23/09/2011 Número de leitores: 866

Melancolia

Alfredo Suppia Ver Perfil

O diretor que disse “Eu entendo Hitler, até simpatizo com ele”, em plena coletiva no Festival de Cannes, denuncia suas afinidades na trilha sonora de seu último filme. “Isoldens Liebestod” de Tristão e Isolda, de Richard Wagner, abre Melancolia. Mas a música estupenda parece estar lá menos por Wagner e o que este teria significado para o nazismo, e mais pelo que representou para os surrealistas. Melancolia é um filme compósito, idiossincrático: uma narrativa européia com retoques clássicos, contendo debilitadamente fissuras surrealistas e pós-modernas.

 

Melancolia remete a uma miríade de filmes esparsos e diferentes entre si. Seu prólogo parece uma homenagem a Um Cão Andaluz (Un Chien Andalou, 1929), de Luis Buñuel e Salvador Dalí, mas também lembra o tipo de “escultura audiovisual” praticada por Mathew Barney em sua série Cremaster (1996-2003). Desde pelo menos Anticristo (Antichrist, 2009), von Trier parece se aproximar da imagética de Barney e Cremaster. O prólogo de Melancolia não só condensa elipses mais adiantes, do desfecho do filme, como traduz em metáforas imagéticas falas e sensações dos personagens. A primeira parte de Melancolia, “Justine”, traz o Festa de Família (Festen, 1998), de Thomas Vinterberg, em seu “código genético”. Uma homenagem ao frescor do Dogma 95, datado e sepultado (mas nem por isso irrelevante), agora com acabamento em cetim. Otropos da colisão de corpos celestes percorre uma longuíssima trajetória na história do cinema, principalmente do cinema de Hollywood, de When Worlds Collide (dir.: Rudolph Maté, 1951) a Armageddon (dir. Michael Bay, 1998) e2012 (dir. Roland Emmerich, 2009). O tema do casal ou da família à beira de uma catástrofe de proporções cósmicas remete tanto ao episódio “O Novo Mundo” (“Il Nuovo Mondo”), dirigido por Jean-Luc Godard para o filme Rogopag: Relações Humanas (Ro.Go.Pa.G., 1963), como a O Sacrifício (Offret, 1986), de Andrei Tarkovsky. Filmes como Il Giorno Prima (1987), de Giuliano Montaldo, também gravitam em torno de Melancolia no tratamento da angústia que precede o fim do mundo – sem falar em diversos outros títulos, alguns deles filmes hollywoodianos ou blockbusters, como Impacto Profundo (Deep Impact, dir. Mimi Leder, 1998), ou o já citado 2012. De todos esses, “O Novo Mundo” e O Sacrifício me parecem os mais próximos à órbita de Melancolia, em termos de “espírito” e “atmosfera”. A diferença é que, tanto no filme de Godard quanto no de Tarkovsky, o fim do mundo vem a reboque das ogivas nucleares. Em tempos pós-Guerra Fria, a ameaça nuclear parece desacreditada em favor do terrorismo. Em tempos pós-Bin Laden e Bush, cataclismos cósmicos soam ainda mais atraentes.



Em “O Novo Mundo”, de Godard, a vida de um casal é transformada pela catástrofe nuclear. Em O Sacrifício, uma família se refugia numa casa de campo à espera da 3a Guerra Mundial, um conflito atômico com garantias de apocalipse.

 

Assim como Melancolia, todos esses filmes podem ser reivindicados pelo gênero cinematográfico da ficção científica - na verdade, talvez mais precisamente, uma variante de estilo do gênero, menos preocupada com o espetáculo visual e mais dedicada à especulação intelectual. Em filmes comoMelancolia, o sense of wonder não desvanece nas retinas do público, ele vai além do nervo ótico, provoca reações na circuitaria intelectual do espectador. Não se trata de um filme de ficção científica desprovido de efeitos. Na prática, o filme de von Trier beneficia-se de efeitos visuais esmerados. Mas a pirotecnia, aqui, é de outra ordem, serve a outros propósitos. Melancolia é “cientificamente incorreto”. Toda a espécie humana já estaria extinta, ou pelo menos imersa em colapso profundo, um bom tempo antes da colisão iminente com um planeta tão grande como Melancolia. Aparentemente, o “planeta-metáfora” de von Trier seria um “gigante rochoso”, e não um gigante gasoso da estirpe de Júpiter. De qualquer forma, os efeitos gravitacionais devastadores da passagem tão rente de planeta tão grande são absolutamente desprezados em favor da metáfora.Melancolia é um grande exercício de licença poética. Duas mulheres e uma criança de mãos dadas, esperando o choque da um astro gigantesco com a Terra, é algo possível apenas em poesia. Mas isso não importa, em nada compromete a associação do filme de von Trier à ficção científica. Basta lembrar de Ray Bradbury e muitos outros autores do gênero. Também não se trata de considerar Melancolia um filme “realista” - longe disso. Talvez, com alguma flexibilidade, poderíamos falar de um certo “realismo poético” resgatado pelo filme de von Trier, guardadas as devidas proporções. O que não seria pouco.

 

Cientificamente impreciso, barroco, poeticamente licencioso, Melancolia traz efeitos especiais magníficos porém parcimoniosos, produz um “effect science fiction” inquietante e, ao lado de outros raros filmes da mesma estatura, recoloca a questão: afinal, qual a verdadeira matéria da ficção científica? A colisão de planetas, ou a nossa angústia diante da hipótese da colisão de planetas? A resposta não é tão simples quanto parece. 

 

 

Alfredo Suppia