14/06/2011 Número de leitores: 612

AUGULYGIA 80

Omar Khouri Ver Perfil


19.11.1978

 

Travei conhecimento com Augusto de Campos no ano de 1974, a propósito de meu primeiro livro de poemas Jogos e fazimentos. Eu o procurei, dada a grande admiração que, à época, já tinha por sua poesia e pela dos demais componentes do Grupo Noigandres. A Poesia Concreta, para mim, havia sido uma grande descoberta e a múltipla atuação dos poetas que, além da poesia produziam metalinguagem e operavam a tradução como categoria do fazer poético, atendia à minha sede de conhecimentos acerca da criação artística, enquanto reflexão e práxis. Em fins de novembro daquele ano, fui recebido por Augusto de Campos em seu apartamento, donde saí maravilhado pela conversa que tivemos, muito mais proveitosa para mim, eu que estava faminto de informações: não só saí enriquecido do encontro, com dados preciosos e algumas recomendações e endereços, como também, na posse de alguns poemas em edições autônomas, custeadas pelo próprio autor. À época, eu já possuía elementos para considerar Augusto um dos mais importantes criadores do século XX, opinião esta que, cada vez mais, se me apresentou como certeza (hoje, ele e Décio Pignatari são os poetas vivos com conjunto de obra mais consistente do Planeta). Naquele momento eu já planejava, com Paulo Miranda, pela recém-criada por nós NOMUQUE EDIÇÕES, o nascimento de ARTÉRIA, mencionada no encontro e para a qual Augusto prometera colaboração inédita. 




12.01.1980


Numa outra visita que fiz à casa, vim a conhecer sua gentil e simpática esposa, Lygia que, com grande sensibilidade para a Poesia – o que se pôde notar pelas poucas peças de que tive ciência - não se ocupou em desenvolver obra. Daí, nasceu uma amizade que dura até hoje e que tenho como uma de minhas maiores conquistas. Em meio a tantas qualidades detectáveis no casal, uma me interessa mencionar aqui, com alguma ênfase, que é a disposição para receber pessoas em sua casa, a propósito da Poesia, para conversas que se arrastavam por horas, e deixá-las à vontade, mantendo um ambiente em que todos se sentiam, de fato, interlocutores, num processo que era, em verdade, de ensino-aprendizagem, em que as informações brotavam, principalmente da parte do anfitrião, pelo fato dele estar sempre muito bem informado sobre passado e presente, o que lhe permitia assumir, mesmo que sem ter a plena consciência, a tarefa de professor (ao contrário de Décio Pignatari, que profissionalmente se centrou na Docência, e de Haroldo de Campos, que parcialmente se ocupou de aulas na Pós-Graduação da PUCSP, com desempenho brilhante, diga-se, Augusto não se interessou pela regência de aulas, tendo uma única vez desempenhado o papel, nos EUA, como Professor Convidado). E era perceptível o prazer que sentiam ao fazê-lo. Neste 2011, ano em que Augusto de Campos e Lygia de Azeredo Campos adentram a casa dos 80 – completam 80 translações! – ele, aquarianamente em 14 de fevereiro, ela, geminianamente em 15 de junho, é o momento de se pensar que há gentes festejáveis, posto que contribuem para o engrandecimento da Espécie e que, noutro contexto, poderiam até despertar a inveja das deidades olimpianas. Casados desde 1954, Augusto e Lygia se associaram, também, no hábito de cultivar amigos, o que era potencializado pela grande disposição que sempre possuíram para inflacionar o seu tempo para recebê-los. Augusto de Campos e Lygia de Azeredo Campos mais os filhos Roland e Cid, residiam num apartamento não muito grande, mas confortável, à Rua Bocaina, esquina com a Cardoso de Almeida, Bairro das Perdizes. E lá permaneceram durante mais de três décadas, sendo que os meninos foram deixando a casa dos pais por motivo de estudo, trabalho e casamento, donde vieram os netos: por parte de Roland (casado com Neusa Bernardes), Raquel e, por parte de Cid (casado com Márcia Bozon), Julie e Theo. Do apartamento da Bocaina (de 1964 a 2001) foram para a Rua Apinagés, onde residem até hoje. 




12.01.1980


O apartamento da Bocaina é memorável, porque corresponde a um tempo em que as coisas aconteciam de modo mais perceptível para mim, muito embora já não se vivesse a época das vanguardas ditas históricas (o que incluiria as dos anos de 1950). Entrava-se no apartamento do 6º andar e dava-se num corredor em cujas paredes se podiam ver quadros, como um de Maurício Nogueira Lima da fase heróica e provas-de-cor emolduradas da capa deNoigandres 1, além de estante com livros e discos. À esquerda, uma sala-de-estar com um grande sofá e poltronas, confortabilíssimos + uma mesinha-de-centro circular com tampo de mármore – lugar em que nos reuníamos para longas conversas – que se comunicava com uma sala-de-jantar em que se via uma grande mesa-e-cadeiras e um piano (às vezes, utilizado por Eurico de Campos, pai de Augusto, compositor, que vi tocar-cantar inúmeras vezes em casa de Samira Chalhub e João Jorge Rosa Filho, seus amigos). Nas paredes (que, ao longo de décadas apresentaram algumas variações), trabalhos incríveis dos amigos e doutros, como Volpi, Sacilotto, Ubirajara Ribeiro, Judith Lauand, Geraldo de Barros, Orlando Marcucci, Hermelindo Fiaminghi, Regina Silveira, foto em que Caetano Veloso aparecia segurando um VIVA VAIA gigante e alguns objetos, como trabalho de Regina Vater, aos quais, com o tempo, juntaram-se ainda outros, como o poema-objeto de John Cage em lâminas de acrílico com inscrições que se entrecruzavam dada a transparência do material. Uma reprodução de Gustav Klimt homenageava Anton von Webern. Acima do piano-armário, pinturas do pai de Augusto, Sr. Eurico de Campos, que vieram a substituir um cartaz que reproduzia, se não me engano, trabalho de Beardsley – ilustração para a Salomé, de Oscar Wilde. Livros, muitos livros, impecavelmente organizados em estantes.





11.12.1977


Eram constantes as minhas idas à casa de Augusto e não havia mês em que não ia para um almoço, dos melhores de minha existência, com comidas deliciosas – Lygia contava com uma funcionária, Norayr, que era exímia cozinheira – e as refeições eram regadas a vinho (para os que apreciavam, e não era este o meu caso) e grandes conversas. Geralmente ia até lá com Paulo Miranda. Os meninos, Cid e Roland, raramente apareciam (mais tarde é que vim – eu, muito mais velho que eles – a ter maiores contatos com Roland, físico e poeta e Cid, músico). Para a minha geração, a casa de Augusto de Campos e Lygia de Azeredo Campos representou (talvez, mais ainda) o que representaram para outras gerações de criadores as casas paulistanas de Paulo Prado, de Dona Olívia Guedes Penteado, de Mário de Andrade, de Oswald de Andrade-Tarsila do Amaral e menos, talvez, a do Senador Freitas Valle. Com que prazer íamos até lá! Sempre uma conversa enriquecedora: era onde Augusto, pacientemente, desempenhava o papel de uma espécie de professor e divulgador de novidades em termos de livros e discos e filmes. Ocasiões em que não éramos apenas ouvintes, mas participávamos da conversa, ocasiões em que não havia uma hierarquia propriamente, muito embora houvesse um respeito reverencial pelo Mestre. (Quando de sua saída do Brasil para os EUA, em 1981, para fins de aperfeiçoamento nas coisas da televisão/vídeo, Tadeu Jungle comentou em carta a Walter Silveira que as coisas no País estavam meio estranhas, como a proximidade muito grande que havia com relação aos nossos mitos… De fato, os mitos – e Augusto aí se enquadrava: um mito vivo e atuante – estavam bem próximos, sem encarnar, porém, o gênero “vida de artista” – minha geração e a dos um pouco mais novos tiveram o privilégio de conviver com um time de poetas acima de qualquer classificação: era grande a concentração de sabedoria poética por metro-quadrado no Bairro das Perdizes.) As conversas, às vezes, se estendiam ou se desenvolviam inteiramente em bares, como o Krystal Chopp, na esquina da Rua Cardoso de Almeida com a Dr. Homem de Mello. Principalmente nos anos 70 e parte dos 80, a disponibilidade de Augusto era grande: ele inflacionava o seu tempo para receber pessoas e deveria ser em 2 ou 3, ou até mesmo 4 dias na semana. O que faz a grandeza de uma casa são os seus habitantes e para receber pessoas é preciso, antes de tudo, disposição para despender um tempo, geralmente grande, para fazer-sala, como ainda se diz. 




12.01.1980


Augusto e Lygia (que às vezes participava da conversa, com observações inteligentes e preciosas: era uma espécie de memória viva de processos importantes que vivenciou com o marido, além da grande sensibilidade que possuía para a Poesia) sempre deixaram seus convidados à vontade, a ponto destes se demorarem em sua casa 4, 5 ou até 6 horas. Depois, como que com um certo remorso, passei a pensar o como e quanto impedíamos o poeta de estar produzindo preciosidades. Mas Augusto, certamente, gostava de possuir interlocutores de gerações diversas: de Paulo Miranda e Paulo Leminski, a Haroldo de Campos e Décio Pignatari, passando por Pedro Xisto e Edgard Braga. Muita gente mais-que-importante passou por aquele apartamento da Bocaina: Caetano Veloso, Tetê Espíndola, Lenora de Barros, José Lino Grünewald, Ronaldo Azeredo, Antonio Risério, Walter Silveira, Tadeu Jungle, John Cage, entre muitos outros. O apartamento da Rua Bocaina, num sexto andar de um sólido edifício, ficará na História como um grande ponto de reuniões importantes para a Poesia em São Paulo, reuniões que se desenrolaram por muitos e muitos anos. E muitos anos mais é o que desejo a Augusto e Lygia, que ora completam sua oitava década no Planeta. XAIPE!






Todas as fotos: Omar Khouri

Omar Khouri