05/07/2014 Número de leitores: 989

Mariana vai ganhar um irmãozinho

Valéria Nogueira Eik Ver Perfil



- Mariana!

- Que é, mãe?

- Vem almoçar!

E lá se foi Mariana, arrastando os passos, numa má vontade de dar coceiras em rabo de tatu.

Ela tem seis anos.

É alta para a sua idade, morena feito jambo, e tem os olhos mais escuros que jabuticaba madura.

Alegre igual passarinho voando no céu, ela corre por todo o quintal, espanta a bicharada e chega a dar nó em pingo d’água ou fazer tranças na fumaça que foge assustada pela chaminé.

Quando Luiza engravidou, teve que dar muitas explicações à Mariana, que fez bico e sapateou no chão, pois não queria um irmão para ocupar o seu lugar no colo do pai e nos carinhos da mãe.

Mas, conforme a barriga foi inchando, veio a curiosidade, e a menina grudava a cara no umbigo de Luiza e se punha a falar com o bebê.

- Oi. Você está me ouvindo? Sou Mariana, a sua irmã.

E escutava um silêncio absoluto.

- Mãe, essa coisa aí dentro não fala?

Luiza ria muito e explicava que o bebê ainda era pequenininho e que não entendia a nossa língua.

- Você vai precisar ensinar tudo para o seu irmão, meu amor.

- Então ele é burro?

- Não, querida. Ele é muito inteligente, mas, está vindo de outro mundo e precisa ser apresentado ao nosso.

Mariana punha o dedinho no queixo e ficava pensativa.

Em seguida, disparava mais uma frase:

- Esse menino vai me dar tanto trabalho!

E os pais riam dela e riam para ela, e sorriam para o presente e sorriam para o futuro.

Um dia, mãe e filha estavam sentadas na varanda, vendo a vida passar, e de repente, o guri se espreguiçou todo dentro da barriga imensa e Mariana gritou:

- Ele vai nascer! Está abrindo a barriga e vai sair! Está doendo, mãe?

- Deixa de ser boba, menina. Ele só está se mexendo.

- Eu é que não queria estar no lugar dele, credo! Deve estar escuro aí dentro. Ele está querendo é sair pra poder brincar, correr, chupar jabuticabas e assustar os porquinhos. Mãe, como vai se chamar esse boboca do meu irmão?

- Mariana, Mariana! Ele não é boboca! E ainda estamos escolhendo um nome bem bonito para ele.

- Que tal Bolotinha?

- Não, querida. Eu gosto muito de Bruno e seu pai prefere Rafael.

- Eu quero que seja Bolotinha! Ou então, Pipoquinha.

Enfim, chegou o grande dia.

Mariana ficou com a tia, enquanto mamãe e papai foram ao hospital para o bebê nascer.

Mal os pais dobraram a esquina, e a menina começou:

- Tia, o Pipoquinha já nasceu?

- Mas, que menina apressada! Eles nem chegaram ao hospital ainda. Melhor você ir brincar porque vai demorar bastante, certo?

Naquele dia, ela não correu, não espantou a bicharada, e nem deu nó em pingo d’água.

Até a fumaça estava sossegada, saindo lentamente pela chaminé.

Mariana só pensava no Pipoquinha.

- Como será que ele é, tia?

- Será que ele vai gostar de mim?

- Será que vai brincar comigo hoje ou vai estar muito cansado? Mas, cansado ele não pode estar, porque ficou no maior sossego esse tempo todo dentro da barriga da minha mãe, enquanto eu tive que ir pra escola.

- Tia, quando o Pipoquinha chegar, vou logo avisando que a mãe é só minha, tá?

Tia Marisa nem respondia, porque era tanta pergunta que nem dava tempo de pensar.

E de cinco em cinco minutos, lá vinha Mariana:

- Tia, o bebê já nasceu?

Num desses cinco minutos desse longo dia, a vizinha veio correndo avisar que Seu Paulo tinha ligado do hospital, e que o Bruno tinha nascido, e que estava tudo muito bem.

Tia Marisa chorou. Estava emocionada.

- Tia, por que você está chorando se está tudo bem? Está tudo bem? Que horas eles chegam em casa?

- Está tudo bem, querida. Estou chorando de alegria, porque tudo correu bem. Mas, só vamos poder ver o Bruno amanhã, certo?

- Bruno? Que droga, tia. Não acredito que mamãe colocou esse nome no meu irmão. Pois pra mim vai ser Pipoquinha. Por que só amanhã? Eu quero agora!

E fez bico, fez birra e sapateou no chão.

Mas, não teve jeito. Era horário de hospital e pronto.

Naquele dia, para mostrar que mandava em alguma coisa, Mariana não tomou banho. Jantou sem lavar as mãos, sujou a toalha da mesa, de propósito, e lambuzou a cara com o leite condensado, que era só dela.

Depois do jantar, deitou no sofá e tentou chorar, mas, por mais que espremesse os olhos, as lágrimas não vinham e por fim, ela desistiu e dormiu.

Tia Marisa sorriu ao ver a menina adormecida.

Parecia um anjinho!

Passou um pano úmido naquele rostinho melado e nas mãozinhas engorduradas e carregou Mariana para a cama, suspirando aliviada.

As estrelas piscavam muito lá no céu e a lua cantou uma melodia mais doce que o leite condensado que era só da Mariana.

E a noite estava tão serena, que o sol chegou de mansinho, espiou através das cortinas, e fez cócegas no dia, que explodiu em risadas, acordando a menina.

De banho tomado e roupa bonita, lá se foi Mariana pelas mãos da tia, conhecer o Pipoquinha.

Ele era um tiquinho de gente e a menina ficou decepcionada, pois ele não falava, não corria e parecia que nem enxergava nada.

Mas, olhando melhor, até que era engraçadinho.

- Parece um anãozinho, mãe. Tem certeza que ele vai crescer?

Luiza riu muito das observações da Mariana.

- Ele vai crescer, vai aprender a falar, andar, correr e brincar.E quem vai ensinar tudo isto para ele, é você, minha filha.

- Se não sou eu naquela casa, hem, mãe?

Hora de ir embora e Mariana fez bico, fez birra e até sapateou no chão, e desta vez as lágrimas vieram abundantes, pois ela estava com saudade do carinho da mãe e do colo do pai.

Mas, estava começando a entender que nem sempre a vida ia fazer as suas vontades e afinal, amanhã tudo voltaria ao normal, com exceção daquele anãozinho simpático que viria junto com os pais para casa.



Valéria Nogueira Eik