25/02/2011 Número de leitores: 827

Cabo Verde, 2 poetas

Ricardo Riso Ver Perfil


Arménio Vieira – O poema,
a viagem, o sonho


Foto: Divulgação

        Logo após ser justamente galardoado com o Prémio Camões em 2009, tornando-se o 1o. escritor cabo-verdiano a recebê-lo, o praiense Arménio Vieira brinda seus admiradores com O poema, a viagem, o sonho (Editorial Caminho), novo livro de poesia.
        
Neste, o vate das ilhas opta pela tessitura em prosa poética e atinge ótimos resultados acerca de intrigantes indagações existenciais e metafísicas, apropriação e referências várias à literatura e à filosofia ocidental (“Li-os todos”, avisa-nos o poeta, lembrando “No Inferno”), para além da metapoética transgressora, mostrando o pleno domínio da poesia. Assim como a consagrada ironia do poeta e a sua postura independente que aconselha: “Apaga as escrituras. (...) Em ti há um marinheiro demandando uma ilha onde ninguém ainda esteve. Também em ti encontrarás o mapa, a bússola e o navio. Há coisas a que não deves atribuir nomes. A tua ilha não tem nome.”
        
É a viagem interior proposta ao sujeito que se quer independente, com o “Poema, que é também, mistério”, transportado pelo sonho. O sonho, condição do ilhéu, da evasão do “Poema de quem ficou” de Manuel Lopes, de que “teve saudades estranhas, de terras estranhas”, motivo de releituras como a de NZé dy Sant’Y’Águ em “Na morte de Baltazar Lopes da Silva, que também é o poeta Osvaldo Alcântara, “nunca divisados na retina dos que partiram/ nunca vistos e encontrados no chão inóspito/ e diaspórico da terra-longe”; é também revisitado por Vieira citando Homero: “O viajante que jamais viaja é quem deveras viaja, pois que, viajando nunca, ele sabe dos múltiplos dons com que o Destino distingue o sonhador. Sendo assim (por arbítrio alheio, é certo), o navegante, que jamais teve navios e nunca os desejou, mesmo assim, ele é o detentor das rotas que levam aos portos por nomear. Diga-se então que o azul de tantos céus, que Ulisses viu, como ninguém houvera visto, mais não é que os sonhos de quem, em terra, os sonhou no mar.”

        Subverter a tessitura da poesia é uma especialidades de Vieira. “Escandir o verso é ofício a que se furta o poeta”, afirma o vate, “porém ele se escusa de escandir o verso, pois sabe que é vão meter a faca no que não pode ser cortado”. Parecendo justificar a opção pela prosa poética, o poeta vale-se da ironia para criticar os rimadores de versos fáceis e, em seguida, celebrar António Vieira e Fernando Pessoa: “De repente um pobre homem, sem apoio de mágica ou de alquimia, que também é magia, converte-se num aparelho de fazer poemas. Ele então que os faça, pois assim quis a sina. Se for soneto, (...) que eles saiam mais ou menos bem rimados. Atenção: quem rima choro com cachorro, jamais apanha a chave de ouro, e no fim é o cão que fica a rir-se. (...) Já que o santo era padre e como a poesia é o tema, encerre-se o texto com Vieira, também padre e António, tanto mais que os sermões, a mor das vezes chatos, em Vieira eram poemas. Entendeu-o Pessoa e, a dobrar, também eu. Por me chamar Vieira?”
        
A poesia ousada deste vate maior das ilhas apresenta belas homenagens à literatura ocidental ao unir poetas de diferentes épocas: Homero/Rimbaud, Safo/Baudelaire; para além das citações a Borges, Camus, aos gregos em “Grécia, mater mundi” etc.
        
Labiríntica poesia, fascinante leitura. A sonhadora viagem proporcionada pelos poemas deste Vieira, dito Arménio, reafirma-o entre os melhores da lusografia contemporânea.
        
Eu, que de Homero recebi o poema no instante em que o poema nasce, e vi o Inferno pela mão de Dante, tal-qual Leopardi mais tarde o viu, e, após me afundar no rio onde Hamlet e Lear beberam o vinho que enlouquece, comecei a ter visões que Rimbaud, De Quincey e Poe registaram em negros textos; eu, que no eterno transportei a bandeira que era peso nas mãos de Elliot, e renovei a charrua com que Pound lavrava os versos, e de Whitman furtei-me ao licor, que em Álvaro, digo Campos, porque dorido e menos doce, sabia melhor; então que falta em mim para de Camões herdar a estrela, que Pessoa deixou fugir?”





Filinto Elísio – Li Cores & Ad Vinhos


Foto: A Semana (www.asemana.publ.cv)


        Explosões dos sentidos, êxtase do Verbo. Tais sensações encontram-se após a travessia instigante, surpreendente e prazerosa pelos cinquenta e três poemas do recente livro de poesia de Filinto Elísio, com o etílico e sugestivo nome Li Cores & Ad Vinhos. Este é o seu quinto título em poesia; constata-se, comparando ao anterior “Das Frutas Serenadas”, o aprofundamento metafórico e a semântica concupiscente das palavras buscando novos significados que vão além dos sentidos inertes impostos pelo discurso estabelecido. 
        
Na poesia elisiana, o Verbo degusta, etilicamente, o poder transformador da palavra conduzido por um sujeito lírico inquieto que afirma: “jamais deixarei morrer cá dentro o viés / que transforma esta amargura em poesia” (p 13). É no mergulho à essência das palavras, atravessando as fronteiras dos sentidos e tendo a ousadia de investigar o âmago da liberdade poética que nos deparamos com imagens inusitadas e belas, reveladoras do compromisso assumido, dos riscos a que se submete o poeta: “De todas as estradas, algumas por andar, / As de sinuosa curva das palavras, a mais íngreme, / Com metáforas penduradas ali no peitoril, / São as que, por visceral, me motivam à Poesia...” (p. 81).

        Como podemos perceber, caberá ao leitor desvendar os misteriosos versos, as inesperadas imagens que se formam a partir da imersão no desregramento dos sentidos proposto pelo sujeito lírico elisiano, a começar pelo inebriante título do livro: Li Cores & Ad Vinhos. Está presente o lado dionisíaco, o embriagar-se por licores e vinhos; por outro lado, há o desejo sinestésico, plástico, de ler as cores e de adivinhar, de tentar descobrir o insondável mistério da criação poética: “Não te direi tudo dos verbos, (...) / onde a semântica, ciosa, / Se refugia silenciosa entre mim e o nada... / Virar, em passe de mágica, as cores de avesso, / Transmutar, pelo revesso, fiapos soltos de rosa, / Prosa que também se solta as flores que voam... / (...) Deste recheio de êxtase, de tudo ser nada disto...” (p. 81).
        
A metapoética predomina no livro, ao versar sobre a criação e o indecifrável segredo envolvente da poesia, somos convidados a um jogo inusitado, regado pelo néctar simbolista das letras elisianas, que esgarça o concreto e a tudo metaforiza: “Tais palavras, como que a desejarem / Metáforas e seus caminhos transviados” (p. 83). Devemos escutar os poemas“nesta acústica de pétala” (p. 51) para desvendar a explosão etílica dos sentidos em “Ad Vinhos” com suas enigmáticas metáforas a adivinhação lúdica mostra-se: “Qual é a cor da música? / Seu gosto de fruta e de cravinho. / (...) As horas do teu corpo batem / Em que lugar quando ressoa / Meia-noite no meu poema? / (...) Tudo isso adivinho seres tu, / Posto que travam como vinho / As cores que li no gosto. / (...) Tempero, em que novelo / És mais água do que sal? / Concha, em que segredo / Me és palavra repentina? // A cor da música...” (p. 55)
        
Manifesta-se tamanha complexidade “de uma poesia que não espera pelo vento” (p. 39), de um poeta “vitaminado pela sintaxe (...), semântico de mim próprio” (p. 39), o sujeito lírico expande-se pelos elementos primordiais da natureza, “Ora sou água, ora sou fogo / E se me invento terra, ar” (p. 61), para transparecer a imensidão da sua poesia: “Poente que sou, mirante do nada / Cavaleiro andante, aventureiro, / Puro horizonte tudo o que sou...” (p. 61). Esse alargamento é bem sugestivo na figura da pedra, em que novas significações são exploradas, sempre com a presença da metapoética, fundindo-se, confundindo-se: “Uma pedra, ínfima que seja, / No seu significado de coisa / No que esconde de átomo, / Nos conta Deus em tudo... // Medra nela certa melodia, / Alguma dita no seu dorso, / Outra dentro da matéria, / Onde, diurna, a lua soletra... // (...) Pode-se retornar ao Verbo / Ao recomeço, sobretudo, / Do encanto da poesia...” (p. 27).
        
Há de se destacar o cuidado gráfico de Li Cores & Ad Vinhos, tendo as páginas agraciadas com as ilustrações do artista plástico Fernando Elias, o Mito, amigo de longa data do poeta desde os tempos da “Sopinha de Alfabeto” na década de 1980. Os desenhos de Mito com seus traços que passam do insinuante ao simpático, atingem a ironia e o erótico, ajudam a compor a aura mística e misteriosa dos poemas, tornando-se essenciais ao livro e que, em nenhum momento, criam conflitos entre poema e desenho, mas, sim, apresentam uma harmonia impressionante. Harmonia que se estende à sólida amizade dos dois artistas cabo-verdianos.
        
Tal como o pedreiro Arménio Vieira, Filinto Elísio encara o seu ofício de forma corajosa, ousada, destemida, ou seja, ao “escrever de pulso aberto” (p. 17) procura extrair “poesia da pedra” (p.17), deslocando-se das sensações anestesiadas, das emoções dilaceradas dos dias atuais. Sua poesia mostra um caminho possível para suportar a amargura da realidade, valendo-se de um prazer ilimitado de fruir com os sentidos, de gozar com as palavras. Filinto Elísio, ao transcender a semântica usual e apetecer o infinito metafórico, brinda-nos com sua bela escritura etílica em Li Cores & Ad Vinhos. Com isso, mais uma vez ultrapassa as fronteiras da literatura cabo-verdiana com sua inconfundível sensibilidade existencialista e universal, e agradará a todos os leitores de língua portuguesa que se inebriarão com seus poemas.

 

Ricardo Riso