12/10/2010 Número de leitores: 566

Algum tempo contado

Leandro Mayfair Ver Perfil

Por Leandro Mayfair


        Ensaiei para chegar até aqui.
       
Dentro de uma bolha um tubo puxa o ar que me sustenta. Luz falsa, estrela em tecido azul, lua de papel machê. E na medida em que o carro avança mais rápido um grande ventilador balança meus cabelos, mas as rodas não tocam o chão, estão paradas e só se movimentam em meu pensamento.
       
Não sei se engano ou se sou enganada. Relembro a fala que decorei, me realizo na medida em que me encontro nas palavras. Sou atriz e sei aonde a personagem deve entrar. Minto melhor ao entender a dor. De casa, trouxe um jeans desbotado. O lápis corrido no olho me dá tempero para a década em que me encontro. Fizeram meu cabelo para transparecer decadência, meus olhos vibram em expectativa, um cetim ameniza o medo do erro.
       
Estou atrás dela que fala por mim.

       
- Otávio. Otávio.
       
(Na terceira sílaba vai abaixando o tom da voz, aperta os olhos como se o crepúsculo ardesse. Uma mão segura o volante e a outra sintoniza uma estação, no rádio toca uma música instrumental que pode ser trompete, sax, gaita, mas tem que ser sopro.)
       
- Nove meses esperei gestando uma dor vazia, um balão entre as pernas eu estourei para ver se um filho de você vinha. E nada aconteceu. Carreguei comigo um porta retrato como se uma parte de você me emoldurasse e me levasse para perto de ti. Era só mais uma mentira para embelezar. Você podia rir a cada vírgula minha, dizendo que eu lia demais e amava de menos e tudo o que eu falava era sopro de palavras de outro.
       
(Na digestão da fala começa a sorrir. Riso sufocado, falta ar no peito, a postura demonstra. O riso vai abafando e já no final ela começa a verter algumas lágrimas. Comprime o rosto e grita, um grito de leoa em parto, boca aberta ao máximo, montanha russa, pé firme no pedal. A câmera foca os olhos no retrovisor. Volta a sorrir.)

       
Mas precisei de um tempo, chorei mais do que o necessário, me derramei e as mãos esqueceram da direção. Não sei guiar o meu desatino. Desajeitada, carrego esse corpo que pertence somente a ele. Meu rosto agora no espelho tem traços difusos, uma sobrancelha se perde a outra está atenta. Repito as próximas falas, devo me convencer, mas o espelho até consigo enganar, a câmera não.

       
- Com uma fita isolante eu te embalei para provar o meu amor acima da carne. E me desapeguei ao que você chamava de culpa cristã. Seriamos mais apaixonados se um de nós morresse, sim, como seriamos mais belos desprendidos de qualquer caminho.
       
(Só se ouve a música alta do rádio. Parada numa rua deserta, ela desce do carro sem pressa e abre o porta-malas retirando o corpo de dentro. O corpo parece um casulo de lagarta, ela demonstra dificuldade ao carregá-lo até um lugar mais escondido. A cena deve ser lenta, como se ela não suportasse o peso desse homem. Quem vê deve querer muito ajudá-la.)
       
- Imóvel, rígida. Fui estátua para o seu prazer.
       
(Faz uma pausa, como se uma oração concluísse. Volta ao carro e pega um galão de gasolina, segurando apenas com uma mão leva até o corpo, abre a tampa e despeja,)
       
- Meu cigarro de volta ao pulmão inflando. Quero você. Em cada trago. Me renovo. Te amo assim embalado, te amo assim em silêncio.
       
(Com alguns galhos e folhas secas ela enterra-o sem o chão abrir. Coloca fogo nas folhas para que as faíscas façam o caminho até a camada de gasolina e cozinhe o amado.)
       
- Te amo ainda mais em chamas.
       
(Quando o fogo aumenta, no carro ela admira as labaredas. As chamas terminam o serviço e ela dá partida no carro.)
       
- Merda. Agora vou pra onde?
       
(Foque os olhos preocupados, as mãos confusas, o cabelo que divide a visão em qual lado ela deve seguir. Então desliga o som do rádio e começa a ouvir a noite. Alguns bichos quebram o silêncio, o voo de um pássaro noturno a espanta e o carro acelera. Ela deve agora só dirigir sem rumo.)

       
Horas depois e meu rosto se perde entre eu e ela. Chaves no chão, taça quebrada, parede molhada por vinho. Calcinha e pés na meia. Faço listas para entender o que respinga na superfície. Queria entender isso tudo, combustão e dilaceração. Quero ser atropelada, daqui a algumas quadras, na porta da sua casa. Quero te culpar por não mais me entender, por não mais me achar nessa dor. Não quero mais falar de amor, porque amor me coloca no eixo, no eixo do outro que não me pertence.
       
Quero dizer, chupando os pregos debaixo da minha cama, você não existe. Quero sair debaixo e escrever na parede uma frase que me veio hoje quando embalada em chamas eu dancei no ar.
       
Vivi, como vivi nesse instante. Gilete descosturando meus pulsos, meu ventre, meu peito, meus olhos.

       
Agora consigo, me vejo dormindo sob um rabisco feito por outro que me vê com uma lupa do outro lado da tela.






                                                  * * *





 

Leandro Mayfair, 20 anos, é escritor não impresso, estudante de Design Gráfico não praticante. Reside em Goiânia apesar de vagar por outras órbitas sem nenhum medo de altura. Pode ser encontrado em @leandromayfair e leandro-mayfair@hotmail.com

Leandro Mayfair