05/01/2010 Número de leitores: 1229

Avatar e a vida por procuração

Alfredo Suppia Ver Perfil

Vale a pena chamar a atenção para a recorrência de um tema em especial no cinema de ficção científica recente: a vicariedade. Trata-se da substantivação do adjetivo vicário, do latim vicariu, significando “Que faz as vezes de outrem” (http://michaelis.uol.com.br) ou “o que substitui outra coisa ou pessoa”. Pelo menos três filmes destacados trataram desse assunto entre 2008 e 2009.

Lançado em 2008, Sleep Dealer, de Alex Rivera, já foi descrito como “Matrixlatino-americano”. O longa de certa forma adapta e expande Why Cybraceros?(http://www.vdb.org/smackn.acgi$tapedetail?WHYCYBRACE)mockumentary do mesmo diretor, e especula sobre um futuro em que trabalhadores latino-americanos vendem sua força de trabalho aos EUA, operando máquinas à distância por meio de ferramentas de realidade virtual (RV). O diretor Alex Rivera e o roteirista David Riker faturaram o Alfred P. Sloan Feature Film Prizee o Waldo Salt Screenwriting Award no Festival de Sundance 2008. Sleep Dealertambém abocanhou o Amnesty International Film Prize do Berlin International Film Festival 2008, entre outros prêmios. O filme foi lançado comercialmente em DVD em 9 de agosto de 2009.

Substitiutos (Surrogates, 2009), de Jonathan Mostow, apresenta um futuro não muito distante em que as pessoas vivem por intermédio de avatares cibernéticos, andróides que saem às ruas e cumprem as funções cotidianas de trabalho ou de vida social, enquanto seus operadores atrofiam reclusos em suas casas. Filme de ação convencional com o “Duro de Matar” Bruce Willis, Substitutos traz algumas especulações interessantes sobre a geração Second Life. Escrevi mais detidamente sobre esse filme emhttp://www.cronopios.com.br/site/colunistas.asp?id_usuario=74#texto.

Finalmente, Avatar (2009), de James Cameron, coroa essa pequena onda de filmes sobre vicariedade. Nesse longa-metragem, exibido em cópia 3D em algumas salas digitais (assisti no Cinemark do Shopping Paulista), Jake Sully (Sam Worthington), um jovem fuzileiro naval, paraplégico, é engajado num projeto de pesquisa que envolve transmissão de consciência para corpos de uma espécie humanóide que habita o planeta Pandora, os Na’vi. Tal projeto, capitaneado pela Dra. Grace Augustine (Sigourney Weaver), é uma alternativa ao confronto armado e visa a convivência pacífica entre humanos e Na’vi. Com subsolo rico em recursos naturais, Pandora é alvo da cobiça de uma corporação milionária. Os Na’vi são um empecilho para a exploração comercial, visto que habitam o coração de uma reserva mineral valiosíssima. Para eliminar esse problema, a corporação conta com militares mercenários, ávidos por matança e extermínio. Qualquer semelhança com a colonização das Américas não é mera coincidência. Jake Sully opera como agente duplo por um bom tempo, até que se apaixona por Neytiri (Zoe Saldana) e é definitivamente seduzido pelo modo de vida Na’vi. Entra em cena o velho dilema identitário, mas nada que um herói apaixonado não consiga resolver.

Mistura de Pocahontas (1995) e Dança com Lobos (1990), Avatar aborda o velho drama moral do homem dividido entre dois mundos, entre a sanha devastadora do processo civilizatório (mais especificamente do imperialismo econômico) e o romantismo de crenças anímicas arcaicas, identificadas com a pureza de uma terra virgem e equilibrada. Alusões à Guerra do Iraque e uma caricatura de George W. Bush na figura do “milico” Miles Quaritch (Stephen Lang) são facilmente identificadas. Mas Cameron não é Kubrick, e o teor de crítica ao militarismo deixa saudades de Dr. Fantástico (1964).

Avatar traz muito do mesmo (um dos maiores sucessos de Cameron, Aliens: O Resgate, está todo ali, muito embora em “modelito” ideológico aparentemente revisado), e sua maior qualidade está mesmo em sua fotografia, efeitos especiais e design de produção – vulgarmente falando, em seu visual. Chama a atenção toda a flora e fauna de Pandora, o conceito de Gaia (James Lovelock) subjacente à morfologia curiosa dos animais hexápodes ou alados – ponto para o design de produção, esse setor já tradicional e de costumeira competência no cinema industrial americano. O filme traz uma experiência visual marcante, e se apresenta como o mais novo representante de uma tendência apontada especialmente por Lev Manovich (“What is Digital Cinema?”, disponível emhttp://www.manovich.net/TEXT/digital-cinema.html), a do cinema digital que resgata a animação, o fascínio tecnológico pré-cinematográfico e a dimensão espetacular do primeiro cinema de volta para o centro da indústria audiovisual.

Mais especificamente, Manovich advoga que as animações pré-cinematógrafo, características do século XIX e presentes em vários instrumentos conhecidos como pré-cinema (taumatrópio, fenacistoscópio, praxinoscópio, zoopraxinoscópio, etc.), foram marginalizadas em favor do cinematógrafo Lumière, frente à ascensão do cinema live-action das imagens de atores em carne e osso, atuando em paisagens naturais (ou artificialmente naturalizadas) - enfim, aquele que viria a se tornar simplesmente o cinema. Com a tecnologia digital, observa Manovich, o cinema de animação reencontra seu lugar de destaque no mainstream. Em resposta ao cine-olho de Vertov, Manovich propõe o kino-brush característico do cinema digital, definível por meio da seguinte equação: “digital film = live action material + painting + image processing + compositing + 2-D computer animation + 3-D computer animation” (“What is Digital Cinema?”, disponível em http://www.manovich.net/TEXT/digital-cinema.html).

Avatar foi rodado originalmente em 3D a 24 frames por segundo, embora Cameron considere a taxa de 48 frames por segundo mais adequada a filmagens 3D, por amenizar o efeito estroboscópico. Segundo Cameron, “Logicamente o formato ideal de projeção é 3D/2K/48fps. Eu adoraria ter feito Avatar a 48 frames. Mas eu tenho de travar essas batalhas uma de cada vez. Estou feliz que as pessoas estejam acordando para o 3D.” (ver entrevista de Cameron àVariety, disponível em http://www.variety.com/article/VR1117983864.html?categoryid=1009&cs=1)

As filmagens live-action foram realizadas com uma versão modificada da câmera 3D digital Fusion (Fusion Camera System), desenvolvida por Cameron e Vince Pace. De acordo com Cameron, Avatar seria composto por 60% de elementos gerados em computador (computer-generated elements) e 40% live action, incluindo modelos em miniatura (entrevista de Cameron à Variety, disponível em http://www.variety.com/article/VR1117983864.html?categoryid=1009&cs=1)

Avatar parece corroborar o diagnóstico de Manovich a respeito do cinema digital contemporâneo. Raros os planos em que não se percebe (ou se infere) o emprego da animação ou a interferência de uma “paleta” digital. No entanto, tal tecnologia tem servido, em filmes como o de Cameron e demais blockbustersequivalentes, ao ilusionismo clássico hollywoodiano, um programa estético tradicional cuja ideologia diretiva é bem conhecida.

Enfim, o denominador comum que reúne os três filmes citados aqui é a especulação sobre a vicariedade, algo que retoma uma preocupação razoavelmente antiga, e que antecede em muito tempo a tecnologia digital. Avatares cibernéticos já povoam a ficção científica há décadas, como na prosa de William Gibson (Neuromancer, 1984) ou de James Tiptree Jr. (pseudônimo da escritora Alice Sheldon), em contos como “The girl who was plugged in” (1973) ou “A momentary taste of being” (1975) (Her Smoke Rose Up Forever, San Francisco: Tachyon Publications, 2004). Entretanto, tecnologias contemporâneas de comunicação, em especial novas possibilidades de comunicação remota, realidade aumentada, realidade virtual e imagem em super-alta-definição, têm notadamente re-aguçado a curiosidade em torno de experiências vicárias. Meu palpite é que o cinema ainda vai lançar idéias interessantes nesse terreno, como já tem feito desde pelo menos os anos 1990, e estudos mais aprofundados sobre especulações cinematográficas acerca de experiências vicárias – como nos três filmes mencionados aqui – deverão ser procedidos. Quem viver verá.

 

Alfredo Suppia