07/08/2012 Número de leitores: 574

Carta a Charles Dickens

Cláudio Feldman Ver Perfil


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Amigo Dickens:

Antes de mais nada, gostaria de justificar o meu tratamento afetivo de amigo. Quando horas angustiosas e terríveis me atingiram, com o falecimento de familiares, problemas existenciais, recessão econômica, frustrações literárias e políticas e muitos outros etc., você foi meu constante companheiro. Que `causeur`, senão você, conseguiria vencer, nos citados momentos, minha exasperação nervosa, aplacá-la, fazê-la esquecer-se e transformar padecimentos num mergulho interessado em peripécias imaginárias de personagens?

Basta isto, apenas, para aceitá-lo fraternalmente.

Mas você foi muito mais do que apontei: pelo vigor de sua fantasia, pela concepção de tipos curiosos e bizarros, pelo ágil e surpreendente frescor de seu estilo narrativo, pela enorme atração dos seus assuntos e episódios, posso considerá-lo, Dickens, alguém que enriqueceu minha sensibilidade imaginativa.

 

Um imprescindível.

Certo colega meu, que tem laivos de moderneiro
, opina que o fundo consolador, sentimental e humano de sua obra é algo desdenhável no hoje literário, que seu dom do entretenimento cheira a `best seller`.

Eu sei que desde seus escritos, amigo Charlie, a ficção percorreu todo um rol de metamorfoses – psicológicas, filosóficas, sociológicas, políticas, estilísticas – para chegar à atual perplexidade, crise, caos.

Estas características ressaltam a dor de existir; mas, em sua criação, Dickens, fincada no seu tempo, ela não esteve ausente, apesar da forte dose de fluência folhetinesca e com o `happy end` para compensar os difíceis momentos dos personagens, práticas, aliás, típicas de sua época.

A propósito, amigo C.D. , se as cenas descritas, o estilo literário, a estética e a moral de sua obra são justificadamente antiquados, contrabalançam-se, para o leitor moderno, com seu poder de cativá-lo e diverti-lo com uma multiplicidade de observações, com a graça caricatural, o humorismo grotesco, a ternura comovente, o patético sentimental e a emoção dramática. Tudo isto acompanhado por uma grande agilidade de espírito e uma admirável fecundidade na invenção dos mais insólitos e excêntricos tipos.

A modernidade se afina mais com Dostoievski, um precursor, para falarmos de um contemporâneo seu. O russo, em muitos aspectos seu oposto, tem também alguns pontos em comum: a mesma força narrativa, igual poder de criação, semelhante capacidade para criar múltiplos personagens estranhos, extravagantes, e a idêntica virtude de interessar o leitor de uma maneira profunda. Porém – e nisto você deve concordar – quando ambos chegam ao ponto crítico da moral, da finalidade da vida e do, é óbvio, estilo, separam-se fundamentalmente.

Você e Fiodor operam em torno da dor, contudo é distinta a interpretação da tristeza e do sofrimento moral.

Para Dostoievski – a quem eu admiro e respeito, mas não considero um amigo – a dor é como uma mística finalidade, no sentido primitivo e oriental : precisa-se sofrer, pois o mundo é filho do pecado. E é necessário perecer no infortúnio e na culpa sem esperança de redenção, sem direito ao consolo, com resignação ante o fim maldito. É a expressão niilista e catastrófica da alma eslava.

Você, ao contrário, expressa outro aspecto do sentido cristão: a dor é redimível pelo amor, pela melancolia, pelas lágrimas, pela piedade e pelo perdão – noções um tanto fora de moda, em nossos dias.

Assim, enquanto os personagens do autor de “Noites Brancas” quase nunca choram e marcham em direção a um fim trágico através de suas misérias e crimes, em sua ficção, caro Dickens, todos os seres, mesmo os mais sórdidos, conseguem o consolo do pranto, o perdão de morrer redimidos.


A simpatia moderna, porém, prezado Charlie, oscila mais para o lado de Dostoievski : sua obra complexa, mórbida, onde o sofrimento tem traços de masoquismo, sintoniza-se mais com o tempo atual, francamente dirigido ao “unhappy end”.

Uma literatura não é superior ou inferior por ser amena ou perseguidora do patológico, da dor e que define a vida como um fundo de miséria e sofrimento de difícil salvação. Há no homem, sem dúvida, abismos morais que a Arte deve explorar – e Dostoiesvki é mestre nisto.

Entretanto, por já conviver com um mundo tão dilacerante, caro Dickens, é que eu tenho evitado Dostoievski, o escavador de almas, que acarinhava tanto o bem quanto o mal com a mesma intensidade.

Prefiro - para ira de meu colega moderneiro
 - os seus `causos`, Charlie, que frequento com uma espécie de alegre surpresa, prazer e devoção crescente.


Um grande abraço!

 

 

Cláudio Feldman