06/07/2012 Número de leitores: 439

Está instaurada a guerra entre escritores e editoras?

Henry Alfred Bugalho Ver Perfil

Não sou comunista, nem socialista, nem acredito que a palavra de Marx seja definitiva para encerrar qualquer debate sobre economia e a exploração do proletariado. No entanto, não podemos negar que as teorias de Marx foram um dos pontos altos da transição para o século XX, ao lado de Nietzsche e Freud.Há uma frase de "O Capital", sobre o conceito de mais-valia, que nunca deixou a minha mente:

"Um escritor é um trabalhador produtivo não tanto por produzir ideias, mas por enriquecer o editor que publica suas obras, ou se ele for um trabalhador assalariado para um capitalista." (Capítulo IV, 3)

Para Marx, se o escritor se sujeita às regras do mercado, ele não é tão diferente de um torneiro mecânico, de um motorista de ônibus, de um caixa de supermercado ou de um executivo num escritório, pois de seu trabalho, e de seu consequente salário de miséria, deriva a riqueza dos donos do capital.

Um rápido vislumbre sobre como é feita a divisão do preço de capa de um livro nos esclarecerá mais esta exploração. Com o livreiro ou livraria fica 40% do valor, 15% para a editora, 25% para a gráfica e outros custos editoriais, 10% para a distribuidora e os 10% restantes para o escritor (dados de "A Economia da Cadeia Produtiva do Livro", BNDES). Se um livro custa 40 reais, o autor ganha quatro reais, a livraria leva dezesseis reais, a editora ganha seis, enquanto os quatorze reais que faltam seriam referentes ao preço de custo, incluindo impressão, design de miolo e capa, etc. O escritor, que está na origem da obra, sem o qual não haveria editoras e livrarias, sem o qual não existiria sequer Literatura, é o que menos lucra com esta estrutura, é o peão de obras do mercado editorial.

O escritor é o alicerce imprescindível, mesmo que tentem nos convencer do contrário. Os escritores iniciantes são tratados como restolho, com indiferença ou desprezo. A inserção no mercado é difícil, quando não impossível, para muitos. A maioria de nós amargará anos, ou décadas de rejeição e, ao meu ver, isto serve para dois propósitos:

1 - separar os que tem persistência dos que não tem, e

2 - quebrar o ânimo dos autores, provar-lhes que são uns inúteis, para, quando um dia forem aceitos por uma editora comercial, eles erguerem as mãos para os céus e darem graças a Deus, contentes por terem se inserido no esquemão, independentemente de qualquer cláusula ridícula que esteja no contrato, ou qualquer futuro pagamento insignificante que venha a receber de direitos autorais.

"Vendi a alma? Tudo bem, pois agora fui publicado!"

Quantos farão sucesso, vendendo milhares de exemplares, a ponto de poderem viver somente da escrita? Bem poucos, pouquíssimos!


O que a internet tem
provado aos escritores?


A publicação independente sempre conviveu lado a lado com as editoras comerciais, pelo menos desde que houve a consolidação do mercado editorial, no início do século XIX, no auge da Revolução Industrial na Grã-Bretanha, EUA e França. Balzac foi um dos autores que se aventurou no mundo da auto publicação e fracassou miseravelmente, com uma dívida que perdurou por anos.

Tanto nesta época como ainda em nossos dias, o calcanhar de Aquiles da publicação independente é a distribuição, como fazer os livros circularem e chegarem às mãos dos leitores. Sem acesso às livrarias, às bancas de revista e aos supermercados, o autor independente tornava-se um vendedor de porta em porta, desesperadamente tentando socar sua obra goela abaixo de amigos e conhecidos. Há uma anedota clássica sobre Jorge Luis Borges, quando foi publicada a primeira tiragem independente de seu livro de poemas "Fervor de Buenos Aires", que pediu aos amigos para enfiar o livro nos bolsos de pessoas influentes, críticos e escritores, para talvez causar algum burburinho.

No final do século XX, a internet se tornou um fenômeno e, por mais que muitos ainda não tivessem noção de como ela transformaria o mundo, era evidente que as distâncias estavam sendo encurtadas e o tempo de reação às novidades seria reduzido. Era a realização da profecia de Andy Warhol que "no futuro, todos serão mundialmente famosos por 15 minutos". Aos poucos, a distribuição deixava de ser o grande problema, mas sim como tornar-se visível em meio a uma multidão de famosos instantâneos e efêmeros.

O surgimento dos blogs, uma forma de publicação barata (ou gratuita), simples e acessível a qualquer pessoa no planeta, rompeu a cadeia tradicional de publicação escritor-editora-distribuidora-livraria-leitor. Desde então, a relação autor-leitor é feita sem intermediários, sem censura, sem mutilação da obra literária, por outro lado, também sem edição e muitas vezes sem senso autocrítico algum do autor. Qualquer um pode dizer qualquer besteira para qualquer um.

No entanto, no fundo, o que a internet tem demonstrado aos escritores é que eles não necessitam mais passar por uma editora para serem lidos, para serem conhecidos e para se consolidarem como escritores de sucesso. Nos próximos anos, veremos mais e mais casos de escritores bem-sucedidos que estarão fora do mercado literário, ou deixarão o mercado literário para se tornarem autores independentes, num ato de libertação de uma estrutura de exploração.



O caso do mercado norte-americano, 
ou o colapso da estrutura tradicional


Em 2011, a grande notícia do mercado de livros nos EUA foi o megasucesso do escritor John Locke, que vendeu mais de um milhão de livros digitais através da Amazon.com. 
Mas, antes de tentarmos entender o que favoreceu esta façanha, temos de entender como funciona o mercado literário norte-americano. 

Basicamente, além daquela cadeia que vimos, que começa no escritor e acaba na livraria vendendo o livro ao leitor, incluímos mais um intermediário, o agente literário. A grande dificuldade dos escritores americanos não é somente conseguir uma editora, mas, antes, conseguir um agente literário para representá-lo. O processo é o que se segue: o escritor envia cartas para alguns dos vários agentes literários do país, com um resumo de sua obra e por volta de umas dez páginas do manuscrito. Caso o agente se interesse pela trama e pela escrita, ele solicita o restante do material por correio e, por fim, se ele vir potencial de publicação naquela obra, o contrato é fechado e o agente inicia o contato com as editoras interessadas. Se for um livro bom, será oferecido ao autor um adiantamento, entre 5 e 10 mil dólares, que será abatido dos direitos autorais das vendas futuras daquela tiragem. No entanto, se for uma obra extraordinária, ocorrerá uma espécie de leilão entre as várias editoras, que oferecerão adiantamentos maiores, já antecipando vendas futuras em paperback, um formato de bolso mais barato do que o hardcover, com capa dura para as primeiras edições. Estes adiantamentos podem chegar à casa de um milhão de dólares para grandes autores. Depois, a cadeia segue normalmente, como no Brasil.

A maior parte dos autores norte-americanos não consegue nem um agente literário para representá-la, e vários que conseguem tem dificuldades para fechar contratos com editoras, isto num mercado muito mais aquecido e também mais competitivo do que o nosso.

Recentemente, assistimos à febre das POD (print on-demand), ou publicação sob demanda, uma saída genial para autores independentes que não podem ou não querem investir muito para a publicação de seus livros. Há uma provedora de serviços que imprime somente os exemplares que venderam, ou seja, não há estoques nem desperdício. Vendeu? Imprime o livro. Não vendeu? Continua no catálogo até o dia em que alguém se interessar. Muitíssimos autores vendem um ou dois exemplares somente, outros nem isto, mas há alguns casos de sucesso através de PODs.

Mas, aos poucos, o foco mudou do livro impresso para os livros digitais (ebooks), com custo praticamente zero, vendidos diretamente aos leitores, sem gastos com impressão, e a popularização dos leitores de ebooks representou um crescimento exponencial das vendas, enquanto ocorreu um decréscimo nas vendas de livros impressos. A entrada na Amazon neste jogo, com a Kindle Direct Publishing, foi um balde de água fria nas editoras, ainda mais com as estatísticas de 2011 indicando que, pela primeira vez na História, os livros digitais estavam vendendo mais do que livros impressos, o que é muito fácil de se compreender, pois livros digitais são mais baratos, não ocupam espaço e você pode carregar centenas deles num único leitor de livros digitais.

O que poucos imaginavam, ou se recusavam a aceitar, ocorreu num intervalo de poucos anos. Todos aqueles que apregoavam que o livro digital jamais substituiria o impresso, que há o cheiro do papel, a sensação de tocar o livro, de vê-lo na prateleira de casa, todos estes estão agora mordendo os cotovelos, tentando entender o que aconteceu. Era digital chegou, do MP3, do Youtube, do JPEG e do ebook, atropelando todos aqueles que dormiram no ponto.

Esta é a realidade que a editoras e livrarias americanas estão tendo de digerir e de se readaptar, não sem as fatalidades no caminho, como grandes livrarias fechando as portas, agentes literários deixando o negócio e pequenas e médias editoras desaparecendo ou sendo devoradas pelas big six (HarperCollins, Penguin, Hachette, Simon & Schuster, MacMillan e Random House).

Voltando, então, a John Locke e seus um milhão de ebooks vendidos, que abriu os olhos de numerosos autores publicados comercialmente e, convencidos pela Amazon com percentuais de direitos autorais mais apetitosos, iniciaram uma debandada sem precedentes no mercado americano, trocando grandes editoras pelo publicação independente online. A lista de best-sellers fugindo da exploração editorial é grande, mas muitos deles são desconhecidos em nossas terras tupiniquins. Todavia, no Brasil, com a chegada da gigante Amazon, já vemos autores de peso, como Paulo Coelho, embarcando nesta. Se o maior best-seller da História do Brasil e um dos mais vendidos autores do mundo considera isto um bom negócio, talvez esteja na hora de você também abrir o olho.

Seria esta a declaração de guerra dos escritores às editoras? Ou podemos esperar um contra-ataque em breve?

 

 

Henry Alfred Bugalho