23/01/2013 Número de leitores: 936

Sonata a Kreutzer – uma história para o século XIX

Redação Cronópios Ver Perfil

Os atores André Capuano e Ernani Sanchez revivem a história de Pózdnichev, um homem que assassinou a esposa. Assim como Tolstói foi impulsionado pela Sonata a Kreutzer, de Beethoven, para escrever seu romance, as cenas também serão provocadas pela sonoridade desta sonata que se tornou uma das mais célebres do compositor alemão. Com desenho sonoro de Livio Tragtenberg, a música não será apenas “pano de fundo”, mas também uma das condutoras do espetáculo.

Um homem conta como assassinou sua esposa. Quatro discos de 78rpm contendo A Sonata a Kreutzer, de Beethoven, tocados numa velha vitrola à corda, provocam suas memórias. A música e os ruídos misturam pensamentos, emoções, acontecimentos, ilusões e lembranças. Com esse mote, o espetáculo SONATA A KREUTZER – UMA HISTÓRIA PARA O SÉCULO XIX estreia dia 18 de janeiro, sexta-feira, às 20h30, no Auditório do SESC Pinheiros. Com dramaturgia de Cássio Pires, que reconstrói o clássico de Lev Tolstói, e direção de Marcello Airoldi, a montagem conta no elenco com os atores André Capuano e Ernani Sanchez.

Uma das obras mais impactantes e controversas de Tolstói, Sonata a Kreutzer mesmo antes de ser publicada em 1891, provocou escândalo dentro e fora da Rússia, levando, mais tarde, à sua proibição nos Estados Unidos. Sem dúvida, os sentimentos exaltados que esta novela evoca encontram paralelo na famosa peça de Beethoven conhecida como Sonata a Kreutzer, composta em 1803, que não apenas inspirou o título do livro como constitui um de seus motivos centrais.

Para o ator André Capuano, idealizador do projeto, um dos principais estímulos para a criação do espetáculo é questionar a instituição do casamento no mundo contemporâneo a partir de uma narrativa do século XIX. “Em que medida a relação entre homens e mulheres se transformou? O retorno à história é certamente uma forma de revigorar esse debate”, explica ele.


O abismo entre homens e mulheres

Para o autor Cássio Pires é impossível não ser arrebatado pela narrativa que Lev Tolstói escreveu sobre o marido que assassinou a esposa. “É uma novela perturbadora. Não estamos apenas diante de um assassino. Via de regra, um assassino nega publicamente seu crime. Mas aqui estamos diante de um assassino que não esconde por um segundo sequer o seu crime. Ao contrário, ele nos conta com riqueza de detalhes todos os passos de sua vida, desde sua juventude até o momento em que vai a julgamento. Outro aspecto importante da história é que ela diz respeito a um momento em que, na Rússia, começava-se a falar em igualdade de direitos entre homens e mulheres, uma ideia então nova. A história ensinou o homem a encarar a mulher como um objeto, quando o mundo se transforma e passa a exigir que a mulher seja tomada como um sujeito, isso parece ter um caráter fortemente desestabilizador para Pozdnichev, o que o leva a desenvolver um conjunto de ideias sobre o mundo, ideias que se chocam com os parâmetros éticos que normalmente são tomados como necessários para a construção de ideais civilizatórios”, conta ele.

Sem utilizar uma única frase que não existe na novela de Tolstói, Cássio transformou 90 páginas de um texto em prosa em 17 páginas de um texto poético para teatro. “Tolstoi tem uma escrita direta, seus personagens não se expressam por meias palavras, mas por enunciados contundentes. Sem perder a linha narrativa, busquei transformar o estilo da prosa de Tolstói em uma espécie de poesia cênica”, fala o dramaturgo.

Já o diretor Marcello Airoldi afirma que A Sonata a Kreutzer, de Lev Tolstói, é uma obra-prima sobre a incompreensão mútua entre os diferentes sexos. “Nela, o autor investiga de forma aguda o desequilíbrio das relações entre homens e mulheres e escancara o abismo existente entre eles. O andamento vertiginoso do romance arrasta o leitor atual, fazendo-o passar por diversas emoções, aproximando-o espantosamente do que às vezes parece distante e ultrapassado: o machismo, a tentativa de dominação das mulheres por parte dos homens e o massacre do feminino pelo masculino. O espectador da sonata acompanha o ‘mau jeito’ com que Pózdnichev lida com as paixões, sua busca desenfreada por controle, seu caminho inevitável rumo à tragédia e sua tentativa de salvação através da moral”, explica o diretor.

No que diz respeito à encenação, ela parte da ideia de revelar mecanismos. Pozdinichev é um personagem que não esconde nenhum de seus passos. De forma similar, uma vitrola é um objeto mecânico, não eletrônico, em que tudo o que a faz funcionar esta às vistas de seu usuário. A percepção desta semelhança estimula a criação de um espetáculo em que o jogo cênico não esconde os procedimentos da criação teatral.

 

Uma vitrola em Buenos Aires

O ator André Capuano, em uma viagem a Buenos Aires, Argentina, encontrou uma vitrola em um antiquário e a comprou, concebendo na compra, sem saber, o nascimento de um espetáculo. Quando chegou ao Brasil com a novidade, Capuano ganhou então uma coleção de discos de 78rpm para poder usar sua vitrola. Entre os discos, encontrou A Sonata a Kreutzer.

Quando escutei a música de Beethoven fiquei bem interessado na história e li o texto do Tolstói e fui imaginando montar um espetáculo, pois já tinha a ideia de montar algo que o tema fosse a mulher. Então convidei alguns amigos, todos homens, e começamos a conversar”, conta o ator.

 

Narrativa sonora

O que quer de mim esta música?”, indagava Tolstói, em 1888, ao se relacionar com a sonata de Beethoven (composta 85 anos antes). Compondo com duas obras-primas da música e da literatura, criando teatro a partir delas, utilizando elementos épicos, poéticos e cômicos, SONATA A KREUTZER – UMA HISTÓRIA PARA O SÉCULO XIX proporciona um espaço de criação e reflexão, pois o personagem criado por Tolstói busca desesperadamente a explicação para os seus atos e o seu crime.

Para Livio Tragtenberg, que assina o desenho sonoro da montagem, a obra de Tolstói permite diferentes abordagens no âmbito da narrativa sonora. Desde a evidente referência à obra de Beethoven (Sonata a Kreutzer para piano e violino) até novas ondas de referências sonoras advindas do fluxo do próprio texto.

Essa riqueza permite re-configurar o signo Beethoven em novas variações que incorporam um tratamento mais material, incorporando o uso de aparatos como uma vitrola mecânica do início do século 20 e discos de 78 rotações por minuto, que contribuem com um conteúdo subjetivo e memorial que se projeta na mente do espectador. A ambientação sonora irá construir pontes entre esses universos de referências originais do texto e a realidade dos dias de hoje”, adianta o músico.

Outra curiosidade da montagem é o uso de um iphone pendurado em meio a um cenário de objetos do século XIX. Trata-se de uma resposta da encenação para o texto de Pires, que possui diversos “intermezzos” (intervalos que proporcionam quebras no desenvolvimento da fábula) e que mostram a dispersão do pensamento de Pózdnichev. Os atores falam e gravam essas frases nos aparelhos telefônicos e em certo momento da montagem essas frases são reproduzidas, todas ao mesmo tempo, formando um emaranhado dos pensamentos do personagem principal.

 

Sobre Marcello Airoldi

Ator, autor, diretor e professor de teatro. É formado pela Escola de Arte Dramática da USP, e estudou teatro físico, mímica e interpretação no Birkbeck College – University of London e no Cit Lit of London. Fez parte do grupo Ventoforte durante cinco anos, onde dirigiu e atuou em diversos espetáculos. Marcello em 2006 , funda o núcleo de pesquisas do ator Teatro de Perto, onde escreve , dirige e atua nos monólogos Café com Torradas -texto de Gero Camilo, e Um Segundo e Meio -sob direção de Antonio Januzelli. Ambos os espetáculos, após suas temporadas paulistas (estrearam respectivamente em 2006 e 2008), entram em repertório e foram contemplados com o Prêmio Funarte Myriam Muniz de Circulação, realizando apresentações por diversas cidades do Brasil. Entre 1997 e 2006, Airoldi também dirigiu o Departamento de Cultura da cidade de Barueri coordenando inúmeros projetos culturais. Na TV participou de Som e Fúria, de Fernando Meirelles; do programa Por toda a minha vida - Adoniran Barbosa; da novelaBelíssima, da novela Viver a Vida, de Manoel Carlos, pelo qual recebe o Prêmio de Melhor Ator Coadjuvante de Televisão de 2010 da Revista Quem; da série Divã, ao lado de Lilia Cabral e atualmente esta no ar na novela Salve Jorge. No cinema participou de Linha de Passe, filme de Walter Salles e deQuanto dura o amor?, de Roberto Moreira. É um dos protagonistas de Onde está a felicidade?, de Carlos Alberto Riccelli e Bruna Lombardi, onde recebeu prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de Cinema de Los Angeles. Seus mais recentes trabalhos nos palcos foram Os Penetras, de Mike Leigh ePessoas Absurdas, de Alan Ayckbourn.


Sobre Cássio Pires

Mestre em Artes Cênicas e Bacharel em Letras pela USP, Cássio Pires é dramaturgo, diretor e professor universitário. Escreveu, entre outras, IfigêniaPeça de Elevador, encenada pela Cia de Elevador de Teatro Panorâmico; Os Amigos dos Amigos, do Coletivo Teatral Filme Bê; Perímetro, encenada em festivais realizados em Milão, Florença e Roma; Mal Necessário, encenada na II Mostra de Dramaturgia Contemporânea do SESI; Mais Um, encenado pela Cia dos Dramaturgos; A Chuva Pasmada, adaptação de Mia Couto encenada pelo Matula Teatro, de Campinas e A Carne Exausta. Por seus trabalhos, recebeu diversos prêmios, entre os quais o Prêmio Plínio Marcos de Dramaturgia e o do Concurso Nacional de Literatura de Belo Horizonte.

 

 

Redação Cronópios