21/06/2012 Número de leitores: 504

Prometheus (Ridley Scott, 2012)

Alfredo Suppia Ver Perfil

O prólogo de Prometheus sugere uma elipse que se candidata a ser a maior da história do cinema. O filme abre com um humanóide ingerindo uma substância diante de um OVNI gigantesco, à beira de uma queda d`água. O líquido negro provoca uma reação na criatura, a qual acaba caindo no precipício. A substância ingerida “corrói” o DNA do humanóide que, espatifado no fundo da cachoeira, finalmente se transforma num pó negro que se mistura à água. Os planos microscópicos subsequentes sugerem processos de multiplicação celular. Após a entrada dos caracteres do título do filme, o corte nos leva a algumas dezenas ou centenas de milhões de anos depois, em 2089, quando um casal de exploradores encontra inscrições numa caverna em uma ilha da Escócia. A elipse de Prometheus parece superar a do preâmbulo de O Monstro da Lagoa Negra(Creature from Black Lagoon, 1954), de Jack Arnold, que parte do surgimento da vida nos oceanos para chegar à “Amazônia” dos anos 1950 – talvez o maior salto temporal da história do cinema até então. Supera também, certamente, a elipse mais famosa do cinema, aquela de 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), em que o hominídeo lança para o céu um osso que, por efeito de fusão, se “transforma” numa espaçonave em órbita – um lapso temporal de algumas dezenas ou centenas de milhares de anos.

Prometheus, dirigido por Ridley Scott, é a aguardada prequel da série Alien, inaugurada com o magnífico Alien: O Oitavo Passageiro (1979), do mesmo diretor. Uma mudança profunda de conceito se opera entre os dois filmes, no entanto. Da suposta inspiração no conto “The Black Destroyer” (1939), publicado em The Voyage of the Space Beagle, de A. E. Van Vogt – para alguns, inspiração buscada também no roteiro de Jerome Bixby para It! The Therror from Beyond Space (1958) -, passa-se aparentemente (e talvez apenas a princípio) a uma leitura audiovisual mais sofisticada de Erich Von Danicken. Na fábula dePrometheus, a humanidade fora criada por uma raça de alienígenas chamada de “engenheiros”. Motivada pela interpretação de achados arqueológicos, a missão Prometheus parte rumo a uma galáxia distante no final do século XXI, no intuito de encontrar os criadores da espécie humana. A tese de que “eram os deuses astronautas” é questionada pelo biólogo Millburn (Rafe Spall) a bordo da Prometheus – não seria assim tão simples, segundo ele, jogar fora 300 anos de darwinismo por conta de algumas pinturas rupestres. Mas o palpite de Danicken prevalece, a Prometheus encontra os “engenheiros”, e os seres humanos acabam abrindo sua própria caixa de Pandora.

 


As referências à mitologia grega – algumas fáceis, simplistas e até mesmo simplórias – se multiplicam no filme. O título do longa não é nada sutil em sua referência à húbris. O mito de Prometeu - o titã castigado por sua simpatia pelos humanos - atravessou os séculos inspirando um sem número de narrativas, dentre elas um romance representativo do romantismo na Europa:Frankenstein ou O Prometeu Moderno (1818), de Mary Shelley. Há muito deFrankenstein em Prometheus. O filme confirma em alguma medida meu palpite sobre um certo fascínio de Ridley Scott pelo imaginário clássico – ou pelo imaginário clássico resgatado pelo romantismo, com traços ocasionais de uma estética fascista. Não é à toa que os "engenheiros" de Prometheus se parecem tanto com o Davi de Michelangelo: a pele marmórea e as dimensões heróicas - a cabeça correspondendo a 1/9 do corpo. Traços de um ideal clássico de beleza podem ser observados na obra de Ridley Scott desde Os Duelistas (The Duellists, 1977), passando por Blade Runner (1982), A Lenda (Legend, 1985) eGladiador (Gladiator, 2000), pelo menos. Um classicismo que abrange não só odesign de personagens – os replicantes de Blade Runner, o demônio de A Lendae a oposição entre Maximus (Russell Crowe) e Commodus (Joaquin Phoenix) -, mas também na fotografia de seus filmes, com destaque para Os Duelistas,Blade Runner e Gladiador. O paralelo com a pintura de Caravaggio ou de Vermeer por vezes suplanta a influência de Giger e Hopper em filmes comoAlien: O Oitavo Passageiro e Blade Runner. Vale destacar que Ridley Scott é antes de tudo um artista plástico, com formação no Royal College of Arts, e demonstra um gosto eclético pela pintura. São raros, inclusive, os diretores que trabalham com tamanho aproveitamento de artistas contratados, como o suíço Giger ou o francês Moebius.

É bem provável que este seja o primeiro filme de uma trilogia. Alguns aspectos intrigantes não foram elucidados e certas "linhas narrativas" foram deixadas sem costura – propositadamente, espera-se. Há muitas incongruências e indícios de roteiro descuidado para que Prometheus tenha sido planejado como únicoprequel de Alien: o Oitavo Passageiro - algo que particularmente duvido. A nave alienígena que é derrubada pode não ser a mesma nave encontrada pelos personagens de Alien: O Oitavo Passageiro – lembremos que o andróide David (Michael Fassbender) informa à Dra. Shaw (Noomi Rapace) que há várias espaçonaves como aquela no planeta. Tendo por base a cena final, em que uma nave alienígena deixa a atmosfera do planeta, fica a expectativa pela estória da cientista Shaw no mundo dos “engenheiros”. Um aspecto em especial sugere o “desencaixe” entre o final de Prometheus e o início de Alien: O Oitavo Passageiro: no filme de 1979, a tripulação da Nostromo encontra um “engenheiro” morto na ponte de comando da nave alienígena, seu tórax estourado de dentro para fora. No final de Prometheus, o “engenheiro” - o qual pensamos, talvez equivocadamente, ser o mesmo do primeiro Alien -, morre na cápsula de sobrevivência da Srta. Vickers (Charlize Theron). Esse é apenas um, e talvez o mais objetivo dos “nós” narrativos que não foram desatados pelo último filme de Ridley Scott. Creio também que a própria espaçonave alienígena derrubada pela Prometheus em ataque suicida não seja a mesma explorada pelos tripulantes da Nostromo em Alien: O Oitavo Passageiro – ou pelo menos é nisso que “escolhi acreditar”.


  

Espectadores mais “exigentes” podem se queixar infinitamente de “furos” no roteiro e problemas na caracterização de personagens em Prometheus. Sob essa ótica, muitos dos personagens agem ilogicamente, suas reações são despropositadas ou descabidas – como o sacrifício do capitão Janek (Idris Elba), seguido por seus subordinados imediatos, ou os descuidos de Holloway (Logan Marshall-Green) ou Millburn (Rafe Spall). Tais observações correm o risco de sobrevalorizar a importância das relações de causa e efeito e da motivação de personagens no roteiro cinematográfico. Afinal, é muito natural – ou verossímil – que as pessoas ajam ilogicamente. Uma dimensão meta-discursiva emerge em alguns diálogos, especialmente aqueles envolvendo o personagem do andróide David (Michael Fassbender). É David quem age de forma mais fria e calculada, sendo ao mesmo tempo o personagem que mais questiona a lógica humana, ou essa busca incontida por sentido onde talvez não haja nenhum. A fábula de Prometheus expõe reiteradamente a ociosidade de tal busca por sentido em todas as ações humanas ou eventos da natureza.

A dúvida é se, conforme se espera de um filme hollywoodiano, as “lacunas” de roteiro serão de fato preenchidas em possíveis continuações de Prometheus. Até o momento, o filme estaciona num meio-termo no que diz respeito a seu roteiro: não é ousado o suficiente para se distanciar dos demais filmes de Ridley Scott ou da série Alien, nem narrativamente industrioso a ponto de se destacar enquanto “biscoito fino” do cinema hollywoodiano atual.

Outra crítica esperada por parte de espectadores mais minuciosos – e que tem a ver com o design de personagens e o próprio roteiro – diz respeito à “pseudociência” presente no filme, ou à caracterização e ao comportamento “frouxamente científicos” dos personagens cientistas de Prometheus. Nesse sentido, o filme parece apostar muito mais no discurso anti-militarista de inspiração religiosa do que na racionalidade científica. Diálogos sugerem que o planeta seja uma base militar alienígena, um laboratório de armas de destruição em massa. As palavras “crente” e “acreditar” são razoavelmente recorrentes nos diálogos, enquanto a ciência sem fé do andróide sem alma e o capital profano do empreendedor sem sentimentos trazem a morte e a desgraça. Apesar de toda a controvérsia a respeito do roteiro e de um substrato discursivo de gosto e ética duvidosos, colocaria Prometheus logo abaixo do Alien 3 (1992) de David Fincher, ou empatado com este em segundo lugar na minha escala de preferência pessoal. Alien: O Oitavo Passageiro continua sendo a pérola da série na minha opinião. Aprecio também Aliens: O Resgate (1986), de James Cameron, embora julgue esse filme uma peça destacada e razoavelmente autônoma em relação à série inaugurada por Ridley Scott. A meu ver, Aliens: O Resgate é um filme exclusivamente de ação, muito mais próximo do Starship Troopers de Robert A. Heinlein do que do universo de Van Vogt, Bixby ou Campbell Jr.

Em seu afastamento do Alien original e do universo gráfico de Geiger,Prometheus parece se aproximar do imaginário trancendental do Arthur C. Clarke do conto “A Sentinela”, talvez mais ainda do que do 2001 de Kubrick. Mas se há um filme que Prometheus relembra quase que imediatamente, este é A Coisa (The Thing, 1982), de John Carpenter – por sua vez o remake de The Thing from Another World (1951), produzido por Howard Hawks e adaptado do conto “Who Goes There?”, de John W. Campbell Jr. No filme de Carpenter, um alienígena multiforme (ou talvez, melhor dizendo, um shapeshifter) invade e domina os corpos dos tripulantes de uma base de pesquisa na Antártida. EmPrometheus o leitmotiv não é muito diferente: a contaminação genética origina uma gama variada de organismos belicosos, das mais variadas formas (lumbricóide, reptiliana, cefalópode, “alien”...). É possível pensar se Prometheusnão seria um remake “de luxo” do modesto – porém criativo e eficiente – filme de Carpenter de 82. Só mesmo o lançamento – ou não – de sequências do filme de Scott poderá confirmar ou desfazer essa impressão. Ainda há muito a ser explorado no hiato entre Prometheus e Alien: O Oitavo Passageiro – e volto a dizer que, particularmente, creio que o roteiro de Prometheus não foi pensado como “peça avulsa”, mas como um primeiro capítulo de um prequel mais extenso, uma trilogia talvez, nos moldes de Matrix e dos episódios I, II e III deStar Wars.



Ao fim do filme, após o desfile de uma bizarra variedade de espécies alienígenas (visivelmente inspiradas na fauna terráquea, porém), havemos de pensar se o prólogo de Prometheus – o “engenheiro” ingerindo a estranha substância negra – não seria uma sugestão para o enigma da explosão cambriana, quando a variedade de formas de vida na Terra teria dado um “salto”. Afinal, a fábula de Prometheus parece sugerir que toda a diversidade de vida em nosso planeta seria proveniente do material genético de um único “engenheiro”, deixado por aqui há centenas de milhares ou milhões de anos atrás. Nesse sentido, a fábula traduz em imagens uma das mais controversas teses da atualidade, a do design inteligente, uma teoria que se pretende rival do pensamento de Charles Darwin. É provável que defensores e simpatizantes da tese do design inteligente tenham se identificado facilmente com a protagonista de Prometheu, Dra. Shaw, misto de crente e cientista.

Tais leituras, no entanto, devem ser criteriosas. Misterioso e ambíguo, falho ou descuidado, Prometheus instiga o espectador-fã da série Alien a fazer associações, a “ligar os pontos” e buscar mensagens codificadas – qualquer semelhança com a série Lost não é mera coincidência. Mas o fato é que cada filme da série Alien foi dirigido por um cineasta diferente, e a coesão da tetralogia pode não ir muito além da mera reaparição da personagem Ripley (Sigourney Weaver). Por que, então, buscar tanto sentido num filme comoPrometheus? Parafraseando o personagem do andróide David, que diferença faz conhecer os motivos do criador?

E por falar em tantas trilogias e preâmbulos, aguarda-se para breve um prequel(ou talvez sequencia) de Blade Runner, também de Ridley Scott.



Alfredo Suppia