saves the World, 1982), dirigido por Çetin Inanç.[1] É pouco útil tentar resumir o enredo dessa produção, tão confusa e precária que nos faz repensar a categoria do trash movie. O filme faz uso indiscriminado e abundante de trechos de Star Wars sem o menor constrangimento, mesclados a cenas documentárias, pedaços de outros filmes e imagens originais. Até a trilha sonora de Indiana Jones é apropriada, surgindo nos momentos de heroísmo e ápice da aventura. Segundo o IMDB[2], além da trilha de Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, dir.: Steven Spielberg, 1981), também foram utilizados trechos das músicas do episódio de James Bond Moonraker (dir.: Lewis Gilbert, 1979), Flash Gordon (dir.: Mike Hodges, 1980), O Planeta dos Macacos (Planet of the Apes, dir.: Franklin J. Schaffner, 1968) e O Buraco Negro (The Black Hole, dir.: Gary Nelson, 1979).


Colagem esquizóide ou “geléia geral”, Guerra nas Estrelas Turco narra a aventura de dois valorosos pilotos turcos, Ali (Aytekin Akkaya) e Murat (Cüneyt Arkin), num futuro em que a humanidade conquista o espaço e a Terra, protegida por um escudo, é vítima do ataque de forças alienígenas, lideradas por um tal “Mago” (“The Wizard”). O “Mago” é o grande vilão ao estilo de Darth Vader, porém com figurino diferente, espécie de encarnação do mal e da vingança obcecado pela conquista da Terra. Nesse tempo, os humanos aprenderam a usar o cérebro como fonte de poder. Os alienígenas não têm cérebro, e o Mago precisa desesperadamente de um cérebro humano para conseguir conquistar a Terra.

Numa batalha, Ali e Murat são abatidos e caem num estranho planeta. Acabam encontrando as pirâmides do Egito, a famosa esfinge e pinturas egípcias. Ao longo do filme, são usadas como locações ruínas, construções antigas, mesquitas, etc. As paisagens, provavelmente da própria Turquia, são tão singulares que simulam satisfatoriamente ambientes extraterrenos (artifício já explorado pelo Star Wars original).

Os cortes são rápidos e a câmera é muitas vezes acelerada nas cenas de luta, talvez numa tentativa de disfarçar a precariedade. O filme repete várias cenas e não disfarça a imitação dos filmes de Kung Fu rodados em Hong Kong. Os heróis enfrentam os alienígenas, monstros e robôs liderados pelo Mago em combates com coreografia bizarra. Porém, diversamente do que ocorre em Os Trapalhões na Guerra dos Planetas, a intenção não parece nunca ser o riso. Algumas cenas, no entanto, chegam a ser hilárias de tão bizarras, como o treinamento físico dos heróis com pedras amarradas às pernas.

Depois de enfrentarem soldados do mal pela primeira vez, os heróis encontram humanos descendentes de uma civilização outrora avançada. Esses humanos pacíficos vivem num contexto “atecnológico”, diferente do dos heróis, pilotos de espaçonaves acostumados com tecnologia. Mais uma vez, num procedimento comum a filmes de ficção científica do Terceiro Mundo, a virtude é encontrada entre os que estão mais próximos da natureza, não da ciência e tecnologia.

A popular cena da taverna em Star Wars é imitada nesta versão turca, com direito aos heróis distribuindo pancadas entre os alienígenas. Murat (Cüneyt Arkin), um dos heróis, lembra um pouco nosso Cid Moreira nos anos 60 ou 70. Os alienígenas monstrengos lembram pessoas fantasiadas em supermercados oushopping centers fazendo promoção de produtos. Enfim, uma produção tosca.

 

Mas tudo isso não solapa completamente qualquer interesse pelo filme. O medo da bomba atômica perpassa toda a estória, na qual uma guerra nuclear já haveria quase extinto a espécie humana. O islamismo é mostrado como religião ancestral e o único caminho para o resgate dos valores humanos. Nas palavras do personagem líder dos humanos pacíficos, o Islã é apresentado como sinal de civilização, tendo sido o guia da justiça e da humanidade por séculos no passado. Cada muçulmano, afirma o personagem, é mensageiro do Islã e defensor da religião. Ainda segundo ele, pelo fato de os vilões terem se livrado de Deus e suas religiões, a Terra tornou-se alvo de todo o mal do espaço e mergulhou em guerras. O Corão é referido como texto que predizia toda a trajetória da humanidade até então, e Jesus Cristo é mencionado como líder de fiéis que enfrentaram blasfemos e construíram cidades subterrâneas graças à tecnologia avançada. As referências religiosas não estranham, haja vista o fato de também estarem presentes no Star Wars original. Curioso aqui é a adaptação a uma visão de mundo muçulmana.

Murat se arma com uma espada bizarríssima e consegue derrotar o perverso Mago. Ali, porém, morre na empreitada. A ordem é reestabelecida e a comunidade pacífica de humanos saúda Murat em sua despedida para retorno a Terra. O filme encerra afirmando a importância da paz e a centralidade do homem enquanto valor universal. Ao todo, são uma hora e meia, aproximadamente, de um filme tosco, mas que revela muito das peculiaridades culturais do contexto em que foi realizado.



 


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[1] A resenha de Turkish Star Wars aqui escrita deve ser considerada com cautela, uma vez que tive acesso a uma cópia com legendas da internet e não tenho a menor competência em turco para avaliar o conteúdo das falas com precisão.
[2] www.imdb.com

Alfredo Suppia