01/09/2010 Número de leitores: 552

Vício-virtude na fala

Omar Khouri Ver Perfil

Por Dr. Ângelo Monaqueu
Publicação e comentários sob a responsabilidade do Prof. Omar Khouri *



Vício-virtude na fala

Para dizerem córrego dizem corgo
Para fígado dizem figo

Para lâmpada dizem lâmpia
Para búrica dizem burca.
           Sem deslocar a tônica
           Paroxitonizam as esdrúxulas.
Para árvore, dizem arve
E vão destruindo as árvores.



Este texto, em sua forma manuscrita, foi encontrado em folha solta dentro de uma primeira edição do Pau Brasil de Oswald de Andrade, relíquia conservada por Dr. Ângelo, agora em posse de sua irmã Sâmia, que me permitiu o acesso e autorizou a sua publicação. Embora não fosse um estudioso de falas regionais brasílicas, nosso Mestre era muito atento aos modos do caipira paulista se expressar, notando a sua pouca ou quase-nenhuma plasticidade, dado o fato de falar pouco, ter pouco contato com outras pessoas no dia-a-dia, que passava a trabalhar e, quando tinha a oportunidade de falar era, via de regra, por monossílabos ou sons sem intenção vocabular. Ocasiões festivas eram a exceção, mas aí a coisa já estava configurada e a gama de sons articulados e combinações eram pouco extensas. Certos modos atraíam Dr. Ângelo que, nalguns casos, dizia: “Ainda escrevo um texto utilizando esses modos!” E eram os cometimentos: mió, para melhor; pacença, para paciência; vévi, para vive (e isto ele achava maravilhoso: “Imagine você dizendo: ‘Ela vévi bem, muintchu bem”; ponhei, por pus - lembrava da mãe, Dona Salma, dizendo para a empregada doméstica: “Maria, você já pôs a água para o café?” ao que a serviçal respondia: “Ponhei, sim senhora”. E, dizia Dr. Ângelo: “E olha que isto tem justificativa na arqueologia do idioma – basta fazer uma visitinha ao Latim!”; ponhá, por pôr…). E nos casos das proparoxítonas era isto: o caipira não diz nunca úbere, e sim, ubre; não diz pássaro, mas passo; tampouco estômago, mas istrombo ou istongo; para abóbora, diz abobra. E os diminutivos: “Impagáveis”, dizia e exemplificava: corguinho ou corguim, arvinha, burquinha, bobrinha. Numa das vezes em que comentou sobre esse processo de acomodação (não sei se se pode chamar assim ao referido fenômeno) uma aluna perguntou: “E como dizem médico?” ao que, sem pestanejar, disse o Mestre: “Dizem dotô!” Ainda sobre a falta de plasticidade desse pessoal de baixo repertório lexical e sintático, para quem seria constrangedor ouvir um “Nós estávamos”, admirava a incapacidade de ouvir, mesmo quando ditos alto e bom som, nomes como o de seu tio Sáber e mesmo o meu, Omar: não eram capazes de repeti-los sem distorções. De qualquer modo, todo erro gramaticalmente detectado possuirá uma justificativa quando se estudar mais profundamente o idioma, e certas formas até são encontradas em textos mais antigos, tendo caído em desuso. Veja-se o caso de adispois ou despois! O mais engraçado é o caso do pronome pessoal do caso reto eles. Para eles, eles dizem êisi! Só nos resta aplaudir a “Contribuição milionária de todos os erros”. Agora, entre os nossos escolarizados, há coisas terríveis, como as acomodações/simplificações que permitimos para os de língua inglesa, espanhola, francesa, russa e até para os lusos: gente da matriz – mas não suportamos aqui entre nós… coisas do tipo: cantano, para cantando, pagano, para pagando, veno, para vendo, tamém para também! O que dirá disso tudo o FUTURO? No poema acima, percebemos alusão ao desmatamento que, no Brasil, desde o século XVI, foi-se processando, até chegar àquilo a que assistimos hoje. Aqui, neste poema, destruição, que contrasta com a construção da versão oswaldiana.



Omar Khouri
, 2009, ano do passamento da Matriarca, já nonagenária, Dona Salma Bayoud Monaqueu, mãe do Mestre.


P.S.
 Esqueci-me do mais interessante (apenas anotado por Dr. Ângelo Monaqueu, a lápis, no verso da tal folha): “Para fósforos, dizem fórfi”… e contribuem para compactar o léxico. E mais: “Para álcohol, dizem arco; para pólvora, dizem porva”!!! Inacreditável – direi eu - o réiva, em lugar de raiva! Por ora, paremos por aqui.


* Oswald de Andrade revisitado: nem ready, nem made : heavy & fake : uma incursão di-paródica.

 

 

Omar Khouri