30/04/2014 Número de leitores: 885

Ficção Científica e Poética de Artur Matuck

Redação Cronópios Ver Perfil

Coleção Stelo Binara, Autor: Artur Matuck; Editora Escuta, São Paulo, 2014; 72 páginas por volume; apoio institucional PROAC 2012. Primeiro Volume: Kadmonvort: Habitante do Terceiro Planeta; Segundo Volume: Ataris Vort no Planeta Megga: Jornada para Alpha Centauri; Terceiro Volume: Iompostioma: Eksperimento de Criogenia.

Programação Lançamento Coleção Stelo Binara 


São Paulo, 22 de maio
19h-20h palestra e debate, 20h-21h, autógrafos
Livraria Cultura, Av. Paulista, 2073
Bela Vista , São Paulo, SP
(11) 3170-4033


Salvador, 30 de maio
18h-20h palestra e debate, 20h-21h, autógrafos
Livraria Cultura, Av. Tancredo Neves 2915
Caminho das Árvores, Salvador, Bahia(71) 3505-9050


Ficção Científica e Poética de Artur Matuck

O artista e professor da USP Artur Matuck lança em 2014 uma série literária que reúne décadas de trabalho ficcional em três volumes, a Coleção Stelo Binara. Um raro trabalho de ficção científica e poética.
 
O artista e professor da USP Artur Matuck lança em 2014 uma série literária que reúne décadas de trabalho ficcional em três volumes, a Coleção Stelo Binara. Chegou assim a um raro trabalho de ficção científica, mas também poética, política e interlinguística, desafiando gêneros estabelecidos e propondo novos rumos para a criação literária contemporânea.


As narrativas têm como cenário espaços multidimensionais, a maioria envolvendo o planeta Megga, civilização com avançada ciência e tecnologia. Os textos relatam as experiências de protagonistas alienígenas ou humanos vivendo em sociedades tecnocratas e ultrarracionais descritas através de uma linguagem em constante reinvenção.

Situações limites, prognosticadas pela ciência, a exemplo de experimentos em humanos, técnicas de invasão cerebral, além de hibernação criogênica em estado consciente, são potencializadas e atualizadas, trazendo um envolvimento conceitual e poético com aspectos éticos centrais da cultura atual e do futuro imediato.

A série percorre um caminho inverso ao frequente no mercado, em que livros tornam-se filmes. No caso de “Stelo Binara”, várias performances e videoartes do artista, exibidas inclusive nos Estados Unidos ou em Bienais, como a de São Paulo em 1983, agora são apresentadas como literatura.

Os três livros são ilustrados por fotografias produzidas pela artista Eunice Maria da Silva, a partir de imagens de vídeo refletidas em um espelho flexível. Desse modo, as imagens televisivas transformam-se em formas elásticas, criando sensações fluidas e liquefeitas cirando um impacto estético.


Intercâmbio de línguas

Esta coleção deve chamar a atenção particularmente de um público interessado em uma tradição literária de inovações e experimentações com as línguas, tratando de resistências e formações identitárias através das palavras.

A criação intelinguística tem função essencial na obra, que se utiliza, além do português, do esperanto, sânscrito, hebráico e náuatle, antigo idioma da península de Yucatán, no México.

Títulos e frases do esperanto vão gradualmente impregnando as narrativas em português. Para o autor, este idioma artificial possui um fascinante poder evocatório. “Sua potência de conjuração ativa a sensação de um espaço-tempo futuro em processo de ser vislumbrado e recriado”, explica Matuck.

Para ele, as interações entre os sentidos, as formas gráficas e as sonoras, especialmente nos neologismos, são parte integrante deste processo experimental interlinguístico, remetendo-nos às recriações de palavras operadas nas literaturas de Guimarães Rosa e James Joyce.

O escritor e filósofo de origem tcheca Vilém Flusser é especialmente lembrado pelo professor da USP como teórico que também trabalhou com processos interlinguísticos. O filósofo, que falava tcheco, alemão, inglês, francês e português, considerava cada língua como um instrumento diferenciado para a eclosão do pensamento, e umas mais adequadas que outras para expressar determinado conceito.

O processo de criação de Matuck incluiu fortemente a intuição e a criatividade. Tanto que, para finalizar o último volume, foram utilizadas técnicas de retrocognição, pelas quais “a consciência suspende sua conexão com o espaço-tempo presente, para emergir em mundos reais mas ainda inacessíveis à consciência”, segundo o autor. Dessa forma, o poema “Aquaverso” descreve sua imersão imaginativa por continentes das luas geladas de planetas muito distantes da Terra.


A Alterciência no horizonte do possível (texto das contracapas)

Estes textos desempenham uma função crítico-poética em relação à cultura contemporânea, propondo uma discussão filosófica sobre os rumos científicos e tecnológicos e suas prováveis consequências socioculturais. Situações limites previsíveis pelo avanço da ciência são imaginadas, conduzindo os personagens e os leitores a questionarem aspectos éticos centrais da cultura do presente e do futuro imediato.


As narrativas descrevem cenários previsíveis, resultantes de uma racionalidade extremada, processos mensomekânicos de intensidade, eksperimentos científicos consagrados à crueldade e à morte. A denúncia desta pseudociência cria as condições para que a Alterciência surja, ainda neste século, no horizonte do possível.

A Alterciência destina-se a iluminar a consciência humana para que novos projetos sejam concebidos e construídos, direcionados à vivificação do homem, à reconstrução de sua identidade biológica e à regeneração planetária.

A criação literária utilizou-se de processos experimentais, interlinguísticos e lúdicos, absorvendo interações lexicais, vocálicas e sonoras, registrando conteúdos da mente intuitiva e imaginativa de maneira criativa e inusitada. Por esta razão, a ficção científica que aqui se apresenta é também poética e intuicional. Ela busca alcançar o caráter mítico da ciência, impulsionando a mente humana em direção ao micro, ao macrocosmo e também ao intangível.

Assim como a ciência absorve a terminologia literária para designar conceitos, também a ficção pode reter a terminologia científica e redimensioná-la. Este processo osmótico revela que a linguagem desempenha um papel fundamental em ambos os campos do conhecimento.

Desta forma, a escritura de ficção, projetada para o possível imaginal, acarreta uma transformação linguística e requer uma pesquisa expressiva, literária, visual e inclusive epistemológica. Encontramo-nos, portanto, diante de uma aventura inédita da linguagem e do pensamento.

Por outro lado, a experiência do autor, de imersão profunda no mensoverso da ciência tecnocrática, conduziu-o a imaginar que os relatos que descreveu tenham sido vivenciados e experienciados por ele numa alterdimensão. Seus comentários autopoéticos desvelam os dilemas de um autor confrontando seus processos psicomentais no exercício da imaginação literária e da ficção crítica da ciência.


Primeiro Volume: Kadmonvort:

Habitante do Terceiro Planeta


O livro introdutório, formado por textos independentes, serve como um longo prefácio para a coleção. A série começa com o poema Kadmonvort, uma celebração do poder esotérico do ritual, do elemento fogo e da língua estrangeira.

Em Alpha Persona, apresentam-se reflexões sobre o surgimento da consciência individual em um espaço planetário e um questionamento sobre os efeitos que uma viagem espacial causaria à linguagem. O poema Ritual de Transmutação trasncreve também uma experiência de retrocognição, na qual o autor rememora um ancião em sua biblioteca buscando preservar o conhecimento acumulado para sua próxima existência.

Terra Emergida, longo poema em prosa sobre experiências inter-espécies na península de Yucatán, utiliza palavras em náuatle, antiga língua local. O livro termina com Colapso Solar, que narra a paisagem subjetiva de uma astrofisicista despertada e tocada pelo anúncio da iminente morte do Sol.


Segundo Volume: Ataris Vort no Planeta Megga: Jornada para Alpha Centauri


Este livro mergulha na experimentação científica do fictício planeta Megga. O leitor conhecerá os experimentos mensomekânicos que são realizados em pacientes humanos, bem como a energia Psi-Om, forma última de resistência psíquica à ciência tecnocrática que controla a sociedade meggânica.

Distrado relata uma breve permanência de um alienígena na Terra. A narrativa alterna-se entre as expressões de sua vontade individual, tentando aproximar-se e estabelecer contato com um ser humano e os sinais emitidos por uma entidade que tem o poder de invadir sua mente.

No texto final, Ataris Vort no Planeta Megga, o personagem, a partir de seu laboratório, estabelece contato com a estrela binária de Alpha Centauri e assim adquire o poder de conhecer sua própria polaridade interna e aumentar sua consciência. Sua jornada iniciática revela o poder da regeneração dialetal.


Terceiro Volume: Iompostioma:
Eksperimento de Criogenia



Em Iompostioma - Eksperimento de Criogenia, questões decorrentes da engenharia genética, da criogenia, das próteses, das mutações desafiam a identidade biológica do ser humano e os limites de sua resistência, de sua linguagem, de sua sexualidade e procriação.


A expressao Iompostioma, que significa "lentamente" em esperanto, conduz o projeto narrativo, focado na questão central da criogenia, o congelamento do organismo, levando à interrupção dos processos vitais de Tavar, o personagem, e Ravat, seu duplo.

Preservado pela criogenia, o protagonista percebe o tempo gradualmente desacelerado e vivencia o paradoxo da suspensão temporal conduzindo-o a um desejo de morte de si mesmo. O texto propõe que num futuro possível, a ciência possibilitaria que os humanos criogenizados permanecessem conscientes.




Redação Cronópios