14/04/2012 Número de leitores: 744

Um Castelo sem paredes para o mundo inteiro

Claudio Nigro Ver Perfil

Entre Belo Monte e o Iraque, uma reflexão 
sobre representação e realidade

 

Fui falar dessa peça que já nem está mais em cartaz, o Palácio do fim, e confundi Palácio com Castelo e me lembrei do Kakfa e acabei me lembrando também do Kundera, que num texto lindo sobre a natureza do romance diz que há uma ligação entre todos os livros, e que de uma certa maneira, é sempre o mesmo protagonista que antigamente lutava contra os moinhos de vento de Cervantes, aquele que acabou perdido, tonto no século vinte, tentando entrar num castelo impossível, blindado pela gigantesca burocracia do mundo moderno, incapaz de agir e de superar obstáculos, como todo homem contemporâneo.

Mas o contemporâneo mudou mais uma vez. Assisti à encenação mês passado em cartaz no SESC Consolação e finalmente entrei no tal Castelo.

Independentemente dos pequenos defeitos da montagem, sobre os quais a crítica parece ter-se demorado bastante, assistindo ao espetáculo entendi que dentro do palácio do fim do mundo mora a crueldade absoluta.

 


Os fatos da peça acontecem no Iraque, mas todo teatro é metáfora e o Iraque é só uma palavra. Esse espetáculo foi um espelho generalizado. Enquanto ouvia uma mãe trágica, muito grega, um professor cientista, muito moderno e contraditório e uma moça soldado torturadora, muito humana e próxima de todos nós! – falando sobre as próprias vidas, presas num ninho de aranha chamado Iraque (em seu tortuoso passado e presente: Saddam, inicio, meio e fim) me perguntava quem seriam os três brasileiros que podiam tomar o lugar daqueles exemplos estrangeiros. Um índio de Belo Monte? Uma dona de casa evangélica mãe de cinco traficantes? Um deputado corrupto que comete haraquiri político? Tanto faz. Brasil, Bagdad, Bélgica, Boston, Botsuana. O texto nos dá a sensação de que esse palácio da crueldade está em toda a parte. Um castelo sem muralhas cujo centro mora dentro de cada um de nós. O conceito não é novo. O que muda? O que é inerente a este especifico espetáculo?


Apesar da diferença entre os personagens – aquele vivido por Camila Morgado é o mais real, sentimos nele uma força que os outros, mais circunstanciais e históricos, não têm, é verdade – apesar disso, o texto transcende os próprios defeitos, pois, como diz Wilker no folder do espetáculo, o teatro parece também ter-se transformado. A autora nos apresenta três histórias sem nenhum especifico vilão. Não há, tecnicamente falando, nessa peça, um antagonista para cada um dos personagens. Parece ser o mecanismo do mundo que massacra o homem. E o homem parece ser uma espécie canibal, que além da própria tecnologia, não fez progressos no campo emotivo e que se mata, se tortura, se estupra, se devora, seguindo a própria agnóstica natureza. Em um mundo onde não só o teatro perdeu a força mas onde a esperança faz cálculos racionais para a sobrevivência dos demais, estamos todos presos dentro de cascas históricas ou dentro de imundos e incrivelmente humanos personagens torturadores. Presos todos, em todas as cidades do planeta num mecanismo sem vilões específicos. Onde tudo acaba sendo triturado.


E a tortura está em voga, recentemente a internet populou nossa imaginação com as fotos da atual presidente do pais, sentada, corajosa perante a bancada dos militares. Hoje mesmo surgiram novas fotos dos índios de Belo Monte agredidos pelas forças armadas. E tudo isso se mistura na cabeça. Quem é o vilão do espetáculo? Com o que sonhava aquela militante acusada de traição? Com a realização de uma usina amazônica que mal cumpre as condicionantes exigidas na licença previa do próprio projeto?


Em suma, esse espetáculo, com seus erros e acertos, com sua iluminação impecável, tem sem dúvida alguma o mérito de falar sobre um tema que nunca esteve tão longe de estar na moda: a finitude do homem. O caráter efêmero do corpo humano que não obstante todas as contradições, finge esquecer que é, sozinho, o vilão de si mesmo, principalmente quando se coloca no centro da própria ideia de vida.


O conceito de teatro mudou, sugere Wilker no folder do espetáculo. E ele tem razão? Porque o mundo também mudou?


Uma fotografia do ex-ditador do Iraque também aparece na memória quando falamos de tortura. Quem consegue esquecer Saddam Houssein na sua imagem final, o indigente quase bíblico dos últimos tribunais?


Em algum lugar na mente, ou na realidade, todas as fotografias se misturam. O teatro da estética se mistura com a urgência política e tosca do agora.


Com ou sem Deus, como sugere o personagem de Vera Holtz no espetáculo, todos nós, índios, diretores de cena, fumadores de pedra, críticos de teatro, réus de tribunais, ditadores da republica, seremos presos contra a nossa vontade e forçados a enxergar que o pó é o nosso limite, e que na melhor das hipóteses, seremos transformados na terra sagrada de uma floresta ferida.


O que é mais importante? 

 

 

Claudio Nigro