13/06/2014 Número de leitores: 1864

Kachtanka: Uma história para não se esquecer

Cláudio Fragata Ver Perfil

Eu acho que todo mundo deveria ler Kachtanka e não é só por ser um conto de Tchekhov, o que já basta como garantia de ótima leitura. Kachtanka é uma das histórias mais comoventes de animais que conheço. E olha que o personagem central é uma cadela vira-lata e quem me conhece sabe do meu apreço pelos felinos.


Eu adoraria ter lido a história quando era ainda garoto, mas não adianta chorar agora pelo leite do passado. Pior seria morrer sem ler. Isso sim seria uma tragédia. É que desconfio que, se tivesse lido essa aventura ainda menino, eu seria hoje uma pessoa mais capaz de entender as sutilezas da relação entre homens e animais.


Só li Kachtanka bem marmanjo. Quem me contou lance por lance da história foi Tatiana Belinky. Ficou tão surpresa com meu entusiasmo que, dias depois, deu-me de presente uma tradução que fez do conto (direto do russo, claro) para a Atual Editora. De lá pra cá, li e reli Kachtanka, a vira-lata de pêlo vermelho e jeito de raposa (Kachtanka quer dizer ruivinha).


Eis que agora a Cosac Naify acaba de lançar uma edição luxuosa do conto. Não é a tradução de Tatiana, mas uma adaptação da obra. As ilustrações deslumbrantes de Guenádi Spirin, entretanto, reproduzem melhor do que o texto o clima da história original, reforçando e ampliando o drama da cadelinha que se perde do dono, o marceneiro Lucá, no anoitecer de um dia gelado. Uma das lembranças mais aconchegantes e que corta ao meio seu coraçãozinho de cão abandonado é o cheiro das aparas de madeira espalhadas pelo chão da oficina. No livro da Cosac, as imagens são tão poderosas que o leitor é levado a sentir esse cheiro só de olhar para elas. O mesmo impacto sensorial acontece nas cenas que mostram a neve incessante e que traduzem o desamparo de Kachtanka.


Não pense que a história descamba para um lacrimoso melodrama. Afinal, meu amigo, estamos diante de um Tchekhov. As surpresas aumentam com a entrada de um ganso, um gato e um porco na trama. Também não pense que a história tem o alto-astral de um roteiro de Walt Disney. Prepare-se para ler uma história que nunca mais será esquecida.


Só não entendi, na última cena, Kacthanka de perna erguida fazendo xixi no poste. Até onde sei, essa é uma descompostura típica de macho. Já tive várias cadelas e não me recordo dessa atitude: mesmo nos passeios pelas calçadas, elas abaixavam as duas pernas traseiras e deixavam ali sua poçazinha. Mas isso, amigo leitor, é só um detalhe que de forma alguma compromete a poesia das ilustrações do livro. Muito menos a força da narrativa de Tchekhov. 





Título: Kachtanka
Autor: Anton Tchekhov
Ilustrações: Guenádi Spirin
Editora: Cosacnaify
Número de páginas: 26



Cláudio Fragata