27/10/2012 Número de leitores: 460

Primer

Alfredo Suppia Ver Perfil

Primer (2004), de Shane Carruth, é um thriller de ficção científica independente, de baixíssimo orçamento - teria custado US$ 7,000.00. O longa de 77 min., diálogos rápidos e montagem ágil, ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Sundance de 2004.


Na fábula de 
Primer, quatro amigos - Aaron (Shane Carruth), Abe (David Sullivan), Robert e Phillip -, trabalham durante o dia numa empresa de tecnologia e, à noite, se dedicam a construir, na garagem de Aaron, aparelho capaz de interferir na gravidade, reduzindo o peso de objetos. A certa altura, os inventores descobrem que o aparelho age não só sobre a massa e a gravidade, mas também sobre o tempo. Seu invento se revela, na verdade, uma máquina do tempo, capaz de enviar objetos ao passado. Em seguida, Aaron e Abe constróem uma versão maior do aparelho, capaz de alojar uma pessoa. Viajando no tempo, “eliminam” Robert e Phillip da história do invento e começam a ganhar dinheiro no mercado de ações com as informações privilegiadas que obtêm. Mas a ação vai envolvendo mais pessoas, a linha do tempo é sucessivamente alterada, as viagens geram “duplos” dos personagens, a trama se complica e a aparente “cornucópia” se revela uma “caixa de Pandora”. Preocupado, Abe constrói escondido de Aaron uma máquina do tempo com o propósito de obter uma “salvaguarda”, para o caso de suas viagens desencadearem realidades indesejáveis. Nessa máquina failsafe, Abe finalmente viaja quatro dias ao passado, no intuito de prevenir toda a série de eventos desde o momento em que informa a Aaron suas descobertas sobre o invento do grupo. Mas Aaron já está ciente das intenções de Abe e, ambicioso, manobra para manter o controle sobre a situação. Os viajantes se duplicam mais do que originalmente deveriam, as múltiplas linhas do tempo vão se tornando cada vez mais complexas. Finalmente, os dois inventores rompem com a amizade. À medida em que a narrativa avança e as viagens no tempo se multiplicam, todo o roteiro de Primer vai se tornando mais e mais complexo – o que resumimos aqui deixa de fora diversos elementos e nuances narrativas. Muito difícil compreender bem a trama de Primer de uma só vez. O filme de Carruth convida o espectador a sucessivos visionamentos no sentido de decifrar seu enigma-enredo. Os fones de ouvido usados pelos personagens, um detalhe banal, revelam-se cruciais não só na diegese, mas na própria organização do discurso fílmico. Saberemos finalmente que a voz-over que narra ou antecipa eventos é, na verdade, uma gravação de Aaron. Graças às gravações que faz, o ambicioso Aaron consegue antecipar-se às manobras precavidas de Abe.


Escrito, dirigido e protagonizado por Shane Carruth, Primer lembra filmes memoráveis sobre viagens no tempo, como o La Jetté, de Chris Marker (1962), dado seu experimentalismo e engenhosidade no que diz respeito aos recursos de enunciação de um tema fantástico. Dentre todos os filmes mais experimentais ou criativos, Primer se destaca, principalmente, por sua filiação ao universo geeknorte-americano, aquele dos jovens empreendedores do Vale do Silício (Steve Jobs, Bill Gates) – e também dos “inventores de garagem”. Tal referência fica explícita nos diálogos, figurinos e cenários. Vale a pena lembrar que Shane Carruth graduou-se em Matemática e trabalha como engenheiro.

 


status de filme cult adquirido por Primer nos últimos anos parece ter influenciado até mesmo uma produção brasileira recente, O Homem do Futuro(2011), de Cláudio Torres. O Homem do Futuro remete não só a De Volta para o Futuro (Back to the Future, dir. Robert Zemeckis, 1985) e a O Efeito Borboleta(The Butterfly Effect, dir. Eric Bress e J. Mackye Gruber, 2004 ), mas também ao filme de Shane Carruth. Como de costume em filmes sobre paradoxo temporal, emPrimer as viagens no tempo duplicam os personagens – teremos o personagem do presente e o do futuro co-existindo no mesmo momento por um certo período. Como em De Volta para o Futuro, o viajante do tempo deve evitar o contato com seu duplo do passado. No brasileiro O Homem do Futuro, esse paradoxo parece menos catastrófico, haja vista que o personagem João/Zero, interpretado por Wagner Moura, não só é duplicado como triplicado, e em todas as ocasiões o viajante interpela seu duplo do tempo anterior. Na verdade, este é o objetivo central de João/Zero: avisar a si próprio sobre seu futuro. O motivo dessa iniciativa: uma desilusão amorosa. Em termos práticos, é essa paixão desenfreada o “combustível” da viagem no tempo em diversos filmes, como La Jetée (1962), de Chris Marker, Je t’Aime, Je t’Aime (1968), de Alain Resnais, e Em Algum Lugar do Passado (Somewhere in Time, dir. Jeannot Szwarc, 1980). Já em Primer, a motivação parece ser meramente financeira: Aaron e Abe querem simplesmente ganhar dinheiro. Em O Homem do Futuro, apenas uma “linha do tempo” alternativa evolui com um João/Zero ganancioso e egoísta - nas demais, o amor por Helena (Alinne Moraes) é a verdadeira razão da viagem no tempo. Mas logo o João/Zero bonzinho “assume as rédeas” desse futuro milionário (porém moralmente catastrófico), e tenta “consertá-lo” com mais uma viagem no tempo. Veremos, assim, que em mais esse ponto O Homem do Futuro parece inspirado em Primer: na figura do viajante do tempo motivado por alertar ou orientar seu duplo presente ou passado. No filme de Carruth, o personagem Aaron (interpretado pelo próprio diretor) na verdade interfere ativamente sobre a conduta de seu duplo do passado, bem como sobre outros personagens, isolando-se dos eventos bem menos do que deveria.

 


Primer
 apresenta um “visual retrô” configurado sobretudo pela fotografia e designde produção, mas de forma mais sutil que em O Homem do Futuro, de Cláudio Torres. Em ambos, o tempo presente ou a maior parte da aventura se localiza nos anos 1990, embora no filme brasileiro a estética dos anos 1980 pareça se sobrepor visualmente.


Rodado com negativo 16mm, processado em Super 16 e depois copiado (
blow-up) em 35mm, Primer apresenta uma textura da imagem evocativa do vídeo ou, ao menos, das bitolas menores. A câmera na mão, instável, bem como o trabalho de fotografia, em linhas gerais, lembram algo do telejornalismo. Com seu registro semi-documentário e suas imagens granuladas, especialmente em tomadas noturnas, Primer nos faz lembrar também do Dogma 95, especialmente de títulos como Os Idiotas (Idioterne, 1998) de Lars Von Trier, e Festa de Família (Festen, 1998), de Thomas Vinterberg. Mark Bould comenta (em Directory of World Cinema: American Independent, editado por John Berra, 2010, p. 194-5), sobre a fotografia, que Primer é dominado por verdes e amarelos “doentios”. O som ambiente e os diálogos pós-sincronizados, alguns digitalmente distorcidos, acentuam o clima de estranheza. Trata-se, segundo Bould, de um mundo muito estranho, no qual a lógica do capital teria se espalhado a todo e qualquer canto (2010, p. 195).

 


Bould sugere uma leitura marxista do filme de Carruth. Ainda segundo o autor, os personagens Aaron e Abe são alienados de sua própria criatividade, eles instrumentalizaram ao máximo seus próprios desejos e habilidades: tudo o que querem é ficar ricos – em outras palavras, inventar sua própria “galinha dos ovos de ouro”. Nessa alquimia pós-capitalista, a dupla transforma a viagem no tempo em apenas mais uma forma de labor – subordinando-se a rígidos cronogramas, negociatas que enredam os dois personagens cada vez mais profundamente na anexação do futuro promovida pelo capital. Bould segue observando que mesmo as horas-extras que Aaron e Abe produzem em suas próprias vidas, estendendo suas experiências subjetivas ao longo de horas a cada dia, traduzem-se em “tempo morto”, no qual ambos devem se desconectar ainda mais do mundo. Assim, os dois personagens estariam tão enredados no tecido do capitalismo tardio que eles só imaginam usar a fabulosa tecnologia da viagem no tempo para manter tudo – à exceção de suas contas bancárias – exatamente do jeito que sempre foi 
(Bould, 2010, p. 195).


Bould observa também que, diferente de trilogias como O Exterminador do Futuro(Terminator, 1984-2001) e De Volta para o Futuro (Back to the Future, 1985-90), Primer não pode ser facilmente reduzido à narrativa da cena-primordial edipiana, sendo mais comprometido com uma complexa desestabilização da temporalidade, duração, narrativa, memória e identidade. Nesse sentido, o filme de Carruth estaria mais próximo de fábulas européias modernas de viagem no tempo, tais como O Ano Passado em Marienbad (L`Année Dernière à Marienbad, 1961), La Jettée (1962) e Je T`aime, Je T`aime (1968) (Bould, 2010, p. 195). Ainda assim, conforme assinalado por Bould, Primer difere das fantasias de viagem no tempo da Nouvelle Vague na medida em que estas são primordialmente orientadas pelo olhar ao passado, concernentes à memória e aos dispositivos que asseguram a identidade burguesa. “Primer olha para o futuro, mas ao invés disso encontra um presente contraditório, complexo, dinâmico e já fora de controle” (Bould, 2010, p. 195).

 


Em 
Primer, o tema da viagem no tempo mais uma vez requer efeitos visuais modestos mas, em contrapartida, oferece um enredo intrigante. A estética do filme de Carruth, sua mise-en-scène, diálogos e trabalho de câmera, sugerem o que chamo tentativamente de “cinema de ficção científica realista”. No caso dePrimer, no entanto, o realismo ficaria mais a cargo da ancoragem no modelo visual da câmera indiscreta, pseudojornalística ou semidocumental, do que propriamente de uma estética baziniana, amparada na preservação da integridade do tempo e do espaço - em procedimentos como o plano-sequência e a profundidade de campo. Nesse sentido, Primer alinha-se na mesma fileira de outros filmes de ficção científica que recorrem à estética ou retórica (pseudo)documentária, como Alive in Joburg (2005) e Distrito 9 (District 9, 2009), de Neill Blomkamp, ou Why Cybraceros? (1997), de Alex Rivera, entre outros títulos. Segundo o verbete “Primer” na Wikipedia em inglês.(http://en.wikipedia.org/wiki/Primer_(film)#cite_note-story-prod-1)


Embora um dos elementos mais fantásticos da ficção científica seja central no filme, o objetivo de Carruth foi retratar uma descoberta científica de maneira mais realista, pé-no-chão [down-to-earth, no original]. Ele [Carruth] argumentou que muitas das mais importantes descobertas científicas da história ocorreram por acidente, em locais não mais glamourosos que a garagem de Aaron.


Sobre a inspiração de Primer, Shane Carruth comenta:

“It took about a year to write. I found myself reading a lot of books that had to do with discoveries. Whether it involved the history of the number zero or the invention of the transistor, two things stood out to me. First is that the discovery that turns out to be the most valuable is usually dismissed as a side-effect.

Second is that prototypes almost never include neon lights and chrome. I wanted to see a story play out that was more in line with the way real innovation takes place than I had seen on film before. I knew what I wanted to accomplish thematically well before the plot was devised. I was interested in how trust wears down between people when the stakes are raised and the complexity involved.” (Primer Official Website, Q&A: www.primermovie.com/story.html#qa)


As potenciais tragédias advindas do paradoxo temporal já foram tratadas em contos famosos como “Um Som de Trovão” (“A Sound of Thunder”, 1952), de Ray Bradburry, ou os contos curtíssimos “The End” e “The Experiment”, de Fredrik Brown. “The End” foi adaptado para o cinema por Elie Polit em O Fim (1972), realizado na Escola de Comunicações e Artes da USP.


The Experiment” conta com ao menos uma adaptação em vídeo no Brasil, por ocasião da oficina que ministrei na companhia do ator e produtor Armando Fernandes no CCBEU (Centro Cutural Brasil-Estados Unidos) de Campinas, em 2004. Dirigido por Clarice Pereira e Marília Fattori, O Experimento (2004, disponível em http://www.youtube.com/watch?v=qsQb0VG3XLg) é protagonizado por um “cientista-mirim” que apresenta seu protótipo de máquina do tempo (uma cafeteira velha que adaptamos) à “comunidade científica”. O cientista procede a algumas demonstrações da máquina, enviando uma bola de tênis ao passado e ao futuro, num experimento absolutamente controlado. Mas, ao ser indagado por um dos espectadores da demonstração, o jovem cientista hesita e, assim, gera um paradoxo temporal indesejado. A catástrofe é iminente. As viagens da bolinha de tênis em O Experimento só foram possíveis graças a um estratagema conhecido desde os primeiros tempos do cinema: a interrupção e restabelecimento da tomada num mesmo enquadramento, com a supressão ou acréscimo de um objeto de cena nesse intervalo em que a câmera está desligada. Algo simples, mas “mágico” e extremamente eficiente. Por sua vez, em seus vários momentos emjump-cutPrimer parece comentar por meio de sua montagem/edição sua própria temática (a viagem no tempo), reverenciando sutilmente esse truque tão longevo na história do cinema, cuja “invenção” se atribui popularmente ao “mágico-cineasta” Georges Méliès. A cena do lanche que Abe prepara (um muffin e um copo de leite), descrita em jump cut - e evocativa das modestas viagens no tempo da bolinha de tênis em O Experimento -, seria exemplo singelo de referência à magia da trucagem à la Méliès, bem como ao stop-motion enquanto efeito básico em narrativas audiovisuais sobre viagem no tempo.


Difícil compreender exatamente a que veio o filme de Carruth numa única visada. Apaixonante ou odioso, o fato é que Primer ratifica nossa idéia de que um cinema de ficção científica intelectualmente instigante, menos baseado em efeitos visuais e mais amparado em especulações desafiadoras, é mais do que possível e viável – já existe há tempos na história do cinema e hoje, talvez mais do que nunca, se apresente enquanto subgênero relevante no contexto dos estudos de cinema.



Alfredo Suppia