09/01/2010 Número de leitores: 843

Jovino Machado: o poeta da era do ar condicionado

Bruna Galvão Ver Perfil

Por Bruna G. Galvão


 


                                                    Jovino Machado


A impressão que se tem é que ele está sempre com a inspiração a lhe acompanhar lado-a-lado. Em diversos momentos, compartilhados por simples e-mails, cada palavra parece ter sido escolhida cuidadosamente, como flores para um arranjo; e no meio deste seu contar, surgem expressões um tanto quanto diferentes, quando o que se espera, é apenas uma simples conversa informal: ?um beijo azul?, despede-se ele; ou então, falando sobre o desafio de sua vida, explica que busca o ?equilíbrio entre o dionisíaco e o apolínio?.
Assim se expressa o poeta mineiro Jovino Machado. Graduado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ele possui uma grande bagagem em termos de carreira: são 11 livros publicados (o último ?Cor de Cadáver? em 2009), participações em antologias nacionais e internacionais e publicações em veículos consagrados da literatura (como o Rascunho de Curitiba e o Suplemento Literário de Minas Gerais). Só que Jovino também traz em seu currículo atuações como jornalista, capoeirista, figurações em cinema e em recitais. Como se ainda não bastasse, administra três restaurantes em Belo Horizonte, onde vive atualmente.

A seguir, a definição da ?Felicidade?* para o poeta:

O céu está azul
O mar está calmo
O campo está florido
O meleca do nariz secou

*(Machado, Jovino. Cor de Cadáver. Belo Horizonte: Anome Livros, 2009, pg, 16)

No meio de todo um correio eletrônico surge a seguinte entrevista:


Quem nasceu primeiro: o poeta ou o Jovino?

Jovino: Quando nasci, minha mãe me disse: "Vai, Jovino ser gauche na vida?.

Como foi a sua infância?

J: A minha infância foi maravilhosa. Fui menino criado no interior com muita fruta no quintal. Tinha também galinheiro e passarinhos. Morei em muitas cidades de Minas. Em todas elas sempre tinha um campinho de futebol perto de minha casa. Meu pai comprava jornais, revistas e livros. Minha mãe comprava enciclopédias. Eu gostava muito de desenhar e aos domingos sempre ia ao cinema assistir filmes de bandido e mocinho e também dos Trapalhões.

No seu livro "Fratura Exposta", você fala em uma "máquina de pensar". Quais são as ferramentas que movem esta máquina?

J: A ferramenta maior é o grande desejo de construir uma obra poética.

Como a sua poesia amadurece?

J: Na falta, na dor, na tristeza e na morte.

Qual a diferença entre o poeta Jovino em seu primeiro poema e o poeta Jovino em seu último poema?

J: A diferença é a ingenuidade que não existe mais.Quando eu escrevi meu primeiro poema eu achava que a vida era só alegria. Hoje vejo que tristeza não tem fim, felicidade sim. O meu "último poema" fala da dor que estou sentindo como a morte de meus amigos Lúcio Tadeu, Alécio Cunha e Fernando Machado.

O que tem no estado de Minas Gerais que faz muito de seus "filhos" serem escritores?

J: Tem Drummond, Rosa e Darcy Ribeiro que são grandes influências e no outono tem uma luz cinematográfica.

Você nasceu na época certa?

J: Sim, adoro avião e ar-condicionado.

Qual a melhor época para se nascer?

J: Não sei, mas acho que teria sido maravilhoso ser pintor na Paris de Lautrec e Modigliani.

Como é administrar três restaurantes? É difícil? O tempero na comida e nos poemas é o mesmo?

J: É muito difícil. Tenho que matar um leão por dia. Sou sócio de meus irmãos e isso ajuda muito. Eu tenho a sorte de ter cozinheiras maravilhosas. O tempero é o desejo de sempre fazer o melhor na comida e na poesia. É preciso ter delicadeza, paciência, coragem, sorte e determinação.

Quais são seus hobbies?

J: Andar de bicicleta, ler jornal e tomar cerveja assistindo a tarde cair.

A poesia tem sexo? Teria também forma, cor, nome e sobrenome?

J: A poesia é do sexo feminino, tem a forma das belas pernas da musa, usa roupas pretas e bebe uísque com os poetas.

Vejo que você tem um grande interesse pela astrologia. Mas o que você realmente pensa sobre ela? De qual signo o leonino Jovino não seria de jeito nenhum?

J: O interesse é apenas poético. Amei virginianas, librianas e arianas.Eu jamais seria geminiano, mas seria do signo de escorpião que é puro sexo.

Quais são seus ídolos?

J: Drummond, Glauber Rocha, Baudelaire, Xico Sá, Clarice Lispector, James Joyce, João Gilberto, Hilda Hilst, Chico Buarque, Pasoline, Monteiro Lobato, minha mãe, Sônia Braga, meu pai, Darcy Ribeiro, Chet Baker, Nelson Cavaquinho, Picasso, Frida Kahlo, Ella Fitzgerald, Balzac, Marcel Proust, Torquato Neto, Charlie Parker, Godard, Almodóvar, Woody Allen, Swann e Odete, Rimbaud, Fernando Pessoa, Ricardo Piglia, Manuel Bandeira, Cartola, Mário de Andrade, Pagu, Sartre, Simone de Beauvoir, Miró, Auguste Rodin, Camille Claudel, Sá Carneiro, Rê Bordosa e etc...

Se você pudesse viver em um livro e vivenciar toda a sua história, em qual seria? Gostaria de ser algum personagem em especial? Ou seria o Jovino mesmo?

J: Eu seria o Ulisses  da Ilíada e da Odisséia. Não é fácil estar dentro de meus sapatos. Quando eu crescer quero ser o Tom Jobim.

Fernando Pessoa diz: "Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura". Até onde você enxerga?

J: Sou do tamanho do que sinto e tenho 1 e 78 de altura como Stephen Dedalus do romance Retrato do artista quando jovem de James Joyce

Do que você tem medo? 

J: Tenho medo da dor, do sofrimento e da morte das pessoas que eu amo.

O que você ainda busca?

J: Sou como Balzac. Somente duas coisas me interessam: o amor e a glória.

A poesia é a melhor arte?

J: A poesia é o patinho feio das artes. Na minha imodesta opinião é superior à música, ao cinema e pintura.

Conte-me um segredo.

J: Só posso contar bem baixinho no seu ouvido!!!





 

Bruna G. Galvão é jornalista, formada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa em 2008. Sua paixão por jornalismo a fez envolver-se em diversos projetos durante sua vida acadêmica. Foi repórter de "O Ponteiro - o boletim cultural dos Campos Gerais" entre 2005 e 2006; repórter cultural do programa "Rádio Resistência" em 2006 e 2007; realizou dois curtas-metragens em 2005 e 2007; um rádiodocumentário em 2008 e foi assessora de comunicação e de imprensa entre 2007 e 2008. Quando criança, foi "repórter-mirim" do jornal "O Popular". Reside em Goiânia há poucos meses, e já morou nos estados de São Paulo e Paraná. Tem 23 anos.
E-mail: brunaggalvao@hotmail.com

Bruna Galvão