11/03/2013 Número de leitores: 941

Uma narrativa sobre o potencial transformador da relação humana

Gustavo Mesquita Ver Perfil

       As fronteiras entre ficção e realidade têm sido repensadas por uma gama variada de intelectuais desde, no mínimo, o começo do século XX, em que pesem reflexões dos escritores, historiadores, filósofos, cineastas e outros formadores de opinião cujas intenções foram (e são) desvendar as facetas e mistérios da vida do espírito a partir de diferentes olhares sobre o tema.
       
Alexandre Staut, em Um lugar para se perder, narra uma história com intenção semelhante à dos intelectuais preocupados com a questão ficcional em termos literários. Sua narrativa traz o encontro de dois homens num banco de praça de uma cidade qualquer do interior brasileiro, ocorrido ao anoitecer de mais um dia comum na vida de um deles. À medida que a história se move, acompanhamos não os assuntos enfadonhos suscitados pela conversa entre duas pessoas possivelmente chumbadas pela mesmice, tão característica do interior do país, mas um intrigante embate de valores e experiências pessoais contado com tamanha verossimilhança que o leitor pode ficar espantado logo no início da trama. Contudo, um aviso poderá ajudar o leitor a entender melhor a história que estamos discutindo: trata-se do encontro de dois homens desassemelhados pelo universo no qual sempre viveram, ou seja, dois homens diferentes em relação, sobretudo, ao entendimento que têm sobre o sentido da vida.
       
Partindo da descrição das características íntimas das duas personagens, a narrativa faz um interessante jogo de espelhos entre a experiência de um homem marcada pela rotina do trabalho, sedentariedade e isolamento – vale dizer, um homem adepto da ideia de “raiz fincada num lugar” – e a experiência mundana de um errante despreocupado com o passar do tempo, isto é, um homem despreocupado com o chegar da morte! Tendo o banco da praça como palco dos acontecimentos narrativos, o texto faz uma reflexão, mediante o jogo de espelhos entre esses dois homens, sobre as venturas e desventuras do tipo que ensejam a autocompreensão ao longo da caminhada da vida, como se um fosse imagem invertida do espelho do outro, e vice-versa. Acontece que esse jogo de espelhos logo se transfigura na imagem multifacetada de um caleidoscópio. Explico: a segunda personagem, ao surgir, introduz vários elementos psicológicos decorrentes da sua experiência errática pelo mundo no diálogo com o homem comum da cidade, de modo que passa a provocá-lo e a balançá-lo com o relato de suas experiências tão diversas daquelas a que o outro está, afinal, habituado.
       
Interessante nesse diálogo é a vontade inarredável que o homem comum sente de ouvir as histórias do errante após aceitar a conversa com esse “estranho”. Através do diálogo, podemos notar como a experiência do errante balança e transforma, pouco a pouco, a concepção de mundo do outro. Esse outro é, na verdade, um homem comum que nada de novo tem a oferecer ao seu interlocutor inquieto. Trata-se de um ser com forte comportamento passivo e seguidor das normas e padrões de convívio social, indisposto a mudar as suas atitudes perante a vida. O ponto alto do comportamento passivo – ditado pela moralidade e costumes locais – de um homem que recusa o papel de sujeito por ser algo temerário, encontra-se no desenrolar da narrativa, principalmente nas páginas finais. O que Staut não dá boas pistas, entretanto, é o motivo de tanta recusa por parte do homem comum, negando o seu novo papel de sujeito ou de ser político, donde finalmente poder-se-ia escolher o caminho ideal para si mesmo, e não continuar a seguir um estilo de vida pronto e acabado, transmitido pela tradição.
       
No entanto, é possível notar os primeiros sinais de mudança do homem comum, de um comportamento passivo a um comportamento ativo, na medida em que ele se desperta do oceano de lembranças do passado no qual sempre viveu. O homem, felizmente, começa a questionar a sua trajetória e põe-se a perguntar pelas vias que conduzem ao futuro. E, sendo assim, o leitor poderá saborear as delícias (como disse, venturas e desventuras) de uma relação humana que inspira a transformação subjetiva e a mudança comportamental.
       
Por onde se vê que o núcleo do enredo é a questão da identidade (quem sou eu?), vista pelo autor como um processo subjetivo que, por comportar vários e muitas vezes contraditórios aspectos, é relacionado justamente a questão do outro e sua presença inquietante e transformadora. Apesar de o homem comum negar uma relação mais próxima com o errante, ele, mesmo assim, despertou sua consciência para as novidades que aquele outro lhe apresentara durante horas de diálogo noite adentro.
       
Todos os pontos discutidos até aqui são tratados de maneira implícita pelo autor, e não – o que tem suas vantagens – de maneira analítica, como num ensaio de filosofia. Eis aí uma vantagem da literatura ficcional: o texto que Staut oferece ao leitor é rico porque pode ser lido de diferentes ângulos, do social (como embate de valores), do cultural (como relato sobre o cotidiano de uma comunidade) e do psicológico, inclusive por permitir a interpretação de que o errante, apesar de sua presença marcante e transformadora na narrativa, possa nem existir como pessoa propriamente dita, mas como o alter ego de um homem cansado da mesmice de sua vida, que precisa imaginar, em determinado momento crítico de sua subjetivação, uma figura a mais desejável possível para a sublimação de seus instintos reais (mundanos), ou melhor, um antagonista imaginário com longa e surpreendente experiência na “arte de viver”.
       
Um lugar para se perder é um livro à procura de leitores com mente aberta para a decifração da trama relacionada à transformação e à mudança de comportamento de pessoas com forte vínculo com a tradição. Seja pela narrativa envolvente e verossímil (crítica da tendência de as pessoas se acomodarem em modelos preestabelecidos e encarados como “verdades inabaláveis”), seja pelo sabor dos acontecimentos que se desenrolam surpreendente e intrigante ao longo da narrativa, eis aí um belo texto, o qual tem o mérito de já garantir o status de legitimidade literária à obra de seu autor.



Nota

É preciso ressaltar que, a meu ver, a capa do livro não faz jus a sua qualidade literária. A escolha do azul celeste para colori-la e o desenho de uma maria-fumaça, apenas com contornos singelos, tornaram a aparência do livro algo infantilizado, o que não é o caso do conto que temos em mãos. Finalmente nada de infantil tem essa história de contrários que se relacionam e discutem, de forma aguerrida, os vários significados da vida.



STAUT, Alexandre. Um lugar para se perder
São Paulo: Dobra Editorial, 2012. 161 p.

 

Gustavo Mesquita