26/10/2010 Número de leitores: 791

Lunar (Moon)

Alfredo Suppia Ver Perfil

Lunar é um drama intimista sobre o isolamento de um astronauta numa estação espacial que funciona como usina energética instalada na Lua. No futuro ficcional descrito pelo filme, a humanidade troca a matriz energética dos combustíveis fósseis pelo He3, substância então abundante na Lua, evitando assim uma hecatombe ambiental na Terra. O trabalho de obtenção do He3 é todo automatizado, mas o recurso à inteligência artificial (I.A.) não exclui a necessidade de pelo menos um homem supervisionando as atividades na usina. Acompanhamos então a rotina de Sam Bell (Sam Rockwell), o astronauta escalado para uma jornada de três anos na estação lunar.

 

Sam deixou mulher e filha na Terra. Em virtude de problemas técnicos na comunicação da usina com a Terra, Sam é privado de diálogos ao vivo com sua mulher. Apenas “videomails” são possíveis. A rotina enfadonha de trabalhos é amenizada por exercícios, bate-papos e partidas de xadrez com Gerty, a inteligência artificial que controla toda a usina – versão mais amigável do Hall 9000 de 2001: Uma Odisséia no Espaço (Stanley Kubrick, 1968).

 

Como de hábito, a certa altura Sam deixa a estação para inspecionar o trabalho das unidades remotas responsáveis pela “colheita” do He3. Dirigindo seu veículo de exploração lunar, Sam sofre um acidente. Ao acordar na enfermaria da estação, lembra-se vagamente da colisão. Sam deseja retomar o trabalho no exterior da estação, mas é impedido por Gerty, que insiste em seu repouso para uma melhor recuperação. Sam acaba ludibriando a I.A. e consegue tomar o veículo lunar rumo ao local do acidente. Lá encontra o veículo avariado e, em seu interior, um astronauta. Sam retorna à estação com o astronauta resgatado e, assim que este se recupera na enfermaria, um paradox se apresenta: o indivíduo resgatado é Sam Bell.

 

Embora a fábula de Lunar seja situada no espaço, o filme de Duncan Jones reata com uma tradição de ficção científica voltada para o interior das personagens, e que inclui títulos como Solaris (1972), Stalker (1979) e O Sacrifício (1986), de Andrei Tarkovsky, Ikarie XB-1 (1963), de Jindrich Polák, e mesmo o 2001 de Kubrick. Tais filmes podem até apresentar efeitos especiais sofisticados, porém esses efeitos estão subordinados a um tratamento bastante criativo da subjetividade humana, posta à prova pelo isolamento e impotência diante do infinito. No lugar da pirotecnia dos blockbusters, temos em Lunar e seus predecessores reflexões intrigantes sobre a condição humana.

 

Lunar também remete à longeva tradição do Doppelgänger, bastante frutífera na literatura e cinema de ficção científica. Se você leitor prefere não saber um dado central sobre a fábula de Lunar antes de assistir ao filme, por favor salte este e os próximos parágrafos, indo direto ao último. Devemos sublinhar aqui a retomada do tema do “replicante” no filme de Duncan Jones. Lunar remete assim diretamente a filmes como Blade Runner (1982), de Ridley Scott, e Test Pilot Pirx (1979), de Marek Piestrak. Assim como em Blade Runner, a temática da reificação do trabalho e, por extensão, do próprio ser humano, encontra-se embutida na fábula. Questões éticas envolvendo a clonagem e a exploração de recursos humanos viabilizada por essa tecnologia também ocupam o centro do discurso de Lunar, assim como em Blade Runner. Na verdade, Test Pilot Pirx já antecipa elementos da estética e temática de Blade Runner numa espécie de “prólogo involuntário” – ou, ainda, bem pode ter inspirado o filme de Ridley Scott. Baseado na obra de Stanislaw Lem, Test Pilot Pirx já apresenta replicantes avant la lettre num jogo psicológico de investigação em que o protagonista, comodoro Pirx, tenta descobrir quais integrantes de sua tripulação em missão espacial são humanos e andróides. Os andróides de Test Pilot Pirx - virtualmente idênticos aos seres humanos, porém superiores física e intelectualmente - andrno e quem antemo de sua tripulaçlumanos em missir quais integrantes de sua tripulaçjá são produto de uma megacorporação que pretende substituir astronautas humanos em missões espaciais perigosas. Devem ser testados num experimento psicológico conduzido durante missão capitaneada pelo comodoro Pirx. Nesse sentido, Lunar é bastante próximo a Test Pilot Pirx. Em ambos o ser sintético é um trabalhador espacial. A diferença é que, assim como em Blade Runner, o “replicante” em Lunar tem “implantes de memória”, “prazo de validade” (uma vida extremamente curta, três anos emLunar, quatro anos em Blade Runner) e desconhece sua verdadeira natureza artificial.

 

Auxiliado por Gerty, uma I.A. verdadeiramente solidária (diferente do astuto Hal 9000 de 2001), Sam consegue escapar da estação lunar rumo a Terra. Bem no final, o filme deixa-nos entrever, por meio de narrações em off, a confusão causada pela chegada de Sam à Terra, o que acaba por revelar o esquema ilegal de emprego de clones em atividades corporativas. A metáfora da reificação, alienação e corrupção corporativa não poderia ser mais evidente. Como em Gattaca (1997), de Andrew Niccol, Lunar retoma a especulação sobre formas de exploração, segregação e discriminação advindas do uso irrestrito e inescrupuloso da engenharia genética.

 

Num aceno um tanto quanto niilista, não há humanos em Lunar, exceto muito no final do filme, com a chegada da equipe de resgate à Lua (e ainda assim não devemos ter tanta certeza sobre isso). Apenas simulacros: Sam Bell e Gerty – este último, a propósito, encarna uma certa humanidade idealizada, frequentemente associada a personagens de pele metálica e circuitos integrados desde Robby, o robô.

 

Por fim, Lunar representa mais uma investida do cinema de ficção científica contemporâneo, de cunho mais independente e autoral no terreno das boas intrigas especulativas à la Bradbury, Asimov ou Philip K. Dick. Filme sem eventos retumbantes, mas suficientemente tenso e inspirado.

 

Alfredo Suppia