23/09/2012 Número de leitores: 441

A Outra Terra

Alfredo Suppia Ver Perfil

No famoso filme ícone do Cinema Marginal brasileiro, o bandido da luz vermelha aterrorizava – e “avacalhava” - a cidade enquanto a mídia anunciava a presença de um disco voador, numa paródia da célebre adaptação radiofônica de War of the Worlds (H. G. Wells, 1896) feita pelo Mercury Theatre on the Air, em 1938, capitaneado por Orson Welles. A trajetória de um protagonista sobre o pano de fundo de um evento interplanetário é a única – porém sugestiva - similitude entre um filme como O Bandido da Luz Vermelha (1969) e o recente A Outra Terra(Another Earth, 2011), de Mike Cahill.

 


Em A Outra Terra, Rhoda Williams (Brit Marling), uma jovem promissora, à beira de uma carreira brilhante, sai dirigindo embriagada de uma festa enquanto, no rádio do carro, o DJ Flava (interpretado pelo próprio) anuncia a descoberta de um novo planeta pelos astrônomos. Rhoda comemorava a conquista de uma vaga no prestigiado Massachussets Institute of Technology, justamente no curso de Astronomia. Enquanto dirige e ouve o rádio, ela desvia sua atenção da estrada para ver o planeta azul, idêntico à Terra, através da janela do carro. A pouca distância dali, os destinos de Rhoda e da família de um professor de composição musical, John Burroughs (William Mapother), vão se cruzar de forma trágica e irreversível.


John, sua mulher e seu filho estão no carro parado num sinal vermelho. Entorpecida, Rhoda se entrega à visão do misterioso corpo celeste e perde completamente a concentração ao volante. Seu carro bate de frente com o veículo parado onde estavam o professor e sua família. Rhoda desce ferida de seu carro e constata a gravidade do acidente. John sobrevive, sem sequelas físicas após um período de coma, mas perde seu filho e sua mulher grávida, mortos na batida. Menor de idade, Rhoda acaba presa e cumpre 4 anos de prisão.


Ao sair da prisão, a vida de Rhoda toma um rumo muito diferente do que sua família havia planejado para ela. Ao invés de uma carreira brilhante, a moça se dedica a trabalhos de limpeza numa escola. Nos quatro anos em que esteve presa, a duplicata da Terra se aproximara do nosso planeta e agora já podia ser vista enorme no céu, e à luz do dia. A presença do planeta continua a intrigar os cientistas e a opinião pública. À medida em que lida com um sentimento de culpa massacrante, Rhoda acompanha as notícias sobre as tentativas de contato com o planeta gêmeo da Terra. Numa sequência particularmente curiosa, Joan Tellis (Diane Ciesla), cientista do SETI Institute (Search for Extraterrestrial Intelligence), consegue fazer contato por rádio com um habitante da chamada “Terra 2”, num evento televisionado. Para a surpresa de todos, a cientista logo descobre que está a conversar com uma duplicata de si mesma.

 

Divulgação


Crescem as especulações sobre a similaridade da Terra 2. Um milionário lança um concurso para que voluntários participem de uma missão ao planeta misterioso. Movida pela culpa e pelo desejo de reparar em alguma medida o dano que havia causado, Rhoda procura por John Burroughs. Sem revelar sua verdadeira identidade, ela começa a trabalhar para o professor, limpando e arrumando a sua casa. Até então John vivia entregue ao álcool e à depressão, e saberemos depois que ele nunca quis saber a identidade do menor responsável pelo acidente que vitimou sua família. Enquanto isso, Rhoda submete um ensaio ao concurso para astronautas e ganha uma vaga na missão à Terra 2. A esta altura, o convívio entre Rhoda e John - em grande parte movido pela carência afetiva comum a ambos - já extrapola a mera relação profissional. Os dois começam a se envolver afetivamente. Ao comunicar a John que havia sido contemplada com a chance de viajar à Terra 2, o professor prepara um jantar de comemoração. Finalmente, Rhoda se vê forçada a revelar sua verdadeira identidade a John, e uma crise se instala. A partir deste momento climático, convém pararmos a sinopse para não comprometer as surpresas do desfecho de A Outra Terra, filme singelo que agrada por sua curiosa urdidura de gestos e sigilos.

 

Atriz e diretor - foto: divulgação


A Outra Terra é um filme independente de orçamento modestíssimo – estima-se que tenha custado cerca de US$ 150 mil. Dirigido, fotografado e editado por Mike Cahill, com roteiro deste em parceria com Brit Marling (isso mesmo, a atriz principal), A Outra Terra venceu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Sundance em 2011. Em sua feliz justaposição de drama intimista e ficção científica, o filme comprova a ociosidade de efeitos especiais sofisticados em determinados projetos do gênero. É importante salientar ainda que, em A Outra Terra, o elemento fantástico ou especulativo - isto é, a presença de umDoppelganger da Terra, com os respectivos duplos de cada ser humano - não se apresenta como fator circunstancial, mero pano de fundo ou citação oportunista. De fato, macro e microcosmo se aproximam e se fundem no decorrer da narrativa: o drama de Rhoda e John acabam profundamente imbricados no cenário especulativo da descoberta de um outro planeta. Fábula e tensão intimista se confundem ou se justapõem. Richard Berendzen, autor de Pulp Physics, interpreta a si mesmo no filme e protagoniza uma breve cena explicativa. Segundo o cientista e professor, em algum ponto da longa história do universo o planeta Terra teria sido replicado em alguma região do cosmo. Uma cópia exata, um planeta-espelho, com suas respectivas duplicatas de eventos, coisas e seres vivos terráqueos. Em algum momento, no entanto, uma divergência teria ocorrido, de maneira que a Terra 2 pudesse ter seguido outra realidade paralela. A fala de Berendzen procura traduzir numa linguagem supostamente científica o mito que domina o filme, o romantismo do Doppelganger e a metáfora do espelho.


E por falar em espelho, vale a pena comparar A Outra Terra a outro filme,Melancolia (Melancholia, 2011), de Lars von Trier. Lançados no mesmo ano, ambos – cada qual à sua maneira e dentro de seus limites e ambições – tematizam dramas humanos interiores face a eventos de proporções cósmicas. Tanto no filme de von Trier quanto no de Cahill, a descoberta de um planeta que se aproxima da Terra é um motivo catalisador. Se Melancolia é “ópera” e A Outra Terra um “dueto de cordas”, é verdade que ambos investigam a impotência do indivíduo frente ao gigantismo da natureza. Nesse sentido, uma série de antinomias acabam sugeridas em ambos os filmes: finitude x eternidade, loucura x lucidez, destino x livre-arbítrio, pequenez x imensidão. E uma mensagem em especial parece subjacente a toda e qualquer situação, tanto em Melancoliaquanto em A Outra Terra: para além de qualquer lamento humano, o fato é que o universo não se importa conosco.

 

Divulgação


Vale a pena observar que a câmera na mão frequente, os planos-sequência e as tomadas em ângulos pouco “funcionais” - num cinema de extração mais popular ou comercial - acenam com uma certa inclinação realista de A Outra Terra. Cremos, portanto, que o filme de Cahill possa ser mais um exemplo de filme de ficção científica realista, no qual o ilusionismo dos efeitos visuais inexiste ou se apresenta absolutamente subordinado a uma construção narrativa coesa, totalizadora e enunciada por meio de procedimentos formais de inclinação realista. Essa “fórmula” ou vertente se repete em outros filmes, sobretudo no contexto do cinema independente americano. Magnético a seu modo, A Outra Terra seduz por sua singeleza e despojamento, sua aridez e sugestão poética a um só tempo. Pena que no Brasil não sejam produzidos filmes equivalentes, motivados pela mesma centelha criativa. Por aqui, cinema de ficção científica ainda é equivocadamente associado a mega orçamentos e efeitos especiais visualmente impressionantes.



Alfredo Suppia