09/03/2010 Número de leitores: 765

Sobre remakes e o Oscar 2010

Alfredo Suppia Ver Perfil

Por Alfredo Suppia
 

Remakes continuam a todo vapor. A Caixa (The Box, 2009), dirigido por Richard Kelly, adapta novamente o conto ?Button, Button?, de Richard Matheson, já transformado em curta-metragem para a famosa série americana Twilight Zone. Assisti à adaptação desse conto pela primeira vez no programa Além da Imaginação (Twilight Zone) exibido no Brasil nos anos 1980, em cores. A estória é tão boa e o episódio tão bem realizado que lembro da experiência até hoje. ?A Caixa? do Twilight Zone é uma pérola. Ainda não assisti ao remake de Kelly, agora em formato de longa. Lançado em 2009, o filme deve entrar em cinemas e no mercado de home video por agora.

Fiquei sabendo desse novo A Caixa nos trailers que precederam a sessão de Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2009), de Kathryn Bigelow. Outro remake foi anunciado nessa mesma ocasião: Everybody?s Fine (2009), de Kirk Jones. Curioso que nem The Box nem Everybody?s Fine façam referências às obras originais. Uma tendência no setor dos remakes. Mas o trailer de Everybody?s Fine não deixa dúvidas sobre o filme original: Stanno Tutti Bene (1990), de Giuseppe Tornatore, com Marcelo Mastroiani no papel principal. O remake americano traz Robert De Niro no papel originalmente interpretado por Mastroiani. Até a deliciosa seqüência da prosaica conversa no trem é mantida. Muda o pano de fundo, da Europa para os EUA. Também estou ansioso para ver o que fizeram dessa pérola de Tornatore.

Tudo isso me leva a uma indagação. Acho que a indústria de remakes não escolhe com muito critério os filmes originais que recria. Ou melhor, talvez escolha com um critério bem objetivo: se o filme foi um sucesso há 10, 20, 30 anos atrás, certamente será um bom negócio hoje. Mas acho que a coisa não funciona bem assim e, na maioria dos casos, o remake desanda. Acho um péssimo negócio fazer o remake de uma obra-prima, ou mesmo de um filme emblemático de determinado autor. A unidade de medida é muito rigorosa. Vejamos Psicose, por exemplo. Pode não ser o melhor Hitchcock, mas é certamente um dos filmes mais representativos desse diretor. Um remake de Psicose (vide o filme de Gus Van Sant) carrega desde o primeiro take um fardo muito grande: a sombra da obra original. O mesmo pode ser dito do Lolita (1997) de Adrian Lyne, sob a sombra do Lolita (1962) de Kubrick. O raciocínio aplica-se também a seqüências. A sombra do 2001 (1968) de Kubrick eclipsa o 2010 (1984) de Peter Hyams, assim como o Alien (1979) de Ridley Scott ofusca o Aliens (1986) de James Cameron (embora há quem possa discordar).

Por outro lado, quando um diretor competente se interessa por uma obra mediana, a chance do remake ser bem sucedido naturalmente cresce. Talvez seja o caso do Cape Fear (1991) de Martin Scorsese, com Robert De Niro, derivado do Cape Fear (1962) de J. Lee Thompson, com Robert Mitchum no papel do bandidão. O Scarface (1932) de Hawks é um filme importante, pode até funcionar como contra-exemplo da minha formulação. Entretanto, o remake de De Palma relê substancialmente o filme original, algo não muito freqüente em remakes ?plano-a-plano?, os quais apenas substituem os atores principais por um time anglófono de estrelas de Hollywood, como o caso de Vanilla Sky (2001), de Cameron Crowe, adaptação de Abre los Ojos (1997), de Alejandro Amenábar.





Mas toda essa conversa sobre remakes surgiu por conta dos trailers que precederam Guerra ao Terror (que título em português é esse!!!), de Bigelow. Tenho tentado ver esse filme há um bom tempo. Em São Paulo peguei algumas filas de bilheteria, o que sempre me desencoraja. Hoje (08/03/2010), em Juiz de Fora, finalmente consegui assistir ao filme numa sala de shopping. Fui propelido pela premiação do Oscar ? agora tinha de ver. Achei que Bastardos Inglórios, de Quentin Tarantino, foi um dos grandes injustiçados na cerimônia da Academia deste ano, assim como talvez A Fita Branca, de Haneke. Na minha opinião, Bastardos Inglórios foi um dos melhores de 2009 e merecia uma estatueta além da concedida a Cristoph Waltz como Melhor Coadjuvante (essa seria impossível tirar do ator austríaco).



Guerra ao Terror
é de fato muito bom, mas não sei se sua premiação como melhor filme é realmente indiscutível. De toda maneira, foi muito bom a Academia premiar Bigelow e seu filme, concedendo prêmios menos proeminentes a Avatar, de James Cameron. Nisso, concordo com o que disse José Wilker na cobertura do Oscar feita pela Globo. Avatar engana bem, e não foi novamente que o viço visual de Cameron impressionou os jurados. De certa maneira, Guerra ao Terror aponta um caminho alternativo. Que continuemos nele.




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Alfredo Suppia é professor de cinema do Instituto de Artes e Design e do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora. É líder do grupo de pesquisa LEFCAV (Laboratório de Estudos de Ficção Científica Audiovisual) na mesma Universidade. Especialista em ficção científica audiovisual, é membro da Science Fiction Research Association (www.sfra.org) e da Socine (Sociedade Brasileira para os Estudos de Cinema e Audiovisual, www.socine.org.br). E-mail: alsuppia@gmail.com.br

Alfredo Suppia