27/08/2012 Número de leitores: 362

A Caverna dos Sonhos Esquecidos (Werner Herzog, 2010)

Alfredo Suppia Ver Perfil

No conto “Um Som de Trovão” (“A Sound of Thunder”), pequena pérola do escritor americano Ray Bradbury publicada originalmente em 1952, a empresa Time Safari, Inc. promove viagens no tempo em que seus clientes participam de animados safaris pré-históricos, nos quais é possível caçar animais tão exóticos como o Tyranossaurus Rex. Tal negócio, no entanto, é muito arriscado. Para evitar qualquer tipo de paradoxo temporal, a Time Safari se certifica de que os animais abatidos morreriam de qualquer modo naquele exato momento e local. Os caçadores não podem abater nenhum animal que pudesse ter uma vida mais longa. Uma desobediência a essa regra poderia gerar uma reação em cadeia com efeitos catastróficos, conforme cuidadosamente explicado pelos funcionários da empresa. Os clientes-caçadores devem seguir rigorosamente as instruções: eles viajam no tempo, andam sobre plataformas cuidadosamente instaladas sobre o terreno, abatem o animal indicado pelos guias e retornam ao presente sem trazer objeto algum daquela época. Até que um desses viajantes no tempo infringe as recomendações, deixa a estrutura sobre a qual é permitido caminhar e pisa numa humilde borboleta. De volta ao tempo presente, as consequências desse ato banal ganham proporções inauditas.


Um Som de Trovão” já foi adaptado para o cinema. Lançado em 2005, o filme homônimo de Peter Hyams aposta nos recursos de computação gráfica para recriar essa fábula sobre paradoxo temporal que extrapola a Teoria do Caos. O filme, porém, frusta os leitores mais apaixonados de Bradbury. O longa de Hyams não iguala a eficiência singela da pequena estória na qual foi baseado. A melhor adaptação de “Um Som de Trovão” surge tempos depois, num filme documentário que não tem nenhuma relação com o conto de Bradbury. Surpreendentemente, o filme que melhor capta o espírito da estória é o documentário A Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, 2010), de Werner Herzog, exibido em agosto no Cinesesc por ocasião da mostra de cinema 3D dentro da Mostra SESC de Artes 2012.


Alguém poderia perguntar: mas o que um filme documentário tem a ver com cinema de ficção científica? Neste caso, alguma coisa. Herzog tem uma relação peculiar com a fantasia, e um antecedente desse ponto de contato do diretor alemão com o imaginário e a iconografia da ficção científica já se revela em seuThe Wild Blue Yonder (2005), filme que mescla imagens documentais a trechos encenados, no qual um alienígena narra a história de um planeta moribundo.

 


Foto: divulgação

Em A Caverna dos Sonhos Esquecidos, Herzog documenta as pinturas rupestres do complexo de cavernas de Chauvet, na França. Tratam-se das mais antigas criações pictóricas da humanidade. O filme é oportunamente rodado e finalizado em 3D, tecnologia que, neste caso, favorece a imersão numa envolvente “viagem no tempo”. É verdade que, em algumas ocasiões, o 3D perde sua eficácia no filme, uma vez que algumas tomadas de pinturas oferecem uma experiência essencialmente bidimensional. Algumas vezes, problemas de ajuste de paralaxe ou mesmo de distância da câmera do(s) objeto(s) de interesse comprometem o efeito estereoscópico. Mas convém relevar a maioria desses problemas, em face da dificuldade de se adentrar um espaço de filmagem tão contingente e delicado como as cavernas de Chauvet – sem falar nos “caprichos” que uma filmagem documentária impõe a câmeras 3D. Fazer um filme documentário em 3D é muito diferente de um filme de ficção com a mesma tecnologia. Herzog trabalhou com equipe e equipamentos mínimos em função das particularidades das locações. Dito isto, obteve grandes resultados. Perto do fim do filme, no entanto, Herzog abusa da paralaxe negativa promovendo uma sensação visual extremamente desconfortável ao espectador, por ocasião do travelling aéreo em que a câmera é acoplada a um aeromodelo radiocontrolado.

Um pouco como em “A Sound of Thunder”, Herzog adentra a caverna de Chauvet na trilha de cientistas-guias. Todos caminham por plataformas especialmente montadas no local, nada pode ser tocado, nada pode ser derrubado ou trocado de lugar, a ponto de uma pintura numa estalactite ser apenas parcialmente conhecida – seu outro lado tem de ser imaginado, pois ainda não é possível acessar a parte posterior da estalactite e, portanto, a outra metade do desenho. Depoimentos explicam que a respiração dos turistas danificou as pinturas rupestres de outra caverna, Lascaux, e que por isso visitas a Chauvet eram especialmente controladas. Para atender às finalidades turísticas, uma cópia do complexo de cavernas estaria em vias de construção.


As imagens de Herzog e os cientistas caminhando sobre as plataformas, acompanhadas dos depoimentos in situ e das narrações em voz over do diretor, oferecem a experiência mais próxima daquilo que Bradbury planejara para seus exploradores do tempo em “Um Som de Trovão”. Ciente do caráter exploratório e digressivo de seu filme, o diretor provoca seu espectador com devaneios de ordem metafísica ou teosófica, intercalados às falas de ordem mais técnica ou científica. Mas são justamente nos depoimentos mais técnicos de especialistas no interior da caverna, como o da senhora cientista, que o poder de digressão do filme se intensifica. Nas porções explicitamente poéticas ou metafísicas, especialmente por meio da fala de Herzog, o filme perde algo de sua força imaginativa, seu poder de provocação. Torna-se excessivamente óbvio, às vezes, perdido numa espécie de espiritualismo new age germânico que cansa o espectador. A propósito, talvez A Caverna dos Sonhos Esquecidos fosse ainda mais poderosos caso tivesse 20 ou 30 minutos de duração a menos. Um filme de 60 ou 70 minutos seria suficientemente forte e impressionante, livre das longas falas do jovem arqueólogo francês ou de outros entrevistados fora do interior da caverna. O depoimento do senhor perfumista se revela, no entanto, um achado feliz. Ele “cheira” a caverna e com isso nos provoca a imaginação em outro sentido, o olfativo, numa experiência inusitada. Não só as imagens no interior da caverna, surpreendentemente perfeitas, nos transportam à um tempo em suspensão, remoto, supra-histórico, mas também a imaginação do odor que brota das entranhas da terra. No que parece mais improvisado ou ocasional, e no que soa mais “superficialmente” técnico, o filme de Herzog atinge seus melhores resultados.



Foto: divulgação


Mas voltemos à relação de A Caverna dos Sonhos Esquecidos com a ficção científica. Se a remissão a “Um Som de Trovão” e ao motivo da “viagem no tempo” ainda não for suficiente, vale a pena invocar uma justificativa ainda mais inusitada, a relação própria entre documentário e cinema de ficção científica – já aventada por Raymond Bellour a propósito de La Jetée (1962), de Chris Marker (Entre-Imagens. Campinas: Papirus, 1997, pp. 170-1). Porque alguns filmes de ficção científica – e não são poucos – adotam a retórica e a forma documentária na construção de suas fábulas, apostam no poder de registro audiovisual de um futuro fictício como passado recuperado. Como já disse Fredric Jameson sobre a literatura de ficção científica, um futuro do passado que atesta nossa incapacidade utópica atual. Se a relação entre o cinema de ficção científica e o cinema documentário for procedente, então o caminho inverso também pode ser sugerido. Daí a força imaginativa de um filme documentário como A Caverna dos Sonhos Esquecidos, seu caminho inverso ao de um filme como La Jetée, e sua surpeendente vocação enquanto fantasia científica.


Alfredo Suppia