16/11/2009 Número de leitores: 780

Dublê de corpo

Alfredo Suppia Ver Perfil

Substitutos (Surrogates, 2009), de Jonathan Mostow, pode ser visto como uma espécie de Matrix hardware. As primeiras cenas, ainda entremeadas por créditos iniciais, evocam em retórica documentária pesquisas em neurociências como as do brasileiro Miguel Nicolelis - o macaquinho movimentando um braço mecânico com a força do pensamento. Basicamente, Substitutos é uma extrapolação de pesquisas dessa natureza (controle mental de próteses mecânicas), com dose de especulação sociológica sobre uma sociedade futura do simulacro, onde impera a mais absoluta vicariedade. Nesse sentido, descende de pelo menos um mito ancestral (o Golem), bem como de uma linhagem nobre de filmes como Metropolis (Fritz Lang, 1927) e Blade Runner(1982), passando por obras mais modestas como Westworld (Michael Crichton, 1973) ou The Stepford Wives (Bryan Forbes, 1975). Vale a pena notar a incidência insistente da retórica documentária (via mockumentaries ou imagens de arquivo, deslocadas de seu contexto original), seja em seqüências introdutórias, a exemplo de O Monstro da Lagoa Negra (Jack Arnold, 1954), encenadas (A Mulher na Lua, Fritz Lang, 1929, ou Meninos do Brasil, Franklin J. Schaffner, 1978) ou intermitentes, como Alive in Joburg (2005) ou Distrito 9(2009), de Neill Blomkamp.

No futuro de Substitutos, todo cidadão que se preze fica em casa o dia todo, enquanto quem sai à rua, trabalha e curte a vida noturna é o seu duplo mecânico (versão contemporânea do velho Doppelgänger do Romantismo alemão), seu “substituto” (surrogate) ou simplesmente “sub”: um robô humanóide, mais ágil, forte, belo e atraente que qualquer ser humano médio. Graças a essa tecnologia, desenvolvida pelo Dr. Canter (James Cromwell), os índices de violência e a incidência de doenças contagiosas sofreram queda significativa ao redor do mundo. A humanidade vive uma utopia em que acidentes e limitações físicas são coisas do passado. Qualquer “unidade” avariada é prontamente substituída ou reparada, enquanto seu “operador” ou “controlador” vive em segurança, recluso em sua residência.

Mas, como em toda sociedade, a dissidência é um fator altamente provável. A ausência total de riscos ou demais experiências na própria pele gera um mal-estar nessa civilização do controle remoto. Algumas pessoas vivem à margem dessa utopia robótica, seja por necessidade ou por opção de vida. São os “meatbags” (“sacos de carne”) ou dreads, gente que insiste nos velhos hábitos da boa vida arriscada em carne e osso. Os dissidentes vivem em guetos, apartados das áreas mais nobres das cidades, por onde circulam apenas substitutos. O conflito surge quando, pela primeira vez, substitutos são atacados por uma arma diferente e seus operadores terminam assassinados à distância. Esse evento coloca em cena dois detetives, Tom Greer (Bruce Willis) e Peters (Radha Mitchell). O resto são convenções de gênero: drama familiar, policial e ficção científica.

Curioso notar como a extrapolação proposta por Substitutos parece bastante próxima do nosso atual modo de vida, capitalista pós-industrial. O substituto (andróide) nada mais é que um veículo, inicialmente empregado com finalidades militares, mas que logo ocupa o centro da vida civil. Assim como outra peça dehardware que bem conhecemos: o automóvel. Substitutos são os automóveis do futuro. Atualmente, os carros são as “armaduras” com as quais enfrentamos o espaço público em metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo – os mais abastados circulam em carros blindados. Dessa forma, automóveis também sãoavatares. Por que não ampliar o conceito de automóvel, tornando-o tão prático, atraente e funcional como o próprio corpo humano? A semelhança entre os automóveis de hoje e os “subs” do filme é tão grande que, na fábula, os andróides são comercializados em versões básicas, intermediárias e completíssimas. Um “sub” básico pode ser “dormente”, ou seja, oferece apenas visão e audição a seu operador. Deseja tato e outros sentidos? Pague pelos opcionais. Conhecemos muito bem esse cenário. Na sociedade proposta porSubstitutos, automóveis e demais veículos tornam-se unidades secundárias àquela que se tornou a principal interface do homem com a natureza: o andróide. E assim como o motorista inveterado, que ganha peso e doenças provenientes do sedentarismo, o ser humano original na utopia de Substitutostorna-se um “caco”. Falta de sol, exercício e interação com a natureza provocam problemas de pele, depressão, atrofia muscular, etc. 

O filme de Mostow brinca com algumas possibilidades advindas dessa utopia, como o trans-sexualismo, e veicula, ainda que de forma por vezes ingênua e pouco original, algum conteúdo de crítica a uma sociedade das aparências. Mas o interesse talvez cesse por aqui. Uma análise sociológica ou conteudística até poderia extrair mais aspectos interessantes dessa produção. Por outro lado, em termos formais, Substitutos é mais um filme em que recursos digitais sofisticados servem a propósitos dramático-narrativos convencionais e conservadores, um cinema do hiper-real, cujo maior interesse reside em especulações da ordem do argumento, temperado por atrações pirotécnicas. Mais interessante, no entanto, que a maioria de action-movies recentes sobre robôs.




 

 

Alfredo Suppia