05/03/2010 Número de leitores: 1018

Saudades de Jacques Tourneur: O Lobisomem (2010), de Joe Johnston

Alfredo Suppia Ver Perfil

Alguém poderia perguntar o que um filme como O Lobisomem (The Wolfman, 2010, dir. Joe Johnston) está fazendo numa coluna de ficção científica. Mas essa presença é plenamente justificável. Primeiro porque o longa de Johnston é oremake de O Lobisomem (The Wolfman, 1941, dir. George Waggner), produção da Universal estrelada por Lon Chaney Jr., de um período em que o estúdio já havia se notabilizado por suas franquias de monstro (além do lobisomem, o monstro de Frankenstein, Drácula e o Monstro da Lagoa Negra, uma linha de "produtos" na zona de interseção dos gêneros horror e ficção científica). Segundo porque, na condição de um remakeO Lobisomem parte do roteiro original de Curt Siodmak para o filme de Waggner. Além de roteirista de Hollywood e irmão do diretor Robert Siodmak, Curt Siodmak foi autor de romances como Donovan’s Brain (1942), obra de ficção científica traduzida em vários idiomas e adaptada para o cinema mais de uma vez. Siodmak escreveu argumentos e roteiros de alguns filmes de ficção científica memoráveis (por qualquer que seja o motivo), como Curucu: Beast of the Amazon ou Earth vs. The Flying Saucer, ambos de 1956. Por último, malgrado toda a referência a maldições e quetais, o filme de Johnston ainda deixa entrever essa afinidade de fundo com o imaginário da ficção científica, ainda que só nos créditos finais, por meio de imagens de corrente sanguínea, microorganismos, radiografias e ilustrações sobre licantropia.



 

Dito isso, passemos às impressões sobre o filme de Johnston. O Lobisomem2010 mantém a essência do espírito do filme original: o motivo do filho que à casa torna, o núcleo cigano e o ritmo ágil (os filmes de monstro da Universal na época giravam entre 60, 70 minutos de duração). O poema apresentado n’O Lobisomem de 1941 também permanece nessa versão de 2010.

 

"Even a man who is pure in heart,
And says his prayers by night
May become a Wolf when the Wolfbane blooms
And the autumn Moon is bright"

(o último verso foi depois mudado para "The Moon is full and bright").

O motivo do pentagrama, no entanto, foi cortado do filme de Johnston. No lugar da “marca da besta”, a medalha de São Columbano.

Merecem destaque as atuações de Benício del Toro, Anthony Hopkins e Emily Blunt, embora razoavelmente sacrificadas, creio eu, por deficiências de roteiro e direção. O Lobisomem passa a impressão de uma direção frouxa, hesitante em determinados momentos. O personagem de Anthony Hopkins é um enigma - e talvez o seja em função de problemas, não particularidades da caracterização. O filme investe no visualmente explícito, estratégia favorecida pelo atual estágio de desenvolvimento dos efeitos especiais digitais. O lobisomem aparece muito - talvez demais -, em corpo inteiro e em detalhes. Maquiagem e computação gráfica atuais permitem esse luxo sem constrangimentos. Com isso, o medo ou o susto, requisitos fundamentais num filme de horror, deixam a esfera do interdito, da sugestão e do imaginário, para se modelar num tipo de susto “objetivo”, por vezes gratuito, resultante do vigor da imagem estranha e do som repentino. O filme de Johnston aposta amplamente nisso: no choque da imagem e ruído repentinos, ao estilo do golpe de faca ou porrete - i.e. os delírios defronte ao espelho, ou o cão que salta do cômodo escuro. Saudades do horror invisível, o horror do interdito, insinuado ou sugerido, de filmes como Cat People (1942), produção de Val Lewton dirigida por Jacques Tourneur.



Não tenho certeza, mas tendo a achar que o investimento irrestrito no amplamente visível, no horror explícito da imagem desagradável, intrusiva ou ostensiva - uma tendência do cinema mundial contemporâneo -, enfraquece a força da dimensão fantástica. Em outras palavras, o susto sobrepõe-se ao horror mais enraizado. Esse efeito de "inquietante estranheza" perpassa todo um filme como O Bebê de Rosemary (1968), de Roman Polansky. Mas perde força, tenho a impressão, quando Polansky encena o coito de Rosemary no ritual de magia negra. Os olhos da criança, na seqüência final, são suficientes (talvez até demais) como resumo toda a inquietude horripilante da trama, imagem-símbolo. Hoje em dia, porém, com a disponibilidade de recursos computadorizados para a representação imagética do indizível, a tendência é outra. Para uma determinada concepção do horror, no entanto, uma sombra continua a valer mais que mil imagens.

 

 

Alfredo Suppia