12/01/2010 Número de leitores: 707

Aí tem dedo de moça...

Jussara Salazar Ver Perfil

Por Jussara Salazar

 

No dia 19 de dezembro de 2009, o sonho de algum tempo foi materializado: o lançamento de Dedo de Moça ? Uma Antologia das Escritoras Suicidas (Editora Terracota, org. de Silvana Guimarães e Florbela de Itamambuca). São trinta escritoras, que há quatro anos estão no ar com seus textos, no site que leva o mesmo nome, Escritoras Suicidas, espaço onde não há questões de gênero, número ou grau, e que para além da mesmice ou do ranço dos grupos fechados, carrega o segredo e a esperteza da escuta e da escrita. Meninas e meninos. Todo mundo fica feliz quando sai uma nova edição, todo mundo vota os temas, a palavra é sempre de todas, e talvez aí esteja o mistério do ?território místico e mágico?, segundo a definição de Nelson de Oliveira, que assina a orelha do livro. Repartimos o pão todos os meses, religiosamente profanas, desbocadas ou recatadas, o que vale é escrever, sem limites e com a graça humana de sermos tão literariamente e assumidamente um site de moças de todos os gêneros. Aqui dá pra conferir uma ?prova? do livro, em sete poetas, só porque não cabia todo mundo, que também é só ir até www.escritorassuicidas.com.br para conferir que ?elas estão vivas!? (como disse Guttemberg Guarabyra na apresentação da antologia). E os textos que o digam.



                                               * * *



Cida Pedrosa



diáspora

abro os olhos

e a quarta-feira é cinza


as taras da noite me perseguem

neste quarto de hotel


é bom acordar sem deus

descer a rua

e ver o mesmo flanelinha no ofício


diáspora

palavra que me segue

sem pedir perdão


sou retalho carne dilacerada

fragmento escuridão


abro as pernas no sinal

os carros passam

e o vento leva pó para o meu rosto


a noite chega

a quarta-feira é cinza

e faz tanto tempo que me perdi de mim





angélica

o pênis de angélica

era de plástico

passou a vida a esfregar-se no espelho


eis a sina

mulher ou homem


injusto desígnio

para quem precisa-se

inteiro por dentre as coxas


voz rouca sob os lençóis

desejo de iguais

porra

bocetas também são objetos de encaixe





                                               * * *




Florbela de Itamambuca



neblina

tudo ou nada perdi com o tinhoso
vem saudade no canto da saíra
meu caminho trançado com embira
entreguei ao menino curioso

ê meu deus quanto sei do que preciso?
nessa vida aprendi que o mundo gira
negaceio um raspão na ziguizira
quexada de jumento em cão nervoso

adão escurraça deus do paraíso
cobra escorrega o corpo a língua e o guizo
perdição esconde o rosto na neblina

passarinho esvoaça essa cortina
ilumina seu corpo e meu sorriso
me leva na janela da menina




rodamoinho

antes eu conhecesse de você
mesmo sem nem você nem convidar
foi só pousar as vista e ogunhê
é quem chega quem leva quem traz mar

tiro no escuro, aí que a gente vê
se tanto fogo é palha ou tronco ipê
olho dágua na encruza do lugar
borbulha o rodamoinho no luar

se for perder nas onda de quem ama
vira prum lado vira pro outro lado
firma nessa canoa, o fundo chama

entre o mar entre a mata tá encantado
se cruza o pé na brasa não reclama
o que é do meu caminho tá guardado




                                               * * *




Jane Sprenger Bodnar



instalação

não importa
quero aberta a janela

perigo não há
já me assaltaram tantos sonhos

leve tudo
deixe apenas a luz do sol

grudada na parede
grafitando
o nome das horas




casa

nossa casa é o melhor lugar do mundo
e por não estarmos sós no universo, e por estarmos
tão sós no universo, busco o melhor do mundo
em outras histórias.
mesmo no desconcerto, entre o cheiro de lençóis alheios,
um sofá antigo, único habitante de uma enorme sala vazia.
a vida, vem de uma maçã,
que mora há dois dias numa bolsa e logo mais será um beijo.
a insônia aposta com a madrugada
quem ouvirá primeiro o despertador.




                                               * * *




Líria Porto



no muro das lamentações

chorei todos os rios
depois chorei os mares e oceanos
chorei todas as lágrimas das viúvas
todas as chuvas
molhei lenços lençóis
e fronhas

chorei as pitangas





la bella donna

os olhos são noites
o cheiro manhãs
são tardes seu colo
seu sexo agoras
os seios auroras

o tempo advoga
a seu favor




                                               * * *




Márcia Maia



tocata

sob os lençóis azuis
a nudez do corpo expande
a solidão da casa

um cheiro de cio
se desprende das paredes
o silêncio geme

o espelho desfia
kama-sutras em imagens
de amores antigos

o corpo ainda nu e
adormecido num tremor sutil
se contrai e umedece

e então de súbito amanhece




emersão

exíguoespelhoespaço
espiralerguida
entreadoreosalto

feraencravada
entreacórneaearetina
amormorrente

entreapresaeoato
alínguaodenteosangueagarra

eumtigresuspensonoolhar




                                               * * *




Valéria Tarelho



valium

acordo cedo:
neuras indomadas
medos mal dormidos

bocejo um verso avesso
cheio de dedos
não-me-toques
tiques

mal espreguiço
vendo a alma ao vício:

acendo um café preto
requento o cigarro
[lembro que o poema
que ora escrevo
ainda nem foi ao banheiro]

acordo cedo
com o pé esquerdo
pisando nos meus calos




viúva negra

para cada boca
que me sorve
sirvo o mesmo veneno

vario
conforme o beijo
a dose de ar
cênico




                                               * * *




Virna Teixeira



film still # 2

ensaio voyeur da câmera, arranha-céu ao fundo
tailleur, scarpins e colarinho
uma garota em apuros, o boulevard vazio
pressa dos passos ou cerco da presa?
ensaia golpes imaginários ? jab, upper, cruzado
de luvas vermelhas, round livre
marilyn na musculação, halteres




polaróides

ao folhear o álbum perdido, olhando para a câmera. stills de um filme antigo

auto-retrato, jogo de aparências: atrevimento, concentração. office killer, nadadora, naïve. de

pernas cruzadas, sentada na janela

já não reconhece mais as perucas, os disfarces

as imagens se desintegram. são apenas paródias, mutilações

corpos de manequins de plástico desmembrados, disformes



 

*Seleção: Silvana Guimarães e Jussara Salazar

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       Dedo de Moça ? Uma Antologia
       das Escritoras Suicidas
 
       Editora: Terracota, 160 páginas
        (consulte usando a ferramenta de busca de livros 
        da parceria Martins Fontes - Cronópios)
 
 



 

Jussara Salazar, Brasil, é poeta e artista plástica. Publicou de sua autoria os livros: Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá, poemas de Leticia Volpi, (2002), Natália (2004) e Coloraurisonoros (Buenos Aires, 2008). Publicou também sua poesia em várias revistas e antologias brasileiras e internacionais. Em 2009 recebeu a Bolsa Fundação Nacional da Artes de Literatura com o livro Cantigas da Árvore Votiva. Edita a revista eletrônica de arte e literatura Lagioconda7 (http://www.lagioconda.art.br). E-mail: jussara_salazar@yahoo.com.br

Jussara Salazar