01/09/2010 Número de leitores: 605

Escravo na casa do rei

Claudio Nigro Ver Perfil

Por Claudio Nigro
 

Quando eu cheguei na porta do jardim da casa do Rei, ele ainda estava vazio. Uma árvore gigante furava o plástico de uma espécie de bolha sofisticada, que protegia aquele pátio dos pingos da chuva e de um sereno indesejável. A casa do rei fica na beira da praia em Paraty, cidade que hospedou recentemente mais uma vez uma Feira Internacional de Literatura. Na rua que beira o mar, os casarões pareciam estar dormindo. O barulho das festas, o caos literário da multidão cheia de performances, bailarinos estrangeiros, telões de pixels eletrônicos, projeções de escritores fantasmas, vendedores de cocadas e cocares pareciam estar sepultados atrás da arquitetura antiga da Igreja gigante. Empurrei a porta lateral do jardim e ela estava aberta. A árvore decorada de pequenas velas e o pátio iluminado por essas gotas de fogo abriam minha memória em direção à um mundo colonial, distante, pacífico e absolutamente onírico.

Mas não saberia dizer se o sarau daquela noite foi, no final das contas, um sonho, um pesadelo ou o melhor evento cultural da FLIP. Fui para Parati desejando, com todas as forças, que em meio a tantos comícios, os escritores e os pensadores conversassem entre si, se sentassem ao redor de uma praça ou de uma árvore pintada de velas e falassem sobre o bem e sobre o mal. Juntos.

Sublime, o monólogo das almas. Queria ter escutado a todos, mas cheguei à cidade tarde demais. A festa da literatura estava em suas últimas horas. Só me restava mesmo participar alegremente desse ?Corujão? na casa do príncipe. Tinha perdido o ex-presidente e toda uma constelação de poetas que passaram por ali mais rápido do que um enxame de vaga-lumes. Olhei pro jardim encantado e as velas não piscaram. Desejei que pelo menos durante o Corujão os poetas, os leitores, trovadores e repentistas pudessem chegar a um acordo, conversar sobre um único assunto juntos.

Já tinha participado de um Corujão antes, numa livraria do Rio de Janeiro. O agitador João (do Corujão) capitaneou uma noite de ?microfone democrático?, música e palavrório ao lado do padrinho Jorge Ben Jor, durante a qual, pela primeira vez recitei em público no Brasil duas poesias. A noite fora longa, minha passagem pelo microfone rápida, como as demais. O Corujão é uma manifestação popular: para cada um, quinze instante de fama sobre a ribalta. Nós, poetas, somos muitos e a noite, lotada de pessoas, geralmente atravessa a madrugada. O Corujão é uma linda iniciativa cultural: arrecada livros, abre bibliotecas em cadeias, escolas e lugarejos afastados, promove o amor pela palavra em tantos lugares que Oxalá se espalhe por todo Brasil.

Para o Corujão na casa do Rei, tinha imaginado poder fazer um convite aos participantes, além da performance dramática: um desejo comunicante. No final da minha poesia, iria propor um diálogo, qualquer que fosse, para que juntos comentássemos ou chegássemos ao acordo de alguma sintonia iluminada. Mas cheguei cedo demais pro sarau, a aura da árvore estava vazia. Saí velejando entre as pedras daquelas ruas torturantes, o famoso pé de moleque que lembra o doce da pavimentação feita pelos escravos na cidade histórica. Fui pra longe da alegria literária e das lojas de livros, dos últimos ecos do lindo monólogo dos egos. Vivi um pouco entre o porto e a noite. Quando voltei, estava lotada a casa do Rei. O rei, um homem grisalho de porte hierático perdido entre a multidão dos próprios convidados. Tinha ouvido falar que ele era um ótimo fotografo, um amante das artes, e a idéia de conversar com um distinto mecenas passeava pela minha cabeça suavemente. Conheci vários príncipes em outros países e muitas vezes, encontrei neles homens esclarecidos, indivíduos cujos os gostos e a boa educação tinham se decantado através de séculos de privilégio. Mas o pátio da casa estava lotado, pedi ao animado João que me colocasse na fila dos declamantes. Arranjei um espaço mirrado, um teco de muro baixo num canto entre as pessoas e assisti a procissão de dezenas de poetas, leitores, atores apaixonados e vibrantes. A noite estava linda, personagens editorais e estrangeiros perfumados circulavam entre os aplausos.

Um pouco cansado, esperava que João me colocasse logo no centro do palco. Que não era um palco, era um espaço cheio de candelabros aos pés da árvore enfeitada de fogo. Mas seguiram os poetas durante algumas horas, até que, desobedecendo a seqüência do João que chamava cada um pelo nome, de cor, um rapaz levantou-se do chão e invadiu o meio do átrio, batendo uma mochila pesada nas pedras, uma saca de pano amarrada, com força no chão. A mala gritou pesada e o rapaz, que parecia um ator, um boêmio vestido de trapos, o rosto coberto pelos dreds compridos de negro, gritou mais pesado que o chão:

Se ele é um príncipe,
eu sou um escravo
Essa é minha poesia.

Por um momento, eu me vi excitado, apaixonado por um poema surpresa, tão lindo e fundamental que ninguém, muito menos eu, poderia superá-lo. Naquela noite não. Abaixado, o rapaz rodou no ar em volta de si, a cabeça baixa, os dreds como tentáculos balançando, gritou mais outras palavras que eu logo fui esquecendo. Ele era um negro descalço, as calças de andrajos, o resto do corpo pelado, cicatrizes no peito e no rosto. Entre acordos, vaias e aplausos, o príncipe dos mendigos saiu de cena, deixando o papel com o poema que eu ia ler no bolso: furado, sem sentido, demagógico. A agitação dos presentes não foi fácil de acalmar dali em diante. Muitos tinham bebido demais. Existe um mito popular centenário ligando poesias e palavrórios ao consumo de álcool. Cachaça na casa do Rei.

Já no Rio de Janeiro, o Corujão tinha oscilado entre poetas mais delicados e personagens festeiros. A partir do escravo revoltado, os ânimos se acirraram e paulatinamente os bêbados se manifestaram em prol da não violência, repetindo frases cujo o valor estético era mais do que duvidável e cujo o barulho incomodava os ânimos mais apurados. Um dos organizadores tentou acalmar ?a galera?, outros poetas competiram pelo mesmo espaço com grupos de pensadores que naquela altura da noite pareciam mais arruaceiros. O público chique foi-se dispersando, e ficamos só nós, os poetas inéditos, aqueles que desejavam falar e escutar algo de próprio na feira de Paraty. Quando o clima da noite voltou a ser mais calmo, me levantei um instante, atravessei o corredor do pátio, ainda cheio de gente, onde uma lareira inexplicavelmente acesa sublinhava o calor tropical daquela noite. Obviamente o príncipe não abriria o interior do casarão para uma festa assim tão incontrolada. Não era a primeira vez que hospedava o sarau em sua casa. O banheiro que usei ficava atrás de uma porta de madeira pesada ali onde antes, provavelmente, era a senzala. Quando voltei, o palco estava sendo quebrado, os gritos tinham estourado, o mendigo irritado tinha voltado, os bêbados latiam ao mesmo tempo e alguém foi prontamente atingido por algo no rosto e estava ferido ou chocado. A sucessão de fatos a partir de então foi rápida, torturante e difícil de guardar racionalmente. Sei que à uma determinada altura, o príncipe, vestido de cáqui, expulsava o negro de casa. Não me lembro as palavras exatas, algo cujo o subtexto pode ser ?Ponha-te na rua! Esta é a casa do rei?. Quem não teria expulsado do próprio jardim um arauto assim inconveniente que tanta balburdia tinha provocado?

? Eu te odeio! ? Respondeu o príncipe negro ao homem grisalho, antes de gentilmente ser afastado.

Não obstante tenha sido o melhor e mais intenso Corujão onde eu tenha estado, a noite deve ter se arrastado depois disso. Os bêbados assolaram, a falta de poesia tomou conta do pátio onde as velas e os castiçais tinham sido quebrados. Continuamos por fim declamando em nome de ter suportado aquele evento tão estranho, tão inusitado e sem tamanho. Fui o penúltimo a recitar alguma coisa naquela noite. João, gentilmente me disse que o texto tinha ?arrasado?, mas o que havia àquela altura para ser arrasado depois que todos presenciamos o único diálogo da feira da literatura deste ano? Depois que todos assistimos o único diálogo que no Brasil esperamos por todos esses anos. O diálogo importante entre o herdeiro da história imperial, o príncipe brasileiro, com seu escravo. Diálogo quebrado e sem paradeiro entre um homem grisalho e um jovem negro todo marcado no rosto, no torso e no lábio.



                                                                                           Foto: Claudio Nigro


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Claudio Nigro escritor, roteirista, critico de arte. Nasceu em São Paulo, viveu em Florença onde formou-se em Literatura.e onde dirigiu e escreveu diversas peças de teatro e colaborou com jornais e revistas locais. Em Roma, desde 1998, cursou direção cinematográfica na Nuova Univiersità Del Cinema e Della Televisione (Cinecittà) e tornou-se editor da revista de vanguarda literária, cultura e política Lo Sciacallo, em seguida colaborador da mais prestigiosa revista de literatura italiana Nuovi Argomenti, fundada em 1956 por Alberto Morávia. Trabalha como roteirista da RAI UNO. No Brasil escreveu curta-metragens e ministrou cursos ligados à literatura, arte e cinema. Selecionado para o festival Autori per Roma com as peças Roma al contrario e Ocidentale, amore nero. Em 2007 defende seu doutorado na Universidade La Sapienza. Leciona desde 2002 cursos de roteiro e de teoria artístico-culturais nas mais diversas escolas italianas tais como a própria universidade La Sapienza . Em 2009 termina seu primeiro livro de narrativa de próxima publicação. E-mail: cnigros@hotmail.com

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