22/06/2011 Número de leitores: 761

Farenheit 451

Alfredo Suppia Ver Perfil

Dia 1o de junho comentei o filme Farenheit 451 (1966), de François Truffaut, para o público do ciclo de cinema da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Em sua 14ª edição, desta vez com o tema “Cinema e Utopia: Um outro mundo é possível”, o evento faz parte do projeto de extensão “Cultura no Campus”, e tem como objetivo oferecer uma programação gratuita e reflexiva aos participantes por meio de mostras temáticas. Farenheit 451 é o único filme de ficção científica (FC) desta edição do ciclo. Revendo o filme mais uma vez, senti-me estimulado a colocar no papel (ou, melhor dizendo, num hard disk) os comentários que fiz sobre uma obra de destaque no horizonte do cinema de ficção científica.

 

Começo pela obra original, o romance Farenheit 451 (1953), e seu autor, Ray Bradbury. Na minha opinião, Farenheit 451 é um dos romances mais destacados na literatura do século XX. Digo literatura, e não literatura de ficção científica, em reverência ao que o próprio Bradbury já teria dito: que não há mais “Literatura mainstream”, de um lado, e ficção científica de outro, pois a FC já é o próprio mainstream.

 

Resenhando The Bradbury Chronicles: The Life of Ray Bradbury, de Sam Weller (http://www.irosf.com/q/zine/article/10233), Ryder W. Miller observa que

 

Bradbury was equally convincing when writing horror, fantasy, science fiction, mystery, and mainstream literature. During his life Bradbury was awarded in all of these areas" "Bradbury not only strove to transcend the limitations of “genre” writing, but also was able to give genre writing mainstream appeal.

 

Sobre o relacionamento do autor de Farenheit 451 com a indústria cinematográfica americana, Miller comenta ainda que

 

Bradbury decided not to disappear into Hollywood as a screen writer (for films such as It Came From Outer Space and John Huston’s Moby Dick), instead craving the fame that came along with writing books.

 

Weller quotes film critic Leonard Maltin on the subject:

 

I think it’s fair to say that somebody as distinct an individual as Ray Bradbury was never meant to succeed in mainstream Hollywood. Hollywood thrives on people who conform in one way or another - conform to popular taste, conform to current trends, conform to formula, to box office mandates, or bend to a director’s or producer’s wish. None of those things describe Ray. In a way, it makes sense that he doesn’t have a longer list of movie credentials. (p. 294)

Though famous for short story masterpieces like “A Sound of Thunder,” and the books The Martian Chronicles (considered by some the best science fiction book ever written) and Fahrenheit 451, Ray Bradbury would have you instead read his nostalgic book Dandelion Wine." (Ryder W. Miller, resenha deThe Bradbury Chronicles: The Life of Ray Bradbury, de Sam Weller. William Morrow, 2005. 384 pp. ISBN 0-06-054581-X. Disponível em (http://www.irosf.com/q/zine/article/10233)

 

Robin Anne Reid, em Ray Bradbury and the Question of "Science Fiction" (in Ray Bradbury: A Critical Companion. Westport: Greenwood Press, 2000), avalia a polêmica envolvendo Bradbury e "dois mundos" literários, o mainstream e a ficção científica, tendo em vista o trabalho de David Mogen sobre o autor deFarenheit 451. Segundo Reid,

 

Debate over whether Bradbury should be called a science fiction writer hinges on the various definitions of science fiction, which range from an insistence on careful extrapolation from contemporaneous scientific knowledge to a casual assumption that anything with space ships qualifies as science fiction, as well as the changing sociocultural world in which Bradbury as well as his critics and readers live. The most sustained analysis of Bradbury`s changing status is found in Mogen`s book, the second chapter of which is titled "Bradbury and the Critics: Between Two Worlds." Mogen traces how Bradbury moved from a genre writer publishing solely in pulp magazines to attaining the mainstream status that he continues to hold today. His popularity, shown by the fact that most of his work has remained in print for decades, has been accompanied by a growing reputation among academic critics.

 

Mogen notes that the paradoxical and controversial history of responses to Bradbury, including the idea that "the most severe criticism of his work has come from the science-fiction community rather than from the mainstream literary establishment. Though he may be the world`s best-known science-fiction personality, Bradbury`s reputation within the science-fiction community itself has always been ambivalent" (Mogen 14). Mogen quotes the 1978 Reader`s Guide to Science Fiction, whose editors characterized Bradbury as a "bit of a problem", noting (like Mogen) the different perceptions of Bradbury held by readers, critics, and the science fiction community. This reference work repeats a common criticism of Bradbury`s work: that it is "anti-science fiction."

 

According to Mogen, Bradbury`s movement into mainstream publication was marked by more numerous reviews by mainstream writers and reviewers and by increasing sales to the "slick" mainstream magazines, so called because of the quality of their paper, in contrast to the cheaper paper used in the smaller "pulp" magazines. (Robin Anne Reid, Ray Bradbury and the Question of "Science Fiction", in Ray Bradbury: A Critical Companion. Westport: Greenwood Press, 2000, pp. 9-10)

A "questão Bradbury", por assim dizer - a crítica negativa de sua obra por parte de "conservadores" da ficção científica -, deriva de definições engessadas do gênero, modeladas sobre o pensamento de John W. Campbell (editor deAstounding Science Fiction durante os anos 1940 e 50, período conhecido como aGolden Age da FC, e proeminente personalidade da escalada do gênero nos EUA). O elemento-chave de uma boa ficção científica, segundo Campbell, seria um mundo plausivelmente extrapolado a partir de, e não em contraponto, a princípios e conhecimento científico contemporâneo (Robin Anne Reid, Ray Bradbury and the Question of "Science Fiction", in Ray Bradbury: A Critical Companion. Westport: Greenwood Press, 2000, p. 10). Mais além nessa perspectiva: FC boa seria a FC hard (de hard sciences). De acordo com Reid,

 

Bradbury has "violated" and continues to violate the standards of hard science fiction because he is interested in other ways of writing about the world, the universe, and the human condition.

After summarizing the various debates about Bradbury`s status, Mogen provides a "defense". He notes that an examination of Bradbury`s work as a whole proves he is not simply against science and technology, but is part of an important science fiction tradition that includes writers such as H. G. Wells, Aldous Huxley, Frederick Pohl, and Ursula K. Le Guin, who "warn about consequences of misusing the new powers" (Mogen 22) and who question the belief that technology always improves life. (Robin Anne Reid, Ray Bradbury and the Question of "Science Fiction", in Ray Bradbury: A Critical Companion. Westport: Greenwood Press, 2000, p. 10)

 

Bradbury é um dos grandes mestres da "Era de Ouro" da FC americana, o B do célebre "trio ABC", que inclui Isaac Asimov, Arthur Clarke e, para os críticos mais exigentes, Robert A. Heinlein. Conhecido como grande “poeta” da FC norte-americana, Bradbury foi autor de especulações sociológicas que honram a linhagem literária de H. G. Wells e, de certa maneira, prenunciam a New Wave na FC anglo-americana. Farenheit 451 talvez seja a mais conhecida especulação sociológica do autor, notadamente melancólica, mas com um "rasgo" utópico em seu final. Melancolia, aliás, é um motivo central na literatura de Bradbury.

 

Farenheit 451 seria a temperatura da queima do papel, igual a 233o Celsius. Mesmo que cientificamente falso - o papel não queima exatamente a essa temperatura -, o título ofereceu uma imagem suficientemente sedutora para que fosse mantido.

 

Farenheit 451 contribui para a tradição das distopias futuristas de inspiração sociológica, com origem eventual em H. G. Wells, e que abrange obras comoNós (1932), de Evgueny Zamiatin, Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley, e 1984 (1948), de George Orwell. Segundo David Mogen,

 

Farenheit 451 fuses traditional themes of antiutopian fiction to focus satirically on the oppressive effect of a reductionist philosophy of "realism" translated into social policy. A very American satire, written in response to the cold war atmosphere after Worl War II, the novel`s sarcasm is directed not at specific government institutions but at anti-intellectualism and cramped materialism posing as social philosophy, justifying book burning in the service of a degraded democratic idea. Farenheit 451 depicts a world in which the American Dream has turned nightmare because it has been superficially understood. For all his burning eloquence Captain Beatty represents Bradbury`s satirical target, not Big Brother but the potentially tyrannical small-mindedness of the common man, perverting the most basic community institutions to enforce conformity. (David Mogen on Farenheit 451 as Social Criticism, in Harold Bloom [ed.], Ray Bradbury`s Farenheit 451, New York: Chelsea, 2007, p. 63)

 



Adaptado para o cinema por François Truffaut, Farenheit 451 foi produzido na Inglaterra e é o primeiro filme do cineasta francês falado em língua inglesa. Na época, Truffaut não falava bem o inglês e acabou trabalhando um tanto quanto isolado, uma vez que poucos integrantes da equipe técnica falavam francês.

 

No espírito do romance original de Bradbury, os créditos iniciais de Farenheit 451 são narrados e não escritos. O filme prescinde da mensagem verbal (créditos, textos nas imagens), tanto em nível diegético quanto extra-diegético - à exceção do “The End”, após a seqüência final em que Montag é acolhido pela comunidade dissidente dos "livros humanos".

 

Terence Stamp havia sido escalado como protagonista do filme de Truffaut, mas abandonou o projeto porque não queria contracenar com a atriz Julie Christie - especialmente pelo fato de ela interpretar dois papéis.

 

Lançado em 1966, Farenheit 451 pode ser (apressadamente) associado ao movimento francês Nouvelle Vague sobretudo em função de seu diretor. Truffaut ganhou notoriedade inicialmente como jovem crítico de cinema da revistaCahiers du Cinéma. Seu artigo "Uma certa tendência do cinema francês", publicado em 1954 nos Cahiers, foi uma pedra angular no que se refere à "política dos autores", o resgate do papel do diretor de cinema como verdadeiro autor de uma obra cinematográfica. Em "Une certaine tendence du cinéma français", Truffaut mobiliza um ataque frontal ao (1) “cinéma de qualité” francês, (2) ao cinema de roteiristas (adaptações de clássicos da literatura em que o roteirista é “rei”), (3) à dupla de roteiristas Jacques Aurenche e Pierre Bost, ao “realismo psicológico” no cinema francês e (4) a diretores supostamente submissos à tal “qualidade francesa”, praticantes do “realismo psicológico”, como Claude Autant-Lara, René Clément ou Henri-Georges Clouzot, entre outros. Em seu ataque ao "cinema de roteiristas", Truffaut crítica também a “técnica da equivalência” de Aurenche e Bost, que consistia basicamente na recriação (ou substituição) de trechos literários considerados "infilmáveis". Em síntese, a "política dos autores" de Truffaut e seus "asseclas" faz a defesa do diretor como verdadeiro autor no cinema. Essa "política" teve impacto preponderante no campo da crítica cinematográfica e mesmo na academia, repercutindo em desdobramentos como a "teoria de autor" anglo-americana, representada por críticos como Andrew Sarris.

 

No caso do filme Farenheit 451, a adaptação do romance de Bradburry simplifica algumas passagens - como a cena da participação de Linda Montag na telenovela interativa -, ou exclui imagens centrais do romance, como o “cão mecânico”. No filme de Truffaut, o "cão mecânico" acaba susbstituído por "policiais voadores". Motivos de ordem econômica ou tecnológica poderiam justificar tais simplificações ou exclusões - mas, ainda assim, seria possível falar da "equivalência" de Aurenche e Bost numa obra Truffaut? O roteiro deFarenheit 451 foi escrito pelo próprio Truffaut e Jean-Louis Richard, com base no romance de Bradbury. David Rudkin e Helen Scott contribuíram com diálogos adicionais. A idéia de uma mesma atriz interpretando dois papéis, vale dizer, é uma peculiaridade do filme, não do livro.

 

Bradbury foi autor de inúmeros contos e coletâneas de contos, e não raro algumas de suas imagens e personagens transitam por mais de uma de suas obras. Por exemplo, a imagem final do conto “O Pedestre”, publicado em E de Espaço (1978, Hemus-Livraria Editora Ltda., título original: S is for Space, 1966), lembra muito a cena do falso Montag sendo morto pelas autoridades policiais.

 



Um remake de Farenheit 451 tem sido previsto desde pelo menos 1996. Mel Gibson seria o ator principal. Pouco depois, Gibson preferiu concentrar-se na direção do filme, dando lugar a um ator mais jovem. Em seguida, Gibson abandonou também a direção, passada a Frank Darabont, diretor de Um Sonho de Liberdade (1994), À Espera de um Milagre (1999) e O Nevoeiro (2007), entre outros filmes, e indicado 3 vezes ao Oscar. Estimava-se que Farenheit 451 fosse lançado em 2008, mas a produção não avançou. Aguarda-se ansiosamente a retomada desse projeto e, dentro de um ou dois anos, a estréia do remake do filme de Truffaut – ou de nova leitura do célebre romance de Bradbury.

 

A idéia central de Bradbury em Farenheit 451 mantém sua influência até hoje, dada a atualidade de sua especulação sociológica: um Estado policial que controla seus cidadãos por meio da inibição do intelecto ou capacidade crítica. Por exemplo, um filme como O Livro de Eli (The Book of Eli), de Albert e Allen Hughes (2010), paga visível tributo ao Farenheit de Bradbury. Em O Livro de Eli, um guerreiro experimentado guarda ciosamente um dos últimos livros sobreviventes no contexto de uma sociedade pós-apocalíptica desordenada. O final do filme amarra definitivamente sua fábula ao romance de Bradbury. Há quem diga que a imagem de livros sendo queimados tenha perdido sua força nos dias atuais, dada a proliferação de textos eletrônicos, e-bookstablets, PDFs, etc. Mas julgar que a ficção científica deva se ater a desenvolvimentos tecnológicos contemporâneos é uma simplificação e até mesmo um equívoco. Fosse isto verdade, sub-gêneros inteiros da FC, como a história alternativa ou osteampunk, por exemplo, não fariam sentido nem o sucesso que fazem hoje em dia. Propor caminhos alternativos à agenda tecnológica contemporânea também é atributo da FC literária ou audiovisual, especialmente a FC de caráter mais sociológico (Wells) que extrapolativo (Verne). Portanto, não há problema algum em livros sendo queimados num filme com estréia programada para 2012 ou 2013. Espera-se, é claro, que o romance de Bradbury possa ter seu imaginário explorado mais intensamente, haja vista o atual desenvolvimento da tecnologia digital de efeitos especiais. A idéia de uma, duas, três ou quatro "paredes audiovisuais" inteiras nas casas das pessoas, símbolo de status numa sociedade que faz a apologia da televisão e seus programas interativos bestificantes, não encontra mais qualquer empecilho do ponto de vista de sua execução. Até porque tal imagem, profetizada por Bradbury em 1953, tornou-se um fato corriqueiro - basta passar em frente às lojas de eletrodomésticos e constatar a corrida das classes médias emergentes às TVs de plasma, LED ou LCD, algumas em 3D e quase mesmo do tamanho de paredes inteiras.

 

A propósito, vale a pena lembrar que a força de parábolas distópicas comoFarenheit 451 está justamente em sua perenidade temática, independente da iconografia presente nessas fábulas. A queima de livros se repetiu na história da humanidade em diversas ocasiões e não deixará de ser repetida no futuro, dada a teimosia de nossa espécie. Mesmo que não sejam exatamente livros queimados, a "fritura" da razão continuará como ameaça de forma difusa, pervasiva, nos mais diversos níveis e esferas. Não há limite para a estupidez humana, e nisso está o atrativo um tanto quanto sádico das melhores distopias da FC, metáforas que sobrevivem ao tempo como tutoriais de alerta aos mais desatentos politicamente.




Alfredo Suppia