11/08/2010 Número de leitores: 530

Poeira branca

Cláudio Feldman Ver Perfil


1

        Nunca se case com alguém de Jacuí-Mirim.
        A pessoa pode ser belíssima, inteligente, agradável, mas aceite meu conselho: afaste-se dela.
        Eu quase defuntei, devido à minha noiva, nascida nesta cidadezinha.
        Discutimos por ninharias e Bernadette saiu, chutando o ar.
        No dia seguinte , porém, suspirou ao telefone que queria uma reconciliação, em seu apartamento.
        Mal abri a porta, topei com um monumental bolo de cenoura.
Bernadette cortou um pedaço exagerado e me estendeu o prato.
Eu, como estava entupido de feijoada, nem quis sentir o perfume.
Minha noiva, apesar de mil carícias, não conseguiu me convencer do contrário.
Discutimos novamente e aí eu é que saí, chutando o ar.
O cachorro, que comeu o bolo no lixo, foi enterrado como indigente.




2

 

        Com um sorriso imutável no rosto negro, Lourdes me revelou que Bernadette, colega de apartamento, havia mudado para um endereço desconhecido e abandonado seu emprego de manicure.
        E mais: que minha noiva pretérita não passava de uma viciada.
        Só que em Jacuí-Mirim isto não era novidade.
        No diário que Bernadette esqueceu no criado-mudo e Lourdes me entregou, pude constatar o fato.
        O camponês Aristides Gameleira, na aurora do século XX, em Jacuí-Mirim, percebeu que os burros que pastavam onde havia arsênio, em forma de poeira branca, eram mais bonitos, fortes e espertos que os outros, que comiam ervas distantes.
        Concluiu que a melhoria se originara do pó alvo.
        Como também desejasse ser formoso, atlético e, apesar de analfabeto, menos burro, começou a testar a descoberta em si mesmo.
Após semanas, como se sentisse bem melhor, contou tudo à comadre, entre beijos ocultos, e até os surdos do município ficaram sabendo.


 

3

 

        Conforme Lourdes, cada dia menos feia, Bernadette andava insatisfeita comigo, por considerar-me incapaz de um cargo importante em minha repartição na Superintendência da Limpeza Pública.
        Ultimamente, ela sonhava atrair um cavalheiro com horizontes sólidos para a sua vida.
        Mas, voltando ao diário: na página 12, a letrinha caprichosa de B. explicava que Jacuí-Mirim tornou-se o paraíso dos comedores de arsênio.
        O único médico local, o dr. Asdrúbal Pimentel, escreveu um artigo no qual dizia que “o pó branco, cristalino, trióxido de diarsênio, acentua a sensação de bem-estar, exagera a satisfação orgânica e aumenta a resistência à fadiga. Uma possível solução para o desgaste da Humanidade”.
        O prefeito, porém, quando soube do texto, proibiu o seu primo de publicá-lo fora de Jacuí-Mirim ou o povoado iria se encher de especuladores, que acabariam com a tranquilidade provinciana.
        O dr. Asdrúbal, que pretendia brilhar num jornal da Metrópole, compreendeu o seu erro e usou o artigo na linotipada “Folha Do Povo”.
        Após esta informação, Bernadette se queixava de também ser uma distanciada da Capital.
        Mas conseguiu chegar aqui - ai de mim!



4

 

        O único problema, segundo o diário de minha ex-noiva, era que o comedor de arsênio não podia, mais tarde, deixar o hábito.
        O abandono da substância produzia um declínio rápido da saúde e, logo, o fim.
        
Bernadette, como todos os habitantes da Jacuí-Mirim, começou a se alimentar com arsênio desde recém-nascida.
        Um dos efeitos impressionantes deste desjejum, bem dosado, nos humanos e bestas, era o desenvolvimento de uma estonteante beleza física.
        A Miss Brasil, de 6 anos atrás, que quase ganhou a coroa universal, era de onde mesmo?
        Adivinharam!
        O arsênio produzia feições claras e formosas e emprestava aos cabelos um calor e plástica incomparáveis (esta afirmação, no diário, era confirmada pela própria cabeleira de Bernadette: tão maravilhosa quanto a de Rita Hayworth, em “Gilda”).
        Se Lourdes, por exemplo, quisesse usar este veneno como complemento de beleza, arriscaria a vida: os papadores dele, durante gerações, desenvolveram uma tolerância incomum à poeira branca, que passou aos herdeiros, de modo congênito.
        Para os não-jacuínos-mirim bastavam dois décimos de um grama para assassiná-los, enquanto que, na cidadezinha, até os delicados comiam três gramas.
        Então eu me lembrei que Rasputin, com medo de morrer intoxicado por inimigos, aumentava, pouco a pouco, as doses de veneno ingeridas, até que seu organismo se acostumasse com uma grande quantidade, que mataria qualquer pessoa desabituada.
        O charlatão não nasceu em Jacuí-Mirim por acaso.


 

5

 

        Beijei o entusiamo de Lourdes.
        Talvez eu estivesse amando novamente, mas preferi esperar até o fim do diário.
        Meu nome ainda não tinha aparecido nele, porém Bernadette dedicou várias páginas a duas organizações de Jacuí-Mirim que industrializavam o óxido de arsênio, que começou a ser vendido de casa em casa sob a forma de uma pasta creme, comida como manteiga no pão.
        O Governador quis proibi-la, mas recuou, diante dos impostos que lhe pingavam no bolso; a autoridade forasteira pensou em interdição, pois às vezes, segundo o diário de Bernadette, “ocorrem crimes, 99% por envenenamento (superdoses), e é muito difícil provar algo, já que todos são gulosos por arsênio”.




6

 

        De acordo com a tradição, quando alguém de Jacuí-Mirim migrava, levava duas malas: uma, com roupas e pertences, outra, com estoque de arsênio.
        Mais de um migrante já tinha sido levado à polícia como suspeito por tráfico de cocaína; examinado o produto, o jacuíno-mirim era solto, mas não perdia a fama de esquisito, como Nosferatu transportando o seu caixão com terra do cemitério.
        Os migrantes, frisava o diário de Bernadette, nunca se esqueciam do local de nascimento: todo ano (e até antes) eles voltavam para matar saudades.
        Ou se abastecer de arsênio?






7

 

        Nos trechos metropolitanos do diário, quando eu me tornei personagem de Bernadette, fui tratado de “amorzinho” a “tedioso”, conforme sua ciclotimia.
        
O pior registro ocorreu na véspera do bolo de cenouras: “Acho que Leopoldo é tão medíocre que precisa de arsênio para melhorar. Vou dar-lhe bastante”.
        
Joguei o diário numa fogueira junina e fui lavar as mãos.

 




8

 

        Lourdes, minha noiva, me informou que Bernadette estava nos jornais: tinha se casado com o cônsul Epimênides de Castro Almeida, que logo voltaria para a Áustria.
        Eis o arsênio de Jacuí-Mirim correndo mundo.

 

 

Cláudio Feldman