31/01/2013 Número de leitores: 614

Cadeira Sing-Sing

Cláudio Feldman Ver Perfil



       “Bad Face” Wilson infiltrou-se na Embaixada do Brasil e ia depená-la, quando deparou com o próprio cônsul, vestido de Carmem Miranda, que dançava para seu guarda-costas.
       Surpreso, o bandido quis esgueirar-se, mas derrubou uma estatueta barroca e foi percebido.
       Antes que o capanga atirasse, Wilson despachou duas balas certeiras contra ambos.
       Como o brutamontes ainda se queixasse, gastou mais um tiro.
       Assustado com a própria violência, Bad Face não teve pulso para extorquir as gavetas.

2

       Meses após, Wilson foi apanhado pelo F.B.I., quando fotografava um cachorrinho, num posto de gasolina.
       Condenado à morte, transpôs os enormes portões de ferro galvanizado de Sing-Sing, que logo se fecharam, solidamente, como as mãos de um avarento.
       Dali, Wilson só sairia após breve pouso de nádegas na cadeira elétrica.
       O rio Hudson, das redondezas, era o pseudônimo do Aqueronte.

 


3

       Bad Face, detento nº 12.627, foi levado à cela individual, de pedra, onde encontrou uma cama de ferro com colchão de palha, travesseiro e colcha, luz elétrica, uma caneca de folha e um balde privada.
       Só.
       Como Jó.
       Jamais os raios de sol tinham penetrado naquelas galerias, pois umas estavam de costas para as outras: a reclusão, para a existência de morto-vivo, era completa.


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       Viciado em comic books, que lhe despertavam risos e comoções, Wilson solicitou alguns, para roer o tédio.
       Aí veio a proposta sinistra: se ele aceitasse o pesado ofício de transportar carvão, combustível da usina elétrica que fornecia volts à cadeira letal, ganharia pilhas de gibis.
       Bad Face, mesmo indiretamente, ajudou a fazer mais vítimas.



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       Wilson sempre escrevia para a avó, numa letra garranchosa, e era correspondido com presentes, respostas e visitas.
       Numa carta, manchada de carvão, explicou: “...Ontem passaram um filme sobre campo de concentração. A nossa vida, em Sing-Sing, é bem melhor, mas falta uma coisa que lá sobra: a esperança...”



6

       No Brasil, o caso do finado embaixador tivera manchetes furiosas, mas o fato estava a um passo do esquecimento.
       Com o anúncio da data de execução de Bad Face, os jornais voltaram a acender o assunto.
       O diretor do Jornal Brasileiro chamou-me à sua sala tabagista e disse, espalhafatoso como sempre:
       _ Sandoval, você é um sortudo! Nosso correspondente estrangeiro sofreu um infarto e você vai para os States com todas as despesas pagas!
       _ Por que, seu Araújo?! (perguntei, admirado) A Elizabeth Taylor vai casar de novo?!
       _ Não, sua besta, você é meu quebra-galho para cobrir a morte do Bad Face Wilson. Mas nem sonhe em escrever que o cônsul era um engole-cobra ou o Presidente manda boicotar o jornal (frisou o chefe, acendendo um charuto).
       _ Tudo bem, seu Araújo, mas quando é a viagem? (indaguei).
       _ Amanhã, ao meio-dia , no Galeão. E não se esqueça: o leitor espera, nas notícias, uma justiça retumbante sobre o bastardo que vitimou o nosso cônsul.
       E emergindo da fumaça:
       _ Vamos triplicar a tiragem!



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       A execução estava marcada para as 11 da noite, mas a imprensa (e testemunhas) precisavam chegar antes das 9.
       Éramos uns 50, inclusive com jornalistas brasileiros de O Planeta ( o maior concorrente de meu periódico), do Correio de São Paulo, da Folha Gaúcha.
       Durante as duas horas que antecederam a eletrocussão, nós, da terra do “homem cordial”, nos entupimos de relatos de execuções anteriores, onde foram discutidos os méritos ou falhas da forca, dos venenos, da cadeira elétrica e do gás mortal.
       Percebi, de esguelha, que Eleazar Corrêa, de “O Planeta”, estava mais deslocado que bispo em teatro de revista.
       Na sala de espera havia bandejas com uísque e gelo.
       Um repórter do New York Times convidou-me a acompanhá-lo nos drinques.
       _ Eu não bebo (disse-lhe no idioma do Pato Donald).
       _ É preciso (reforçou ele). Ou a cena se torna insuportável. Quase todos se alcoolizam um pouco, para anestesiar a forte impressão. Escolha: beba ou vomite!
       _ Não é morbidez minha, mas responsabilidade profissional (expliquei-lhe).
Não posso perder o mínimo detalhe, por isto ficarei sóbrio.
       _ Como quiser (falou o repórter). Mas o amigo não sabe o pior: é o cheiro.
       _ Que cheiro? (perguntei, curioso).
       O meu interlocutor não conseguiu responder, pois apareceu um guarda e mandou que perfilássemos.
       Ele revistou os varões, uma policial as mulheres, à cata da máquinas fotográficas, inclusive as minúsculas: o diretor não admitia retratos.



8

       Em verdadeira procissão, dirigimo-nos para a câmara da morte.
       Eleazar, de O Planeta, me cochichou, pálido e trêmulo:
       _ Acho que meu coração não aguenta. A emoção está mais forte do que final de Fla x Flu. Conte-me os detalhes, quando sair, pela Virgem Aparecida!
       _ Não posso (também murmurei). Nossos jornais são adversários entranhados. Você vai ter que suportar!
       _ Então, ao inferno com a reportagem! (grunhiu).
       E solicitou ao guarda uma retirada estratégica.
       “Que idiota este Eleazar Corrêa” (pensei). “Vai acabar em jornal de bairro”.
       Na sala de execução, havia várias cadeiras, mas a que mais se destacava era a elétrica.
       Negra, maciça, enfeitada de correias, tinha uma presença poderosa.
       Os espectadores fitavam, em silêncio, o móvel fatídico, esquecidos de que ali próximo, bem mais imponente, corria o rio Hudson.



9

       Dali a momentos, ressoaram, no corredor, os passos vagarosos do condenado nº 12.627 e sua escolta (um sacerdote insatisfeito, guardas de uniformes reluzentes e a Morte).
       À mudez da expectativa somou-se a profunda angústia trágica ante a inevitabilidade do fim.
       Bad Face Wilson, quando penetrou no recinto povoado de olhos, assumiu um ar de insolente displicência.
       Driblando a comitiva, dirigiu-se à Cadeira.
       Num ato de sangue-frio, nela acomodou-se.
       Acenou com a destra para um dos guardas, dizendo:
       _ Hello, Ants In The Pants !
       O destinatário brecou um sorriso e os assistentes, rápidos, atiraram-se sobre Wilson, afivelando as correias e ajustando o terrível capacete.
       Bad Face falou, então, em tom debochado:
       _ Espero que o Inferno seja melhor do que esta filial!
       E, em seguida, no limiar da Eternidade:
       _ Vocês são todos uns escrotos incompetentes! (Apontou para a perna esquerda). Esta correia está pessimamente afivelada!
       Dois assistentes abaixaram-se para examinar a falha e perceberam que tudo não passara de uma troça macabra para perturbar o ritual estabelecido.
       Um deles ficou entre o riso e a cólera, pela brincadeira, mas o outro, de rocha, sinalizou ao controlador da corrente.


10


       Quando a força elétrica atingiu o corpo de Wilson, este saltou convulsivamente entre as correias, como um grande peixe na rede.
       Nós, diante do espetáculo, demos um recuo em nossas cadeiras não-elétricas, como se estivéssemos fugindo, instintivamente, da ceifeira de vidas.
       A cada descarga dançarina em Bad Face, nosso reflexo, animal, era uma retração.
       O mísero sofria no embate entre a corrente e sua defesa, causando-lhe torrentes de suor.
       O capacete - pior do que uma coroa de espinhos - devia estar tocando os seus miolos.
       Uma senhora do Exército da Salvação, convidada, gritou, antes do desmaio:
       _ Parem de cozinhar o homem!
       O ato derradeiro da fornalha elétrica foi o cheiro - o terrível odor citado pelo repórter do New York Times - que penetrou em nossas narinas, nauseante, como num repasto de canibais.



11

       Em menos de 5 minutos (que pareceram 100), Wilson foi declarado morto. 
       Para ele, a face da Eternidade, para os repórteres a urgência das manchetes: quase todos correram para telefones (e mais tarde a teletipos e telégrafos), que soletraram os detalhes da notícia.
       Eu, traumatizado, fiquei por ali mesmo.
       Vi os guardas desfivelarem o corpo flácido, que foi colocado numa ambulância.
       Pelas partes expostas do cadáver, percebi que a carne, intumescida, era de um vermelhão insolado.



12

       Fora da casa da morte, encontrei, no pátio chuvisquento, pessoas que vomitavam, passos cambaleantes de uísque e o meu concorrente, de O Planeta, que parecia um cão recém-espancado.
       Após o martírio de Bad Face Wilson, onde encontrar a tal “justiça retumbante” a que se referira meu patrão ?
       Quem sabe se, juntos, eu e meu conterrâneo, poderíamos percebê-la.
       Então, livre de embaraços, me dirigi a Eleazar Corrêa. 

 

 

Cláudio Feldman