25/11/2009 Número de leitores: 637

Não tentemos ser clarices

Jeanette Rozsas Ver Perfil

Por Jeanette Rozsas
 


                   (caraminholas sobre o Ovo e a Galinha, de Clarice Lispector)



, e a empregada serviu o almoço. No meio da mesa, a travessa branquíssima cercada de folhas e legumes; no centro, bem no centro, um único ovo. Com casca e tudo. Um ovo para toda a família?, eu ia reclamar, mas o ovo me fez refletir. Afinal de contas, o que é um ovo? Sim, um só ovo, e lembrei-me de O Ovo e a Galinha, da Felicidade Clandestina, de Clarice. Não que eu tenha a ver alguma coisa com Clarice, longe de mim a pretensão (ou mesmo a vontade). Bom, mas o ovo. Se para a própria autora era este o conto mais hermético, mais incompreensível de toda a sua produção, não vou perder tempo em tentar entendê-lo, mesmo porque não era esta sua intenção. ?Ou toca ou não toca?, disse ela uma vez. Única brasileira no Primeiro Congresso Internacional de Bruxaria ocorrido em Bogotá, 1975, pediu que fosse lido O ovo e a galinha e que a leitura não fosse ouvida apenas com o raciocínio. ?Se meia dúzia de pessoas realmente sentirem esse texto, já ficarei satisfeita?, foi o que afirmou na ocasião e que vale até hoje. Então, vamos ao ovo. O que eu vejo, ao contrário do conto de Clarice, não está na cozinha mas sim na sala de jantar, bem no centro da travessa branca. Solitário e monumental no seu mistério. Qual mistério? Ora, talvez para Clarice ou para a galinha que, de repente, viu seu futuro rebento sumir da chocadeira. Para mim, um ovo é um ovo é um ovo; tudo se resume a uma questão de olhar. Mais do que o ovo, vejo o texto, o de Clarice e de tantos outros, olhares lançados sobre palavras  que se mantém há milênios e assim será independentemente do suporte: papiro, papel, tela, kindle, que importa... O que ela quis dizer no seu conto-ensaio senão que a literatura se mantém viva enquanto sobre ela houver reflexão? Nesse contexto, acho o ovo óbvio: é literatura. Isso, para mim que escrevo. Se fosse filósofa, diria que o ovo é o existir e se fosse psicóloga, diria que o ovo é o sentir. Mas sou escritora, então tudo converge para o meu mundo de idéias, solitárias no meio de uma travessa branca enquanto não forem decodificadas e passadas para o papel. Se o ovo é uma exteriorização do ser, como quer Clarice, então cada um tem sua própria casca. Cada casca, cada ovo é um e um só. Quem tem fome de ovo-texto que se debruce sobre tudo o que já foi escrito para depois, finalmente e muito depois, poder desnudar-se, como quer Clarice, ou reconhecer-se, como digo eu, na sua própria casca. A casca é a casa do escritor, sua, só sua, impossível de usurpar. Na arte não cabem joões-de-barro. Mas cabem olhares, ainda que sobre um simples ovo que assim se torna eterno. Fossem os trágicos gregos, o ovo estaria no centro de um conflito familiar terrível, onde os homens nada poderiam fazer senão obedecer aquilo que os deuses lhes reservaram, o destino tristemente lamentado pelo coro. E nós, o público, num processo catártico, sairíamos do teatro aliviados já que o problema não era nosso, mas sim do ovo e da galinha grega. Diferente se  fosse o olhar de Brecht, que nos manteria num distanciamento proposital e assim carregaríamos o problema-ovo para casa, a trama sem solução ocupando nossos pensamentos por dias e dias. Pulando para a Dinamarca, quem sabe um príncipe angustiado faria um solilóquio em torno do ovo solitário: comê-lo ou não comê-lo? Elementar, meu caro Watson, interviria Sherlock Holmes e resolveria o problema nas linhas de Conan Doyle que, ao invés de ser famoso por causa do detetive, queria mesmo era ser reconhecido pelos seus chatíssimos ensaios sobre História. A propósito, cada um sabe o ovo que carrega, não escolhe a casca. Poirot certamente reuniria os suspeitos numa sala e após interrogá-los, contaria para a Dama do Crime qual o culpado pelo ovo, seu desaparecimento  ou seu plágio. Num pub de Dublin, Leopold Bloom pararia à noitinha, antes de voltar para casa, e talvez tomasse um eggnog... Mas eis que numa montanha mágica, cheia de neve e solidão, vemos o ovo como centro das atenções numa festa de internos num sanatório idealizado e alienado da vida da planície, mal sabedores que seu mundo, cercado de proteção, estava prestes a desabar. Pensemos na galinha deitada no divã freudiano, sofrendo a síndrome do ninho vazio, enquanto o ovo certamente sente falta daquele interior que o abrigou, numa indisfarçável pulsão edipiana. Êpa, alguém poderia dizer: em se tratando de galinha não é pulsão mas sim instinto. Então pergunto: desde quando galinha tem instinto? Taí um outro problema para pensar. Mas voltando sempre ao ovo, fico me perguntando se ele não seria filho daquela galinha de domingo, conto exemplar da mesma Clarice, que, sozinha no mundo, sem pai nem mãe, pairava ofegante num beiral de telhado, aquela mesma que ia virar almoço e acabou se tornando um dos cem melhores contos brasileiros. Por ela interveio a menina:

- Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! ela quer nosso bem.

Assim como a menina, uma vez prometi (e não cumpri) nunca mais comer galinha. Mas e Mrs. Dalloway? Ou a Bovary? O que diriam elas sobre o ovo no centro do mundo? Na Rússia czarista, tomar de assalto um ovo seria um crime seguido do necessário castigo? E se Gregor Samsa tivesse acordado de um sono agitado e visse que se transformou num imenso... Chega!Quanta bobagem, meu Deus. A ficção não tem fim, ainda que seja em torno de um mero ovo. Bem disse Santa Tereza D?Avila que a imaginação é a louca da casa. A muito custo, ponho as infinitas ligações literárias de lado (que não são perigosas como as de Chordelos de Laclos) e volto à realidade que me cerca. Para evitar a tentação de mais digressões, alcanço o ovo na travessa, levo-o para a cozinha e com um ligeiro estalo da casca, abro-o em cima da frigideira onde se dá a maravilhosa transformação: de mero líquido pegajoso e mal-cheiroso surge, no dourado da manteiga, um dueto de clara e gema, cheiroso, borbulhante, fonte de inefável, indizível, inimitável prazer. Basta senti-lo, sem tentar entender. Era isso, Clarice?:









Jeanette Roszas é escritora e advogada. Publicou Feito em Silêncio, editora Vertente, e Autobiografia de um crápula.  E-mail: jeanbe@uol.com.br

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