23/02/2010 Número de leitores: 919

Diálogos em Série

Ricardo Silvestrin Ver Perfil

Por Ricardo Silvestrin


Começo aqui no Portal Cronópios uma série de diálogos com poetas que admiro. O primeiro é com Nei Duclós. Jornalista desde 1970, autor de sete livros publicados de poesia, romance, crônicas e literatura infanto-juvenil e alguns inéditos de ensaios e contos. Formado em História pela USP. Nasceu em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, em 1948.






Ricardo:

"Quem tomba primeiro ensina a tombar"?

Nei:
Sim, dá o mau exemplo. Tombar é um verbo muito caro a nós, poetas daqueles idos de 1969, tempo de guerra. O Marco Celso tem um poema belíssimo que termina assim: "Tombam os primeiros homens nos trigais", que serviu de título para nosso primeiro livro, uma antologia, seleta de poemas do Celso e meus, mais os contos da Mariza Scopel. A partir desse "tombam" original fiz o "quem tomba primeiro ensina a tombar", que é um apelo à resistência. Gosto do verbo, gosto do seu som de tambor, de corpo que bate no chão, faz barulho, convoca, alerta, reclama. Agora eu pergunto: Você é um poeta estranho, presta uma atenção danada no que os outros escrevem, rema contra o autocentrismo tão comum no nosso ofício. Quem te deu régua e compasso para seres assim, completamente diferente dos teus pares? Como aconteceu esse milagre?

Ricardo:
Tombar e tambor. Belo anagrama. Lia esse verso do teu poema também pelo lado positivo. Claro, fora do sentido político, de luta, que, como disseste, era preciso não tombar, resistir. Mas vejo também pelo lado humano, de aprendizado de vida. Quem cai primeiro, e todo mundo cai e levanta na vida, ensina a cair. É preciso saber cair pra saber se levantar. A gente não acha que possa cair, até que cai. Então, é preciso saber que se cai, que é assim mesmo. Quem cai primeiro avisa e vamos juntos, uns ajudando os outros a se levantar. Não era a tua leitura, mas li isso na tua escrita. Quanta a sair do autocentrismo, comecei a gostar de escrever poesia depois de ler aos 15 anos a Antologia Poética do Manuel Bandeira. Foi uma descoberta. E segui descobrindo, Drummond, Mario de Andrade, Oswald, Nei Duclós com o Outubro e continuo descobrindo até hoje. Ganhei de presente no mês passado em São Paulo o livro do Carlos Felipe Moisés, Noite Nula. Era um evento na Casa das Rosas. É um livro maravilhoso. Há poemas excelentes como um dedicado a um lutador de boxe americano. Adoro ler boa poesia. Meus amigos João Angelo Salvadori, Ricardo Portugal, Alexandre Brito, Ronald Augusto, meu irmão Roberto, o compositor Ênio Filho (o Foca), fomos juntos escrevendo e mostrando uns para os outros durante os últimos vinte anos. Daí surgiram a Coolírica, a coleção Petit Poa, a ameopoema, as bandas Os 3 Poetas, os poETs. Fomos a Manaus com os poETs a convite do ótimo poeta Aníbal Beça, gente finíssima que morreu há pouco. Fomos a Brasília e convivemos com Nicolas Behr, Turiba, Paco Cac, Fred Maia, Portugal. Há anos visito a Alice Ruiz e ela me visita. O bom da arte e da vida é compartilhar. É bom lembrar que a gente está vivo por um tempo. Se não aproveitar, perdeu a viagem. Pergunto: vejo na tua poesia e na tua geração uma aguçada visão dos jogos de poder. Não são bobos de hoje. Farejam um canalha a quilômetros de distância. Isso foi aprendido na prática, é marca de um tempo, é bossa de geração? Essa visão de vocês faz muita falta hoje.

Nei:
Aprendemos com nossos pais. Veja bem, a geração dos nossos pais, nascida no início do século, pegou o país na carroça e entregou no avião a jato. Lutaram em várias guerras. Aos 18 anos, meu pai foi para o front, em 1930, a mesma coisa em 1932 (batalhas tremendas, sangue e morte). Solidariedade de guerra: você aprende a confiar, você fareja, como dizes, um canalha ao longe, pois é no momento decisivo que se conhece o homem, como diziam os camaradas chineses. Essa ética de guerra nos foi repassada na primeira infância. Minha casa funcionava como um quartel: refeições na hora certa, hierarquia entre os filhos, tudo sob o comando do patriarca, que nos domingos colocava os trocos em cima da mesa e dava mesada, o dinheiro para filhos e agregados. Quando soube que eu tinha levemente desrespeitado um professor (mais que isso eu não ousaria), mandou que eu interrompesse o almoço, atravessasse a rua, onde ficava o colégio, para pedir desculpas. Quando veio 64, vimos que aquilo, aquele golpe contrariava os ensinamentos paternos. Ia contra o que aprendemos desde cedo, a ética, a sinceridade, o ascetismo, dizer a verdade, ser fiel aos companheiros no meio do tiroteio. Então, fomos à luta e adotamos essa visão de mundo que não nos abandona. Somos essa percepção forjada no país que lutou. Não lutamos somente contra a ditadura (lutamos até hoje), mas principalmente contra a sacanagem, a mentira, a manipulação política. Foi o tempo mau que nos fez assim. Acabamos nos acostumando. Sobre a convivência com poetas. Tive sorte de encontrar gente boa logo de cara, quando comecei a publicar meus poemas. Os poetas e escritores amigos me ensinaram a ir para a frente, a me expor. Mas em pouco tempo acabei me isolando. Não apenas pelas demandas óbvias da vida, mas porque senti um certo cansaço na chamada vida literária (não por culpa dos escribas próximos, de primeira viagem, mas pelo excesso de muitos outros, que fizeram o cerco). Achava meio over essa coisa de poeta. E de letras em geral. Gostava, nas redações, do pessoal da arte e da fotografia. Você não sente esse mesmo cansaço no convívio com tanta gente que escreve? Pergunta paralela: sua poesia bebe mais nesse convívio ou na disparidade, na relação com outros mundos fora desse círculo? (Ricardo, me pegaste no sufragante, como diria o José Onofre. Acho que minha última pergunta soou meio antipática. Costumo cometer deslizes quando escrevo assim no bate pronto. Quis dizer outra coisa - o poeta procurando alternativas de convívio fora do seu círculo. E não, como pareceu, que acho complicada a convivência com escritores. Gosto demais, assim como gosto dos pescadores. Simples assim e não me leve a mal. Releve se não me fiz entender direito e vamos continuar quando quiseres).

Ricardo:
Maravilha a tua resposta sobre a questão do faro ideológico. Ele é verdadeiro porque nasceu da vida, da experiência. Não vem da moda de esquerda ou uma coisa de burguesia arrependida. Por isso convence na tua poesia. Sobre o convívio com os escritores e os outros artistas, penso o seguinte. Sempre andei mais pela linha das afinidades. Nunca fui muito de ser o amigo de todos. Também não sou inimigo. Mas sou sincero. Não faço sala para quem não tenho afinidade. Nesse sentido, o convívio com escritores de que gosto sempre foi muito legal. E nossa geração nascida da contracultura, nasci em 1963, cresci ali pelos anos setenta na esteira do pós-hippie, duvida das poses em geral, sobretudo, da pose de intelectual, de literato. Nesse recorte, gostando do que vejo que é bom de verdade, pelo menos para os meus parâmetros do que é boa literatura e boa arte, vivo integrado com meus pares. Isso vale também para fora da literatura. Mas sempre achei, por exemplo, as artes plásticas uma arte mais bem resolvida do que a literatura. Eles romperam mesmo com o clássico pelo clássico. A invenção virou a norma nessa arte. Isso tem seus riscos, é evidente, de se perder o parâmetro. Porém, tem o mérito, que para mim é bem maior do que esse risco, de se pautar pela pesquisa criativa, de levar o desejo humano de criar adiante, sem precisar ficar pedindo benção o tempo inteiro para os patriarcas. Minha criação dialoga com as artes plásticas. No meu livro ex,Peri,mental isso aparece bastante. Em algumas sequências de O menos vendido também. No meu novo livro, que espero lançar em breve, há uma seção toda nascida desse diálogo. A música é o outro polo de aprendizado. A prosa também. Na publicidade, fora tudo que não tem a ver comigo, há um ponto que me agrada: o otimismo. Eles são positivos, se valorizam, se dão prêmios, fazem as coisas (com grana, é claro) acontecer. Ainda, nesse clima de alargamento extra-literário, tu tens poemas que foram musicados. Já escreveste letra mesmo, um texto que pensaste como letra? Ou já criaste melodia para ser cantada com letra e tudo?

Nei:

Acho a canção brasileira a articulação da língua por excelência. De Mario Reis a João Gilberto, a língua que falamos e usamos foi dita de maneira explícita, em todos os tons, com todas as letras. Escrevi até um artigo sobre JG, O Esplendor da fala, celebrando seus ensinamentos. Penso que sou filho da bossa nova, pois em 1962 houve um milagre cultural em Uruguaiana: uma rádio inteiramente voltada para música de qualidade, a São Miguel, que era dos padres católicos. Foi ali que me libertei do bolerão e aprendi a dizer as palavras de maneira musical, pois a revolução da bossa nova permitia que pessoas sem recursos de voz pudessem cantar. Minha geração teve a vantagem da formação musical, tornada obrigatória na Era Vargas e depois descartada quando a educação virou uma cópia mal feita do pragmatismo americano. Respondendo à tua pergunta: minha poesia, até certa idade (19 anos) estava muito condoreira e derramada, era uma espécie de bolero. Quando entrei para a Ufrgs e tive contato com o modernismo, Lorca, Pessoa, combinei essa influência com a bossa nova e, temperado pela luta de rua em 1968, surgiu em 1969 Outubro e todos os poemas que no fim deram no livro em 1975. Foi grande a repercussão do Outubro entre os músicos. Bebeto Alves, Carlinhos Hartlieb, Raul Elwanger, Claudio Levitan, Mutuca musicaram poemas meus. Mais tarde, Zé Gomes pôs melodia em No mar, veremos e Minuano (está tudo na rede, no You tube), e Sergio Mello, compositor paulista que adotou alguns poemas do No meio da Rua. A verdade é que poesia é música, escrevemos de ouvido e meu trabalho na poesia é totalmente sintonizado, influenciado com a canção brasileira. Mesmo que eu voe longe dela e que tome rumos diferentes, acabo voltando a esse vetor. Isso significa que muita coisa nasce com melodia, é inevitável. Tenho inúmeras canções, totalmente inéditas (letras idem), mas jamais canto fora do ambiente doméstico por saber das minhas limitações de intérprete. Quando era adolescente, fiz várias canções junto com meu primo Vitor Hugo de Aguiar. Algumas ele punha melodia, outras nasciam com música. Ele fazia arranjos e me contava: tudo isso vem do que compuseste. Eu não acreditava, achava generosidade dele, o que de fato é. Mas isso significa que tenho um trabalho nessa área completamente fora do circuito e não canto para ninguém nem sob mira de um 38. Mas considero que tem algumas bem razoáveis. Inclusive infantis. Talvez um músico com paciência possa entender essas idéias musicais que faço sem saber tocar nada. Bueno, me entreguei. Cheguei a falar com alguns compositores sobre isso, mas acho que foi considerado over. Poeta metido, não? Nunca vi um show dos PoETs e fico curioso com essa performance de poetas no palco. Essa experiência extrapola os antigos recitais, faz parte da cultura do espetáculo. Acho essa intervenção importantíssima. Você abre a voz, canta sem medo, como um poeta músico? Como acontece essa ligação entre poema e canção, entre escrita e atividade teatral nos PoETs? Qual o segredo, qual o link? Ilumina-me, poeta!

Ricardo:

Legal essa consciência criativa. Penso que há uma sabedoria criativa que vamos desenvolvendo. Quando criamos, estamos conectados com ela. Às vezes, quando lemos apressadamente, com as luzes da cabeça criativa não totalmente acesas, nem percebemos toda a manha criativa que fizermos. De repente, passamos os olhos e vemos, olha ali, que legal, aquilo que eu fiz nesse texto. Teu aprendizado criativo da poesia e da letra se deu a longo do tempo, diluindo o bolerão e o poemão até chegar a essa linguagem sem cerimônia dos teus poemas. A melodia interna, de fala, de poema, a estrutura regular, como a de uma letra, facilitaram o trabalho dos músicos. Em "Declaração", musicado pelo Mutuca, o teu poema vira letra quase sem nenhuma outra intervenção. Não precisou cortar, repetir versos para se transformarem num refrão. Na gravação do Nei Lisboa, começa falado, dizendo o texto, o poema, e depois é cantado com a melodia criada pelo Mutuca - o poema vira letra. Depois, vem a repetição e entra uma lalaçãozinha, no nã,nã,nã,não devolvem/mas vou buscar com revólver... Lalação, não sei se já tinhas ouvido falar, é um termo da estrutura da cantiga. A cantiga é dividida em assunto, enredo e lalação, segundo os estudos de uma professora francesa, que me foram relatados pelo músico e poeta Leandro Maia. Por exemplo, na cantiga da carrocinha que pegou os cachorros, o assunto é esse dos cachorros vira-latas sendo levadas, recolhidos pela carrocinha. Na minha infância, dizia-se que eram levados para virar sabão. O enredo é como isso foi contado/cantado: a carrocinha pegou três cachorros de uma vez/a carrocinha pegou três cachorros de uma vez. Aí entra a lalação: tralalá, que gente é essa?/tralalá, que gente má!. O tralalá é a parte da música que é cantada, mas sem letra com significado. É o cantar livre de ter que dizer alguma coisa. Cantamos com prazer essas partes; no tralalá da cantiga normalmente se dança junto, se abre os braços. É o prazer do corpo com a voz, o ritmo, a alegria de cantar. Isso é coisa de letra. É uma parte da letra. E, como dizes, sabes fazer letras também, junto com melodias. Meu caminho foi também da música para a poesia e da poesia para a música. Aos 15 anos, queria fazer uma banda de rock pesado, como o Deep Purple. Tentei tocar violão, mas aprendi um pouco, não o suficiente para fazer a barulheira que queria. Não tinha amigos que tocassem. Então, comecei a escrever letras para quando aparecesse uma banda. Eu diria que seria o letrista e poderia ser o vocalista também. Resolvi ler um livro de poesia do Vinícius, que conhecia da música, para aprender mais sobre como se faz versos. Não gostei muito do livro, achava o Vinícius mais livre na música. Ali, pareceu meio culpado, meio travado. Voltei a essa mesma biblioteca, ali no Centro Municipal de Cultura de Porto Alegre, no Menino Deus, perto da minha casa, e li a Antologia Poética do Manuel Bandeira. Vi que era heavy metal no papel. Comecei a escrever poesia. Não precisava mais da banda. A barulheira era com a palavra no papel mesmo. Com o tempo, aos
29 anos, depois de já ter publicado três livros, me reuni aos poetas Alexandre Brito e Ricardo Portugal para compor um repertório. Os dois tocam violão. Fizemos a banda Os 3 Poetas. O nome é uma brincadeira com Os 3 Patetas. Compusemos várias músicas. Fizemos shows. Tocamos com banda, baixo, bateria, guitarra, sax, teclado. O Alexandre já compunha antes disso. Eu havia composto na infância letra e melodia cantando. Meus primos lembram até hoje de algumas músicas que fiz. Nos 3 Poetas, compúnhamos juntos. Íamos nos guiando pelos gêneros musicais: vamos fazer agora um rap, agora um samba, agora uma milonga, um tango, um rock, um reggae. Depois, participei de outra banda, como vocalista e letrista/compositor. Era a banda Os Ladinos. Compunha letra e melodia e passava para o guitarrista que achava os acordes na guitarra ou compunha letra e melodia sobre uma base que ia sendo criada no estúdio pela banda. E, desde 2001, eu, novamente o Alexandre Brito e agora o Ronald Augusto fizemos os poETs. Nesse trabalho também as composições de letra, melodia e harmonia são feitas pelos três juntos. Alguém chega com uma base e uma ideia de melodia e vamos compondo a melodia juntos. Depois disso pronto, botamos juntos a letra. Um dos prazeres novos para mim nessa experiência dos poETs é compor primeiro a melodia sem letra. É muito legal. Subir, descer, ir, voltar, achar caminhos sonoros. Nossos shows são de música, com banda ou com dois violões. Cantamos mesmo, soltamos o gogó, fazemos arranjos de backing para as três vozes. Isso também vai se aprendendo. O aprendizado de compor a melodia, que é quase um solfejo, ajudou a ouvir melhor a música para cantar todas as notas. Como disse João Gilberto para Vinícius. Vinícius mostrou algumas canções dele para o João, mostrou cantando e tocando violão. João perguntou por que o Vinícius mesmo não as cantava. O poetinha respondeu que não era cantor. João respondeu: não precisa ser cantor. Todo mundo tem o direito de cantar. Evandro Mesquita, da Blitz, foi convidado por um amigo para ir visitar os índios na Amazônia. Quando chegou, os índios perguntaram o que ele fazia. Ele disse que cantava. Os índios disseram, ué, mas todo mundo canta. Buenas, se tomasse chimarrão, até iria dizer pra tomar mais um mate. Pergunto agora: tu tiveste boas edições, ou boas editoras para a tua poesia. Depois de Outubro, que saiu pelo Instituto Estadual do Livro, veio No meio da rua pela L&PM e No mar veremos, pela Globo. Como foi a circulação desses livros, a repercussão?

Nei:

Antes de te responder sobre as edições dos meus livros, um mini-balanço. Fiquei surpreso com tua leitura do "quem tomba primeiro". Nunca me ocorreu que ensinar a cair fosse algo bom. Sempre vi como um revés, uma maneira de ceder, se entregar, numa cultura guerreira. Trazes, na tua leitura, uma janela maior para o poema, o que me alegra. No fundo, somos apenas mediuns e não atinamos direito com o tamanho do que criamos. Criação, esse sopro de deuses ocultos em nossos ouvidos longos. Também gostei dessa dos índios de que todo mundo canta. Quando veio a bossa nova e a canção Desafinado, que é afinadíssima, todo mundo relaxou:"ah, eles cantam assim porque desafinam, claro". É de uma burrice sem dó. Isso no mundo verdadeiro da música. Para quem, como eu, é apenas um ouvinte e um compositor de chuveiro, ter o direito de cantar é uma bênção. Costumo dizer que compus minhas músicas para ninguém dizer que estavam erradas. São assim e pronto. Esqueci de citar um colega do tempo da Ufrgs , o Paulo Loguércio, que hoje vive em Brasília. Foi quando pus letra em melodias que ele compunha. Acho que foi a única vez que isso aconteceu comigo. Lembro que ele ficava horas no violão tocando e eu tentando acertar. No fim fizemos alguma coisa boa. Livros. Tive muita sorte em todas as edições. Outubro é uma invenção do Claudio Levitan, que convocou o Caio Fernando Abreu e o Juarez Fonseca, jornalista da pesada e grande criador cultural, entrou no circuito para fazer de tudo, desde a ajuda na seleção dos poemas (que teve também contribuição de minha mulher, Ida Duclós) até a diagramação. Quando você lembra de Outubro, vê imediatamente aqueles desenhos do Levitan. A arte incomparável do Claudio é o rosto de Outubro. É tão amarrado, que faz parte da poesia, e vice-versa, incrível. Outubro tornou-se um cult e até hoje recebo cartas de pessoas que se amarram no livro, dizem que mudou sua percepção da poesia etc. São manifestações explosivos, emocionantes, importantes demais. É um livro roubado (eu fiquei sem nenhum exemplar, tive que pedir para o Levitan e o Luiz de Miranda me enviarem), que rolou nas mochilas, foi descoberto cedo pelos poetas que hoje brilham . Mas, estranhamente, ficou só naquela primeira edição. Jamais entendi por quê. "No meio da rua" foi publicado pela L&PM, com prefácio do Mario Quintana (conseguido graças à intermediação valiosa do Juarez Fonseca), quatro anos depois, em 1979. É um anti-Outubro, um livro dark, que frustrou muita gente, pois queriam que a festa luminosa do primeiro livro continuasse. Mas eram os anos 70! O que um poeta pode fazer senão ser a mimesis, o espelho do seu tempo? Assim mesmo, vejo muita coisa pesada em Outubro e coisas levíssimas em No meio da rua. Tudo é uma questão de leitura. Depois desses dois livros, fiquei duas décadas sem publicar nada. Fui praticamente esquecido, não estou em nenhuma antologia famosa. Colocam na lista até o Catchorrinho, menos o Nei Duclós. Não me pergunte por quê. Sorte que o Dilan Camargo me incluiu numa vasta antologia de poetas riograndenses. Mas aí veio "No mar, veremos", livro que fiz entre 1980 e 1987 e só publiquei em 2001. Graças ao Wagner Carelli, que estava na Globo, e que mais tarde publicou meu romance, em 2004, o Universo Baldio, pela W11/Francis. Em 2006, publiquei "O refugio do príncipe, Histórias Sopradas pelo Vento", seleta de contos e crônicas, porque o dono da editora onde eu trabalhava, a Empreendedor, Acari Amorim, acreditou no lançamento. Acho publicar muito complicado. A distribuição é o caos. Meus livros não estão em lugar nenhum, a não ser em alguns sites das grandes livrarias. Preciso de muita força, muito apoio, muito entorno para conseguir chegar lá. Por minhas próprias forças é impossível. Ofereço para as editoras e eles nem sequer me respondem. Hoje tenho uma agente literária que está batalhando um livro de contos e um novo de crônicas. Mas tenho outros na gaveta, inclusive meu quarto livro de poemas, Partimos de Manhã, que já decidi deixar pronto recentemente, pois não parava de incluir mais poemas. Minha parceria com o Tabajara Ruas, na trilogia infantil Diogo e Diana, conta com a força do autor reconhecido que é o Taba e uma grande editora, a Record. Esse é um caso à parte. Quem sabe uma hora encontro uma boa alma que resolve me publicar? Meus livros levam muito tempo para repercutir, eles se impõem pela qualidade. Os jornais e revistas onde trabalhei um dia moitam, ninguém ou quase ninguém dá uma linha. Estão envolvidos com outros poetas, certamente mais importantes. Vejo que você tem muito mais fluidez nesse assunto de conseguir publicar. Qual seu segredo, além da excelência do trabalho?

Ricardo:

Ah, tinha esquecido de falar que o Ronald Augusto também já compunha antes dos poETs, inclusive tem até um cd chamado Os Humanos. Sobre a repercussão do teu trabalho, Outubro e No meio da rua são dois livros muito importantes na década de setenta. Tanto no Brasil, se comparado ao que se publicou, quanto no Rio Grande do Sul, somando livro mais as várias versões musicais. Essa turma, tu, Levitan, Saracura deu uma qualidade de inventividade muito revigorante para o cenário da cultura porto-alegrense. No mar veremos também é um dos bons livros editados nesse início de século. Quanto a fazer parte mais ativamente do cenário nacional, também venho olhando as modas e gerações que se sucedem, ocupam as Usps, Folha de São Paulo, Veja, Isto é, revistas de cultura e viram de cinco em anos os novos novos. Parece que não há outros, só esses. Li no Aristóteles, na Arte Retórica, esses dias, a diferença entre invejar e emular. Invejar é um sentimento negativo, pensamos ?por que esse cara tem o que eu não tenho??. E torcemos para que ele não tenha. Emular é um sentimento positivo. A base é ?esse cara tem o que eu não tenho. Que bom pra ele. O que eu tenho que fazer para ter também??. Na verdade, sempre que fiquei num primeiro momento invejando, num segundo momento já estava emulando. Sempre reagi e criei coisas novas. Isso vai dando o movimento prazeroso e criativo na vida. O que mais gosto de fazer é criar. Então faço. E, quando a gente começa a fazer, as coisas começam a achar o seu espaço. As pessoas, essas terríveis que invejávamos, podem até nem ser tão terríveis e dizer oh, que legal, não conhecia o seu trabalho. Umas nunca vão dizer. Mas outras sim. Quando fizemos a ameopoema, lançando os 14 poetas de uma só vez, com aquele projeto gráfico legal criado pelo diretor de arte Luis Giudice, foi capa da Ilustrada da Folha de São Paulo. Tinha chamada na capa do jornal ao lado da foto do Lula. Quanto a publicar, a mesma coisa. Tentar e tentar e tentar. Perguntar, pedir ajuda, mostrar, contar com o apoio de quem gosta do nosso trabalho. É o método da tentativa e erro que uma hora vira tentativa e acerto. Sobre projetos para os poETs, o mesmo. Tenho uma frase que digo brincando para o Ronald e o Alexandre: quem é que eu vou incomodar hoje? A internet é essa novidade que permitiu aproximar mais, descentralizar a repercussão dos trabalhos, trocar mais com pessoas que tenham afinidade. Teve um momento em que fiquei parado, sem saber como me virar. E fui me virando, me virando. Hoje, tenho um certo número de leitores e de ouvintes. Legal. Não era isso que eu queria? Era. Mas a gente sempre quer mais. Que bom, senão estaríamos mortos, ou iluminados! O que penso é assim: se tenho um trabalho legal nas mãos, pessoas legais vão ter que conhecer. E tento fazer com que isso aconteça. E não tem essa de trajetória. O editor da Nankin, que publicou O Menos Vendido, nunca tinha lido nada meu. E era o meu sexto livro de poesia adulto. A editora da Record, também. Era o primeiro de prosa, mas, somando poesia e infantil, já tinha editado dez livros. Na Ática e na Salamandra também. Então, a gente se acha às vezes muito importante, que todo mundo deveria saber que a gente existe. Mas a gente é que tem que se virar para que os outros venham a saber. E não adianta ficar achando que o que fizemos garante o que venhamos a fazer. A gente vai envelhecendo e as gerações vão chegando. Mudam os jornalistas dos veículos, o pessoal da cultura, os amigos se mudam, os do passado acham que já sacam qual é a gente e não acompanham nossas novidades. Não é mole, não, não é mole, não! Tem que reagir e inventar algo novo. E incomodar os outros! Uma vez, há mais de vinte anos, eu e o Foca estávamos dando uma entrevista para o programa Pra começo de conversa, na TVE. Falando da naba toda, das limitações de editar, gravar, distribuir, o apresentador perguntou ?sim, então o que se pode fazer??. Foca respondeu: poesia. Ninguém pode nos impedir de fazer poesia. Grande Foca! Hoje é o dono do bar Funilaria na José do Patrocínio em Porto Alegre e continua compondo belos blues. Como tem sido essa coisa de escrever junto com o Tabajara Ruas? Como é esse processo de parceria na prosa? Ah, e também, como é escrever prosa para ti?

Nei:

A poesia é anterior à prosa. Comecei a fazer poemas aos nove anos e aos 15 escrevi meu primeiro "romance". Até hoje eu tenho a versão original, alguns cadernos espiralados com personagens falando sem parar daqueles problemas todos que nos assolavam nos anos 60. Antes, uma observação. "No mar, veremos" é apresentado pelo Mario Chamie, criador da poesia Praxis e, para mim, o mais importante poeta brasileiro atualmente, ao lado de Ferreira Gullar. Chamie me colocou entre os poetas "mais consistentes" da poesia brasileira dos anos 70 para cá. Acho que ele se referiu a essa inteireza de linguagem, esse achado a partir de Outubro, em que os poemas dialogam entre si na música das palavras e na abordagem dos assuntos. Não costumo fugir a esse perfil, pois a partir de 1969 eu encontrei aquilo que Mario Quintana disse, "uma voz reconhecível entre muitas outras". No Meio da Rua foi apresentado por Quintana, Outubro por Levitan e Juarez Fonseca e Universo Baldio tem um parágrafo assinado pelo Raduan Nassar. Quer dizer, a chamada fortuna crítica, que mais ou menos baliza uma obra, é generosa em termos de qualidade, não de quantidade. Eu não saberia dizer se "No mar, veremos" é um dos bons livros deste século, mas a partir do Chamie posso achar que No mar veremos ocupa um lugar de destaque no panorama da poesia brasileira em todos os tempos, assim como os outros livros. Quantos livros Mario Quintana apresentou? Acho que esse é o parâmetro e é a partir dessa atenção dos grandes autores que se deve abordar meu trabalho. Se eu chego com um livro editado pela Editora Globo e apresentado pelo Mario Chamie e os caras não dão uma linha, o que eu mais tenho que fazer? Acho que mais nada, o recado está dado: não queremos você participando desse Olimpo literário. É fácil entender. Literatura faz parte das migalhas do poder, das brigas entre partidos, das verbas e cargos. Não faço esse jogo e não tenho mais idade para dizer ei, estou aqui. Eles sabem que estou aqui. Não dizem nada porque não querem, não me vêem como pauta palatável. Onde colocar um urso polar ártico? Na geladeira, claro. O pior é que tenho grande apelo popular. A revista Caras colocou um verso meu "quero um sorriso que dure uma quadra e dobre a esquina a iluminar-se", que é do Outubro, e foi um estouro. Centenas de perfis do Orkut colocaram o mesmo verso. Recebi inúmeros retornos. Poderiam anunciar que tenho livros disponíveis na praça, inclusive o No mar, veremos e que Outubro precisa de uma nova edição. Mas para quê? A geladeira está funcionando direitinho, deixa estar. Escrever com o Taba é uma experiência e tanto. Fui convidado por ele depois de lançar meu romance Universo Baldio. Ele criou o mote, o perfil da saga e depois criamos cada volume em conjunto, dividindo tarefas. Escrevemos salteado, ou seja, ele escreveu o primeiro capítulo do primeiro volume e eu o segundo, o quarto etc. No próximo livro que será lançado em 2010, eu comecei e fui cuidando dos capítulos ímpares. Mas neste segundo a intervenção do Taba foi bem maior. Ele modificou bastante e criou mais personagens ainda, fora os que tínhamos colocado, que já eram muitos. Taba tem tudo, além do talento, a experiência e o prestígio, tem o timing, o corte certo. Muito bom trabalhar com ele. Eu mando ver, trabalho bastante, envio os capítulos combinados e aguardo o resultado. E assim vamos indo. Leveza e contundência, foi o que apontei na tua poesia de O menos vendido. Vejo que você escapa ao pauloleminskismo que toma conta da moda poética hoje. Vc não se contenta em produzir aforismos ou ter insights de trocadilhos, que são as pragas que nos assolam. Você passa ao largo desses vícios e ao mesmo tempo tem um voo de nuvem na sua poesia que é muito desta época. Acho que você conseguiu solucionar algo importante: sem se entregar ao peso da tradição, você pertence a uma linhagem que vem de longe. O bom é que você não está só. Existem alguns excelentes poetas que remam contra a corrente do besteirol poético. Você poderia me decifrar esse enigma: por que gostam tanto de fazer coisinhas em poesia, uma arte que exige sangue e suor de quem a exerce? Por que a poesia virou essa vitrine de badulaques? Certo, sempre existiu poesia ruim, mas hoje há uma enorme proliferação disso. E o pior é que vão ganhando notoriedade e se tornam paradigmas. O que você acha disso? Ou devemos deixar para lá, let it be e cuidar apenas do que fazemos, sem se importar com os rumos avassaladores que nos assombram? Perguntando melhor: o que você acha da grande diversidade da poesia hoje e que papel ela exerce na cultura brasileira desta primeira década do século? O excesso nos desobriga de sermos seletivos?

Ricardo:

O primeiro problema é que todo mundo sempre acha que está certo. Como diz o Fernando Pessoa no poema da tabacaria, que sou eu, um gênio? Mas a essa hora quanto gênios para si mesmos estarão pensando nisso, e a história provavelmente não vai marcar nenhum. Marcou o Pessoa, o próprio autor dessa digressão. Inúmeros livros são publicados, e cada um com suas orelhas e prefácios de aval, todos de gente que supostamente tem estofo para dizer isso vale e isso não vale. Não gosto muito, por opção crítica, de botar publicamente abaixo os trabalhos dos que não vejo valor. Prefiro colocar publicamente para cima o trabalho dos que vejo um grande valor. É essa a minha contribuição nessa luta. Estou lutando também, mas com armas positivas. Não acho errado quem fala mal, milita e tenta destronar o que, na sua visão, são embustes. Mas prefiro gastar uma coluna de jornal para mostrar coisas legais para as pessoas conhecerem e não coisas que elas devem desprezar. A ameopoema foi um gesto editorial de dizer, ei, prestem atenção nesses poetas aqui. Eles são bem legais. O jornalista da Folha, Márvio dos Anjos, bisneto do Augusto dos Anjos, que fez a matéria, disse que gostou muito de conhecer ótimos poetas que não eram sempre os mesmos que circulavam por lá. Leu pela primeira vez um Paulo Seben, um João Angelo Salvadori, entre outros, que eu conhecia, que admiro há anos. Então, creio mais nessa frente produtiva, de fazer coisas boas, de ajudar a que se conheçam coisas boas, de somar e puxar pra cima o que vale esse esforço. E creio que esse esforço deva ser coletivo. Uma corrente da qualidade para fazer frente à falta de qualidade. Cada um no seu espaço, no seu blog, na sua palestra, no jornal, no rádio, na conversa entre amigos, mostrando livros, dividindo o pão gostoso da boa poesia. Falo pra todo mundo de Nei Duclós. Outro dia, estava com o poeta Donny Correa, que divide com o Frederico Barbosa a condução da Casa das Rosas lá de São Paulo. O Donny estava aqui em Porto Alegre. Ele tem uma namorada por aqui. Estávamos num bar e ele perguntou sobre os poetas de que gostava. Falei de Nei Duclós, um dos mais importantes poetas desde a década de 70. Ele não conhecia, tomou nota, vai atrás. Mas se quiserem me convidar para pegar em armas contra a poesia ruim, que, para mim, vai muito além da de jogos e aforismos, mas a de imagens esnobes, de tristeza forjada para parecer o sofredor clássico, de versos que se a gente espremer não pinga nada que se aproveite, de badalação e babação de círculos literários da hora, me passa o bacamarte! Vamos a uma lista de livros de poesia ou poetas que consideras interessantes?

Nei:

Preciso deixar claro que, quando fala dos grandes nomes que apresentam meus livros, não estou aspirando ao cargo de gênio, apenas colocando a grande defasagem entre o meu trabalho, apresentado publicamente por gente da pesada, e a cobertura na grande imprensa, que é praticamente nenhuma. É preciso dizer que o valor da literatura que produzo tem reconhecimento por parte de pessoas importantes e isso conta, sim e deveria ser levado em consideração pelos responsáveis pelos cadernos culturais, sejam eles jovens ou não. Certa vez lembrei a um notório antologista da poesia brasileira que eu existia. Seu argumento foi que ele "nunca tinha ouvido falar de mim". Ok, mas a partir dali ele ouviu falar, porque eu lhe disse, pois não? E o que aconteceu? Continuei sendo ignorado. Então o fato é que já existia a predisposição, ele já tinha selecionado seu cânone e ninguém o removeria de lá. É como eu falo: a geladeira está funcionando. Quanto aos livros de poesia, cito alguns que me impressionaram. Primeiro, Bruno Tolentino com seu A Imitação do Amanhecer, que é a maior demonstração de domínio do ofício que já li. É um assombro esse livro e para mim está entre as obras mais importantes da poesia brasileira. Tolentino já tinha me conquistado com o seu O Mundo como Ideia, mas esse seu livro, A Imitação do Amanhecer lançado um pouco antes de ele morrer, composto só de sonetos, me levou a chamá-lo de o poeta absoluto. Outro livro que teve grande impacto em mim foi Horizonte de Esgrimas, do Mario Chamie, que é uma aula de poesia. Chamie é um compositor como Miles Davis, um construtor de projetos, um inventor total, que faz pouco caso do que o cerca, já que se garante e nos deslumbra com sua capacidade de reinventar o uso da linguagem. Há mais de 40 anos Chamie é uma presença definitiva na nossa literatura, tem grande prestígio, mas eu gostaria de vê-lo com mais frequencia defendendo suas idéias, mas a mídia só se ocupa de nulidades. Outro poeta que se impõe nas citações é Rubens Jardim, que com seu antológico Cantares da Paixão faz um balanço de muitas décadas dedicadas à poesia. Rubens Jardim representa uma massa de escritores dos anos 60 que irromperam no cenário com grande força, por meio da Catequese Poética. Continua em forma, mostrando como se faz. Cito poetas fora do cânone, pois é covardia lembrar de Drummond, Bandeira, João Cabral, Mario e Oswald de Andrade, Adélia Prado, Cecília Meirelles, Vinicius, entre tantos outros. Desses, às vezes faço uma resenha, de tanto que me deslumbra revisitá-los. Tenho recebido dezenas de livros de poesia e não estou em condições de avaliar tanto trabalho. Mas gosto, além de Ricardo Silvestrin, que me levou a um ensaio que muito me agradou fazer, e do Marco Celso Viola, que eu chamo de O grande poeta oculto (cada vez mais à mostra, felizmente), do José Geraldo Neres (me agrada sua dedicação à composição do poema, sua vontade de extrair cada vez mais das palavras), do Pedro Du Bois (poeta militante, incansável, com uma obra razoável e praticamente desconhecida), do recifense Talis Andrade (com sua pertença à tradição, mas sempre reinventando temas clássicos), do Celso Japiassu, paraibano com obra importante e com grande domínio do ofício), entre muitos outros. Quem poderia elencar tanta poesia? Sobre a militância: não quis dizer atacar poesia ruim, mas sim o mau uso político da poesia. No momento em que a poesia servir de alpinismo social, para gerar armadilhas, para tomar espaço indevido, devemos chiar. Não se trata de emitir juízos de valor sobre tanto poeta ruim, eles não se seguram e serão esquecidos. Mas sim não deixar que os aproveitadores tomem conta de tudo e impeçam os poetas de aparecer devidamente. Uma coisa notável na tua poesia é o humor, muito bem resolvido ("Vou me rebelar contra mim/ tome isto, tome aquilo/ Ricardo Silvestrin!".) Teu humor está ligado ao cansaço das abordagens, pois os poetas vivem querendo se rebelar ou adotar esse ou aquele movimento poético, esquecendo-se de que são livres para criar. Você lembra a todos que o território está sem guardas, basta avançar nele. Teu humor, portanto, não é gratuito, não está ali para fazer número ou grau. Essa é uma lição valiosa quando tanta gente tem por objetivo parecer engraçadinho. É assim que eu vejo, mas gostaria de saber tua opinião. Como é o humor na tua vida, como você enquadra no teu trabalho poético?

Ricardo:

A tua poesia tem valor por ela mesma. Se ninguém dissesse nada nunca (o que seria insuportável), ainda assim teria o valor que ela tem. E experimentaste na tua geração o que poucos poetas conseguem: ser um poeta de sucesso. Entre a rapaziada legal da década de setenta de Porto Alegre, tu és o cara, o poeta que disse o que precisava ser dito, de um jeito que só tu conseguiste dizer. Quem fez isso? A tua poesia. E continuas dizendo. Talvez estejas falando com as pessoas erradas. Nossas leituras se cruzam apenas nos patriarcas e matriarcas (menos a Adélia, que, embora seja boa poeta, ainda não consigo ler muito.). Ficam nomes para eu ir atrás, como Talis e Japiassu, Rubens Jardim. Chamie é importante, mas preciso ler mais. Tolentino não me diz muito, embora tenha sido um polemista que mexeu com o contexto. Pós-patriarcas e concretos/Gullar: Wally, Chacal, Leminski, Alice Ruiz, Chico Alvim, Cacaso, Nei Duclós, Mario Pirata, João Angelo Salvadori, Alexandre Brito, Ronald Augusto, Roberto (meu irmão), Ricardo Portugal, Paulo Seben, Geraldo Carneiro, Donizete Galvão, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, Nicolas Behr, Oliveira Silveira, Carlos Felipe Moisés, Sebastião Uchoa Leite, José Paulo Paes, Paulo Henriques Brito, Glauco Mattoso, Paulo Hecker Filho, Armindo Trevisan, Aníbal Beça, Ricardo Aleixo, Luis Turiba, Fred Maia, Celso Gutfreind, Estrela Ruiz Leminski, Escobar Nogueira. E tem muito mais gente que não conheço no Brasil. Felizmente e infelizmente. Sobre o humor, coloco-o no mesmo plano dos outros sentimentos e estados de espírito. Tenho poemas que são reflexões, que são observações, outros que são tristes, outros que são amorosos, outros puramente estéticos, outros irados, outros desesperançosos, outros esperançosos, outros políticos e ainda outros e outros tantos. Tudo isso por quê? Porque assim é um ser humano. Um ser humano completo, se não for um chato ou um doente, tem momentos de humor. Assim como tem outros momentos. Então, a minha poesia também tem. Creio, no fundo, que o bom humor na minha vida vem da vivência da impossibilidade de muitas coisas. O humor é também uma reação. ?Lento e bruto/eu mudo/sei que vem outubro.?, como tu escreveste. E vem; outros outubros vêm. E a gente vai se virando. E o teu novo livro é como?

Nei:

Tua safra generosa de poetas é um exemplo de diversidade e leitura atenta. Não me dedico tanto a ler muitos autores, acabo lendo apenas alguns, pois desisto fácil nos primeiros versos, o que é um defeito. Mas a partir da tua lista, vou dar mais margem à minha dedicação. O que tenho feito é ler livros que me interessam e escrever sobre eles. Normalmente, livros em prosa, dificilmente escrevo sobre poesia. Mas vou melhorar. Quando falei do humor em você (que também tem, ou procuro ter, numa parte do Outubro) quis destacar a abordagem bem feita dos temas por meio de um sentimento em que muito poeta escorrega, ficam muito no superficial. Notei a carga intensa mesmo em poemas teus de humor. Ou seja, eles sustentam a leitura toda a vez que a gente vai neles, o que não acontece com muito poema bem humorado que se esgota na primeira visita. Meu novo livro é dividido em três partes: Liberdade, Terra e Paz. Liberdade é na linhagem de Outubro, sair porta afora, redescobrir o mundo pela viagem. Terra são os poemas telúricos, o pampa, Uruguaiana, o rio Uruguai, os pais, a memória. E Liberdade é uma homenagem a Sérgio Vieira de Mello. É um canto na linhagem lorquiana, escrevi on line, ou seja, desde o dia em que houve o atentado, os dias que se seguiram de agonia e morte, os funerais em três continentes. O último dos 23 poemas dessa parte foi escrito no dia do enterro. Foi um evento que me tocou muito. Sergio é um representante do Brasil soberano, desterrado para outros lugares. Uma vocação de estadista que foi colhida no front. Não me importa o que digam da ONU ou o que for, me interessa o brasileiro que levou nossa tradição diplomática de primeira linha até os confins do mundo conflagrado. Escrevi há anos e vejo que os versos não estão datados. Procuro transcender, pela poesia, uma experiência trágica e ao mesmo tempo inspiradora da nossa época. Tenho muita fé neste novo livro. Tem mais de 150 páginas, o que é um exagero para mim, pois meus livros de poesia dificilmente ultrapassam as cem páginas. Acho que está pronto. Cortei muito poema sem força e coloquei novos, fortes. Noto que a poesia hoje abriu mão do épico, o que é uma tragédia, pois vejo a poesia como missão, como voz para ser pronunciada nos momentos graves. Há muita concessão ao corriqueiro, uma tendência herdada erroneamente do modernismo, pois mesmo nos seus poemas-pílulas o Oswald, tão iconoclasta, mantinha esse tom épico na sua poesia (até quando debochava da versão oficial da História do Brasil). Maria Antonieta d´Alckmin, por exemplo, é um verso da poesia épica e não romântica, doméstica. Há, acredito, muita má vontade contra a poesia mais grave. Você concorda? Dos teus poetas favoritos, você nota essa tendência de desmistificar a gravidade e colocar tudo em termos mais próximos, mais corriqueiros? Remando contra a superficialidade, destaco teu verso: "Um poeta se faz com sacrifício/ é uma afronta à relação custo-benefício". Teu verso reinstraura a poesia como missão e isso é raro hoje. Ou não?

Ricardo:

Vejo a questão que colocas por várias janelas. Uma é a do prazer. Tem um artigo da Susan Sontag chamado O artista como sofredor exemplar. Fala sobre os diários do escritor Pavese. Diz que foram muito lidos, virando uma espécie de moda. Segundo a autora, Pavese sofreu um monte. Teve uma vida que ninguém gostaria de ter levado, mas liam seus textos com todo o interesse. Ela aponta que se espera do artista que ele seja o herói, o mártir, o santo dos nossos dias. Isso, conclui, é o sintoma de uma sociedade que tem como herói máximo um cara pregado numa cruz, sangrando, o sofredor exemplar. Então, nossa cultura considera que o sofrimento, a tristeza, a dor é que são nobres, profundos, dignos de ser olhados. Já o prazer, a alegria, a felicidade são temas menores. Mas ?a alegria é a prova dos nove?. Na linguagem, também, vem a patrulha. Quando se tem prazer com a linguagem, pede-se desculpa. Quando alguém joga com as palavras, que é a base da criação com a palavra, diz: perdão pelo trocadilho. A própria palavra perdão já vem do cristianismo, ?perdoai as nossas ofensas?. Pede perdão a deus por estar sentindo prazer. Prazer só no casamento e transar só para procriar. Como é que vai ter, e tem, prazer com as palavras? Toda criação literária é um jogo de palavras. Seja pelas inversões e surpresas de significados, seja pelo ritmo, pelos achados sonoros, espaciais, ou mesmo pelo faz-de-conta da narrativa, que é também é um jogo. Ser contra isso é ser contra a arte feita com palavras. A questão é se isso é o todo da obra ou um recurso para se ver algo além. Mas, se for só isso, e for bom, ok. Um belo achado de linguagem também pode ser algo muito legal para mostrar aos outros. Outro ponto é a apropriação ideológica da literatura. Quando foram se formando as nações européias modernas, depois da queda do Império Romano, a literatura foi usada como padrão de linguagem e como espelho ideal. Como é a nossa língua, perguntavam-se. Bom, tem um tal de Camões que escreveu trocentas páginas. Esse deve entender. Então, as gramáticas passaram a usar os escritores como sustentação da norma culta. É assim por que assim escreveu Camões, ou Göethe, ou Cervantes... Como é a nossa história, quem somos nós, perguntaram. Bem, se formos dizer a verdade, degolamos uma cambada de romanos e tomamos conta desse terreno aqui. Não é uma história muito engrandecedora. Mas, tem um escritor que disse que atravessamos os mares, que somos bravos, que temos uma causa nobre. Assim, a literatura é apropriada pela cultura tanto como padrão de linguagem como espelho bonito para o qual se possa olhar, o que se chama também de identidade nacional. No século XIX, os estudos literários que predominavam eram os de fontes e influências. Ficavam tentando provar quem influenciou quem. Significava, no fundo, tentar provar qual nação da Europa era a mais poderosa, o que desembocou em duas guerras mundiais, até que a mais poderosa foi a que estava fora do continente europeu. Então, herdamos tudo isso. A ideia de que existe uma literatura original, superior, clássica, a qual todas as outras devem pedir a benção, ser influenciadas como prova de inferioridade. De que os autores grandes são esses que deram um espelho confiável e não outros. De que esses autores disseram isso que foi dito que eles disseram, dito pelos historiadores da literatura autorizados. O discurso a ser reproduzido é o que será cobrado pela escola, pelos vestibulares. E vai ser cobrado o discurso autorizado, não a leitura individual. Porque, se houver leitura individual, pode contradizer o discurso oficial. Herdamos por esse caminho também a ideia de que os autores estão espelhando seu tempo, como um historiador faria. Herdamos uma abordagem de discurso sobre a literatura que só sabe enxergar isso. Quando não enxerga, quando isso não está explícito, não sabem o que dizer. Herdamos também a ideia de que é preciso alguém, uma instância superior, autorizar a entrada do escritor nesse panteão. Literatura comportada, histórica e sofredora. Ou, com os movimentos revolucionários, literatura revolucionária, mas novamente a reprodução do modelo do clássico, a que dissesse o que os revolucionários esperavam ouvir. Essa apropriação ideológica da literatura faz crer que a literatura seja isso. Quando, como arte, é prazer, é jogo, é sintoma do inconsciente, é sublimação, é reorganização do indivíduo, é descoberta do que não se sabe a priori. E também fala social, histórica. Afinal, não há nada fora da história. Mas é impossível ser espelho. Isso suporia que a literatura estivesse fora da história para poder espelhar. A literatura é parte da história, é uma das falas em jogo com as outras. Não tem o poder de ser fala fora de jogo. Quando dizem que a literatura tem que espelhar a realidade, supõe-se que seria possível algo estar fora da realidade. A realidade é tudo, inclusive a arte. Inclusive os signos, inclusive o imaginário. Se vamos lá atrás, as fases do pensamento grego podem ser lidas pela literatura. Primeiro, os deuses organizados na Teogonia do Hesíodo. O mito organizando o mundo. Depois, a epopéia, com os homens realizando grandes feitos, auxiliados pelos deuses. A seguir, a Tragédia, com o homem vendo o seu limite; até aqui vão os deuses, até aqui os homens. Depois, uma fala do coro da tragédia vai ganhando cada vez mais voz até que se descola do coro e vai falar sozinha: chegamos ao poeta lírico, aquele que fala a partir de si e não mais a partir dos deuses. E da poesia lírica se chega à filosofia, que vai pensar sobre tudo. O homem livre para pensar. Os romanos recebem esse mundo de bandeja e vão celebrar o corpo, o sexo, a sacangem. Até que vem o Cristianismo devolver o mito e levamos séculos de novo para colocar o homem livre para pensar. Então, minha poesia é como um antigo ponta driblador. Vai pulando entre todos esses zagueiros e marcadores. Nasceu, em parte, em casa. Meu pai, que não escrevia nem lia poesia, mas gostava de Dorival Caymmi, também fazia muitos jogos de palavras. Era vendedor. Dizia: ?só vendo, vendo, não vendo, não vendo?. Vendo de vender e vendo de ver (na parte do vendo de ver mostrava com os dedos, o gesto de ver a grana). E outras tantas frases de improviso. Sabia que uma palavra, como escreveu Drummond, tem muitas faces secretas sob a face neutra e te pergunta: trouxeste a chave? Isso era uma herança de família. Meu bisavô, Silvestrin Carlos, como ele se apresentava, italiano, imigrante que veio para Botucatu, interior de São Paulo, dizia: ?na Itália no feliz; no Brasil si feliz?, soando como sífilis. Fui sempre ouvindo música. Minha mãe cantava lavando roupas, cantava pela casa, no estilo Ângela Maria. Disse recentemente que adoraria ter sido cantora. Havia discos de tango, Trio los Panchos. Rádio sempre ligado, Continental, a música de Porto Alegre surgindo, meu irmão entra para a Engenharia da UFRGS, sempre foi atento, leitor, seis anos mais velho do que eu, vimos os shows do Projeto Pixinguinha, Luiz Melodia, Marina, Alceu Valença, João do Vale, Jackson do Pandeiro, Moraes Moreira, A cor do som, e Nélson Coelho de Castro, Saracura...Discoteque, rock pesado, querer fazer banda, ler Bandeira. Virei poeta. Comecei na poesia modernista brasileira (lírica e inventiva). Entendi e curti os concretos (sei de berço jogar com as palavras). Li tudo que estava à mão. Descobri Chacal, Leminski, Alice Ruiz e vi que havia uma poesia mais próxima da minha visão de mundo, da minha geração. Nesse contexto, havia uma necessidade de se recriar a poesia, de não ser a mesma do discurso engajado, que já soava mais como discurso e menos como poesia e ainda era o da fala sufocada pela ditadura. Ficar chorando as mágoas também seria ficar parado. O deboche, a ironia, a puxada de tapete também na própria crença de que se é o bonzinho contra os malvados foi um momento importante de autocrítica. Escrevi em 1983, lendo poetas da tua geração: ?falei a palavra mundo/pensando que nela/ cabia o mundo/falei pra meio mundo/pensando que falava/ pra todo mundo/não mudei o mundo/mas também/não é o fim do mundo?. Outro momento de virada: as críticas dos anos noventa ao que chamavam de fetichismo da palavra na poesia concreta e seus desdobramentos, como Leminski, por exemplo. Refleti sobre isso e vi que a função poética da linguagem (Jakobson, o combinar e selecionar palavras para se obter um efeito de estranhamento, sendo que a palavra é ao mesmo tempo significado, som e desenho, isso que é o que caracteriza a linguagem e a existência de um texto poético) estava sendo o ponto de partida de muitos poemas meus e dos poetas de que gosto. Deixei a função poética recuar para o lugar dela, o de possibilitar a existência do poema, não ser o poema. E deixei que as outras funções passassem a falar mais, a partir delas, como a função emotiva e a função referencial (o mundo, tudo o que não sou eu, ou eu em relação ao mundo). Também entrevistei o Décio Pignatari sobre uma carta de Leminski ao Régis Bonvincino, relatando um encontro na juventude com o poeta que é um dos criadores da poesia concreta. Décio dizia que o concretismo tinha que acabar. E só quem poderia fazer isso eram aqueles novos poetas, como Leminski, Régis, Duda Machado, que ouviam o patriarca. Leminski se deu conta de que era mais concreto do que os concretos, pois nasceu na poesia concreta, enquanto os patriarcas tiveram que chegar à poesia concreta. E também se deu conta de que era mais do que isso. Era da contracultura e trotskista. Quando deixou isso tudo entrar para a sua poesia, fez um texto novo, dele, que não era mais a poesia concreta, embora nascida dela (porque tem a linguagem ainda no centro das atenções). Perguntei ao Décio na entrevista para a TVE o que ele pensava quando disse isso para a gurizada lá na década de sessenta. Décio falou que estavam querendo, a academia, a universidade, a crítica, catalogar, transformar a poesia concreta no concretismo, ou seja, num movimento com leis e características. Mas isso nunca foi o que queriam fazer. Seria supor que a poesia concreta é uma resposta. Mas não é. É uma pergunta: o que é a poesia? E devemos dar uma resposta diferente para essa pergunta a cada vez que formos escrever um poema. Então, a criação continua em aberto, penso eu. Ninguém acordou e disse: vou ser um clássico. As pessoas, em qualquer tempo, seguiram criando como a gente cria. Tateando, descobrindo, dialogando com o que gosta, com o que herdou e às vezes nem percebe. Respondendo ao mundo e formulando questões. A forma, linguagem, avança com a visão de mundo. Uma transforma a outra. O que fica, quando se lê gente legal de qualquer época, é que ir fundo nas questões de si mesmo acaba sendo ir fundo nas questões de sua época e mesmo de um tempo sem tempo, esse que é o tempo do ser humano que segue se descobrindo, que segue vivo e complicado. Resumindo: criar sem saber onde vai chegar (sempre fiz isso, sempre gostei de descobrir projetos estéticos), ir fundo, verticalmente no ser humano e na sua história, ou seja, em si mesmo, e ir fundo horizontalmente, no eu hoje e tudo o que está a minha volta. Nunca abandonei uma dimensão do ser humano que é a sua dimensão política. Tenho poemas em praticamente todos os meus livros que tocam nessas questões. Também na música, como O Brasil não é, dos poETs. Na minha prosa, idem. Assim como o humor faz parte de um ser humano completo, a dimensão ideológica também. Isso é ser épico?

Nei:

Épico é o que transforma o mundo, participa das mudanças reais, narra os feitos desse processo. A poesia épica não é passiva, ousa propor, ousa destacar o que realmente importa nos momentos decisivos. Camões é um épico: ao transformar em literatura a saga do povo português, acabou criando uma peça real de transformação, pois praticamente fundou a língua. Os Lusíadas é um grande feito. Mas ele não ficou nisso, sua lírica é uma perfeição absoluta. Ou seja, o poeta épico não está confinado ao que se pensa dele, o gênio contém todos os elementos. Basta ler Pessoa em Mensagem, nada mais épico. E pessoa em Caieiro, nada mais pastoral, arcádico. Não é preciso abrir mão do épico para eleger o intimismo, a leveza. Shakespeare ou Castro Alves são exemplos dessa múltipla face dos poetas que ousaram levantar a voz para criar algo de permanência. Maiakovski, que tem uma lírica maravilhosa, disse:


"Meu verso
..........com labor
.............. rompe a mole dos anos,
e assoma
.....a olho nu,
................ palpável,
......................bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
.................por escravos romanos.


No Brasil os poetas épicos ficaram de lado, como Moacyr Felix, Lindolf Bell, entre muitos outros, porque criou-se uma barreira contra eles. Ficaram fora de moda, por extrema coincidência: coincidiu com a ditadura de 1964. A partir da repressão, a poesia refugiou-se no engessamento da linguagem, no cerebralismo, nas charadas, no poema projeto de engenharia. Quando irrompemos no final dos 60, estávamos exaustos desse tranco. Líamos Maiakovski:


"É assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim."
Estes vertem versos feito regador,
aquele os baba,
boca em babador, ?
bonifrates encapelados,
......................descabelados vates ?
entendê-los,
................ao diabo!,
...........................quem há-de..."


Foi contra isso que fomos para a praça, assumimos a aventura de nos expor em plena ditadura. Ao mesmo tempo, cuidamos da linguagem. Há um rigor em Outubro, mas não um rigorismo fake. Isso foi reconhecido por muita gente e por grandes poetas como Mario Quintana. É importante sim a sintonia com seus pares mais notórios. Isso conta, insisto. Não para fazê-los de muleta, já que nunca persegui gente famosa para falar bem de mim. O que veio foi espontâneo. Foi uma atitude sincera, do qual me orgulho muito. Vi exemplos maravilhosos em Garcia Lorca, nos modernistas, em Drummond etc. Esses são meus parâmetros. Acho que com a ditadura, que continua em vigor, perdemos muito em poesia e uma onda avassaladora anti-épico tomou conta de tudo. Continuo lutando pela poesia que busca a permanência, que não se confina ao jogo de palavras, mas faz do trabalho com a linguagem algo maior, com ligações poderosas fora do universo verbal. Palavra não é apenas criatura real, é também referência, nos remete a algo fora dela. Muitas vezes, quando desistimos de procurar a palavra exata, ela se manifesta. Busco a permanência, a eternidade. Como digo num poema: "Para quem rir das minhas pretensões, adianto: no ano dez mil ainda estarei cantando". Grande Ricardo Silvestrin: fiquei muito feliz com este diálogo, me obriguei a dizer muita coisa que estava meio enterrada na garganta. Vou sugerir uma edição, já que o tamanhão da coisa inviabiliza a publicação em blog, acho eu. É bom destacar os trechos mais significativos para expressar esse nosso embate cheio de sintonias e conflitos. Assim somos nós: criaturas culturais, reais e reinventadas.





 

Ricardo Silvestrin é autor de O menos vendido, ex,Peri,mental, Palavra mágica, Quase eu, Bashô um santo em mim e Viagem dos olhos, de poesia, além do livro de contos Play e do romance O videogame do rei. Integra o grupo musical os poETs. É editor da ameopoema. Assina uma coluna no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Site: www.ricardosilvestrin.com.br Blog: http://www.silvestrin.blogspot.com E-mail: ricardo.silvestrin@globo.com

Ricardo Silvestrin