19/06/2014 Número de leitores: 1477

Cabral

A. Zarfeg Ver Perfil


Um dia papai me chamou e disparou à queima-roupa: “O que você vai ser quando crescer, hein? Não importa. O que importa mesmo é que você saiba, desde já, que quem descobriu o Brasil foi Cabral. Aliás: Pedro Álvares Cabral. Não se esqueça nunca, que a professora vai perguntar isso no seu primeiro dia de aula, no ginásio. Quem mesmo descobriu o Brasil? (‘Cabral’, respondi.) Assim é que se fala, meu garoto”.

 

Dito e feito. No primeiro dia de aula, conforme previra papai, a professora de História nos fez a dita pergunta: “Quem descobriu o Brasil?” – “Pedrálvares Cabral”, respondemos em coro, já que trazíamos a resposta na ponta da língua. Mas dona Lia quase teve um treco. E toda surpresa, estaferma, como quem se decepciona com seus alunos logo no primeiro dia de aula, berrou:

 

“Não, não e não! A propósito, quem é mesmo esse tal de Cabral?”

 

... A briga estava declarada. E papai, que julgou a situação o cúmulo dos absurdos, ficou muito indignado.

 

“Mas como? Não é possível. Você tem certeza que ela disse isso, Bilu?”, perguntou, inconformado.

 

“Sim, e disse mais, disse que desconhece Cabral.”

 

Papai não gostou nem um pouco do que acabara de ouvir da minha boca. “Onde já se viu uma coisa dessas? Arre! Onde nós estamos? Daqui a pouco vão dizer por aí que o hino nacional não começa com ‘Ouviram do Ypiranga as margens plácidas...’, na maravilhosa letra de Osório Duque Estrada.”

 

E ele tinha toda a razão do mundo de estar naquele estado, coitado. Afinal de contas, fora ele a primeira pessoa a me passar aquela informação histórica, enfatizando: “O que estou lhe dizendo é científico, assim como dois mais dois são quatro”.

 

E, sentindo-se machucado em seus brios patrióticos, o velho não deixou por menos: “Essa professora não pode aprontar assim, não. Deixe estar”. – E resolveu que iria tirar satisfação se as coisas continuassem naquele pé – palavra de Antônio Afonso Brasileiro Filho. Se fosse necessário, iria ter com a dita cuja e, se ela não se retratasse daquelas idéias absurdas, papai prometeu procurar o secretário de Educação, o prefeito, o governador, e assim por diante.

 

O nacionalista se transformara numa fera, com o que toda a família estava de acordo. Só mamãe, no início, se mostrara cautelosa, dizendo se se tratar de um engano de minha parte, creditando o equívoco à “falta de atenção de menino abestaiado”.

...

No segundo dia de aula, inicialmente, a professora Lia não tocou no assunto Cabral. Parecia até que tudo não tinha passado de um baita mal-entendido. Antes fosse, pois Cabral era – para todos nós – o descobridor autêntico do Brasil, o lugar-comum que trazíamos na cachola, pronto e acabado. E que ninguém se atrevesse a tirá-lo dali.

 

A aula corria normal, com dona Lia comandando um interrogatório recheado de questões leves, pessoais e alguma orientação pedagógica, do tipo: “Que seu pai faz? Que você pretende ser na vida? Agora, uma sugestão de alguém que gosta muito de vocês, apesar de os conhecer muito pouco, nada de escolher o magistério como profissão, porque ser professor é padecer no paraíso, ouviram?...” Nada parecido, portanto, com a trágica aula anterior, a começar pelo ventinho que fazia agora, tão agradável que dava até a impressão de que um ventilador gigante expulsava o calor para bem longe da gente.

 

Assim, quem havia esperado polêmica ou bagunça se enganara completamente. Em casa, papai havia me pedido que ficasse de olho na professora, prestasse o máximo de atenção aos mínimos detalhes, para depois lhe contar tudinho. Que vigiasse mesmo. Que, confirmadas aquelas idiotices da véspera, ele iria tomar as devidas providências. Ah, se iria!

 

De repente, imprimindo outro rumo à aula, a professora Lia chamou a atenção da turma. “É agora”, pensei com meus botões. Mas nada. Era só uma orientação didática para um trabalho extraclasse.

 

“Pesquisar o quê, professora?” – interrogamos de uma vez.

 

“Só no final da aula eu digo.”

 

E minhas suspeitas foram confirmadas. A pesquisa era sobre o assunto no qual, durante toda a aula, ninguém tocara. Estava lá no quadro-negro para que ninguém duvidasse:

 

“PESQUISAR A BIOGRAFIA DE CABRAL”

...

À noite, em casa, quando todos dormiam, empreendi uma viagem às descobertas do século XV, em busca de nada mais nada menos que Cabral. Em tempo, lembrei a brincadeira que praticávamos entre nós crianças, para testar nossos conhecimentos históricos. Era mais ou menos assim. Um de nós perguntava de repente: “Quem descobriu o Brasil?” E o interrogado, que via de regra sabia a resposta, respondia rápido: “Foi Cabral”. Ao que o primeiro replicava: “Um cascudo não faz mal!” E ploc! dava um tablefe na cabeça do outro.

 

Pois bem, lancei mão de um livro de História que se encontrava sobre a mesa da sala, que parecia até separado de propósito para mim, e cujo título mais tarde fiz questão de esquecer. À página 22 iniciava um capítulo interessante intitulado “Tudo que você precisa saber sobre o Descobrimento do Brasil”. Lá estava em destaque: “Na verdade, há muitas mentiras por trás do Descobrimento do Brasil. A propósito, tratar-se-á mesmo de descobrimento? Ou ocupação? Ou invasão? Para sermos mais exatos (e sinceros), quando Cabral aqui chegou, ele não encontrou a casa vazia não, antes, pelo contrário, os povos indígenas, num total de dois milhões, habitavam esta terra que hoje chamamos Brasil. O que o conquistador português fez se limitou a tomar posse e dar nome ao que já existia aqui havia milhares de anos”.

 

Fiquei abismado com aquele livro, que mostrava justamente o oposto de tudo que eu sabia ou julgava saber. Nele, tudo vinha de encontro ao que papai havia me ensinado. Cheguei a me beliscar para verificar se aquilo não passava de um lamentável pesadelo, como os atores procediam na TV. E como doeu! Era um fato, por mais que eu quisesse negar. E, dando prosseguimento, as páginas seguintes traziam a biografia de Cabral, com detalhes que eu nem supunha existirem. Longe de ser o herói idealizado por mim – eis um navegador cruel e movido por um único objetivo na vida: conquistar e conquistar. Um monstro para quem os povos indígenas não passavam de selvagens indignos do respeito da coroa portuguesa e da fé católica apostólica...

 

Sem dúvida, eis aí a pior noite da minha vida de aprendiz das coisas brasileiras, em que minhas doces convicções foram uma a uma destruídas. Então, estávamos todos errados e somente a professora Lia tinha razão? Deu-me uma vontade de acordar papai e lhe mostrar tudo que eu acabara de ler. Porém, com medo de que ele não suportasse tanta decepção, desisti. Mas era digno de crédito aquele livro suspeito, surgido donde não se sabia ao certo? Afinal, quem estava com a razão: o livro atrevido ou o mundo oficial? Sem uma resposta definitiva, fui dormir.

 

De manhã, papai foi o primeiro a dar notícia dos meus pesadelos. Segundo ele, eu havia sonhado com Cabral, em meio a roncos e frases desconexas, promovendo um falatório maluco que, por pouco, não acordou todo mundo em casa. Como sempre, eu não me lembrava de nada.

 

“Você não se lembra porque foi sonho falado. No sonho mudo, a gente consegue lembrar de quase tudo”, teorizou ele para, em seguida, concluir, fazendo um gesto de impaciência: “É esta situação anti-histórica que está deixando o Bilu assim. De minha parte, eu também já estou de saco cheio dessa brincadeira de mau gosto”.

 

...

 

Após o almoço, fui pro colégio juntamente com os outros meninos de minha rua: um rebanho colegial enfiado num uniforme azul-marinho ridículo. Uma tarde de sol de rachar paralelepípedos, ou capaz de espantar os neurônios mais corajosos das nossas cabecinhas sedentas de conhecimento, naquele mês de fevereiro de mil novecentos e antigamente. Na sala de aula, assim como eu, meus colegas pareciam um tanto quanto desconfiados de qualquer coisa. Teriam tido a mesma experiência que eu? Pouco provável. De todo modo, uma sensação de conforto me dominou por inteiro: eu não estava sozinho naquela parada. Mas ninguém se atrevia a tocar no nome do descobridor do Brasil. “CABRAL PROIBIDO” estava escrito em letras garrafais num cartaz imaginário.

 

E a aula de história começou sob um silêncio atroz. Nenhum pio. Nem os guris mais danados, que normalmente já sobressaem nesses primeiros dias (como um tal de Carleu), se atreviam a esboçar um sorriso que fosse. A professora Lia, ao contrário, exibia um ótimo humor que beirava a pura alegria, já prestes a romper os limites tênues da conveniência. Até parecia que ela comemorava algo.  Isso tinha o dom de agravar as minhas suspeitas de que ela havia providenciado, não se sabe como, o encontro da véspera entre mim e o tal livro.

 

Em seguida, ela veio vindo para o meu lado e, tão logo, me encarou com aqueles olhos enormes. Por que logo eu? Era marcação, só podia ser. Encarei-a também. Esquerdista de uma figa! Desinformada de uma besta! Claro que não disse nada disso; apenas pensei comigo, amarelando de receio, com medo de me expor à publicidade da classe, sei lá. Mas aquela cara foi se me revelando cínica, má, feroz. Tremi nas bases.

 

“Senhor Bilu!” – exclamou ela.

 

“Eu?!” – gaguejei.

 

“Você é neto do seu Antônio Afonso, não é mesmo?”

 

“Sim, senhora.”

 

“Pois saiba que seu avô tem importância histórica para todos nós. Ouviu, classe? Entre outras coisas, o avô de Bilu construiu o prédio onde funcionou o primeiro cinema da cidade, comprou o primeiro aparelho de rádio da região e, durante seu reinado de don-juan das Águas Pretas, conquistou pelo menos umas dezessete mulheres.

 

A essa altura dos acontecimentos, toda a turma era uma só gargalhada, atraída pelas revelações da professora Lia, que parecia conhecer muito bem a biografia do meu avô. De minha parte, confesso que gostei também daquele desfecho, especialmente porque Cabral estava salvo e eu, ainda por cima, sabia os recordes do meu famigerado avô do coração.




Imagem ilustração - http://mardasgarrafas.blogspot.com.br

A. Zarfeg