16/07/2014 Número de leitores: 1320

Histórias e Gentes

Eliana Pougy Ver Perfil

Pros mais distraídos, este site aqui - o Cronopinhos – divulga literatura. Aqui, um monte de gente, entre homens e mulheres, conta histórias que eles mesmos inventaram ou que alguém inventou e eles recontam. Para contar essas histórias, as pessoas criam textos - falados, musicados ou escritos -, que podem ser acompanhados, ou não, de imagens.


Textos literários são especiais porque são contados de uma forma especial. Tem gente que adora contar histórias de um jeito diferente, de um jeito único, só dele. Tem gente que adora inventar palavras, juntar palavras opostas, criar rimas, ritmos, sons...


Além disso, esses textos são bons porque não servem para nada a não ser nos emocionar. Quando a gente os lê, sente um monte de coisas como a alegria, o medo, a tristeza ou o asco.


Então, como você é muito esperto, concluiu que literatura é contar histórias legais de um jeito especial.


Sim.


Mas não é só isso.


Tem gente que escreve história e tem gente que adora dar pitaco sobre o que lê: gostei disso, não gostei daquilo, não entendi isso, isso ficou meio confuso, etc... Esses caras são chamados de críticos, pessoas que pensam sobre o que é ou não literatura. Por isso, aqui no Cronopinhos, também tem gente que escreve crítica de literatura.


Então, literatura é escrever histórias e pensar sobre a escrita: quando e por quem uma história foi contada, o que a história diz e como ela diz.


Mas, afinal, o que faz alguém querer inventar e contar histórias pras outras pessoas? O que faz alguém querer dar palpite nas histórias que os outros inventaram? Ah, isso eu não sei responder... E acho que ninguém sabe...


O mais importante nessa história toda é conhecer mais e mais os textos literários e também os seus autores. Quanto mais a gente conhece, mais a gente gosta, aprende a criticar e acaba ficando com vontade de ser autor também...


Como eu sou professora, pensei em apresentar pra você alguns textos literários e seus autores. Pensei em escolher alguns autores que admiro e que fazem uma literatura das boas.

Por isso, proponho começarmos com a literatura de um cara legal chamado Paulo Leminski.


Paulo Leminski


Amor, então,
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.


Paulo Leminski era poeta. A poesia, um tipo de texto literário, brinca com as palavras e organiza frases cheias de ritmo e de sons. Ela que nos faz pensar e “ver” as coisas, os lugares, as pessoas. Ela é como um vento forte que chega de repente, que nos pega de surpresa e nos deixa arrepiados. 


Muitas vezes, as poesias são rimadas. A rima acontece quando determinado som se repete nas palavras de um texto. Mas, também existem poesias que não possuem rima.


Quando a gente lê com atenção essa poesia do Paulo Leminski, entende que ela nasceu da vida, dos sentimentos, dos amores, e também das dores que o poeta viveu...  Como ele diz, essa é a matéria-prima da poesia.


um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada

depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um eluárd um ginsberg

por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores


Nesta outra poesia, Paulo Leminski, um brasileiro de Curitiba, cita poetas importantes como Homero, um grego que viveu há muito tempo e que escreveu uma poesia bem grande e famosa chamada Ilíada. Ele também cita Rimbaud, Ungaretti, Fernando Pessoa, Lorca, Eluárd e Ginsberg, outros poetas importantes. Ele diz que queria ser como eles, escrever bem como eles. Todo artista, e não só os escritores, tem como fonte de inspiração a obra de artistas consagrados.

Mas, e de uma forma até meio tristonha, Leminski afirma que é um poeta de província. Esse termo, província, é um termo pejorativo, ou seja, um termo que deixa a entender que o local onde ele morava era um local simples, sem muita vida cultural. 

Contudo, quando ele afirma ser um poeta de província, ele não quer falar mal de sua terra, o Paraná. Ele quer dizer que seu trabalho literário ainda não tinha sido aceito, que ele continuava um artista em busca do reconhecimento. Todo artista se sente assim, enquanto trabalha: os artistas são mesmo uns eternos insatisfeitos... Mas, por incrível que pareça, é isso que os faz continuar a criar!


meio dia três cores
eu disse vento
e caíram todas as flores

coisas do vento
a rede balança
sem ninguém dentro

cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença


Essas três poesias de Paulo Leminski falam sobre o vento, sobre o espanto que o vento causou no poeta. Observe como elas são delicadas e mostram toda a sensibilidade de Leminski...


Este tipo de poesia, de três frases ou versos, é chamado de haikai. O haikai foi inventado pelos japoneses, na Idade Média, para que todo mistério da vida e da natureza pudesse ser expresso em poucas palavras. Para a filosofia oriental, ou seja, para o modo de pensar dos povos do Oriente, entre eles os japoneses, o homem faz parte da natureza, ele pertence a ela. Dessa forma, a poesia deve ser a expressão dessa mistura entre o grande mistério e os pequenos detalhes espantosos da vida.

Essa foi a forma que Leminski escolheu para poetizar. Como ele afirmou, o haikai é: “É a passagem de uma palavra por dentro da outra, nela deixando seu perfume. Sua lembrança. Sua saudade”.


Todo haikai possui 17 sílabas, divididas em três versos. Em geral, um haikai é escrito assim: 5 silabas no primeiro verso, 7 no segundo e 5 no terceiro. Mas, Paulo Leminski não seguia essa regra fielmente, pelo contrário, ele bagunçou todas as regras e criou seu próprio estilo!


Mas, não foi apenas através dos haikais que Leminski se expressou. Ele fazia letras de músicas, poesias experimentais, textos experimentais... Ele era um inventor.

 

LÁPIDE 1
epitáfio para o corpo

 

Aqui jaz um grande poeta.

Nada deixou escrito.

Este silêncio, acredito

são suas obras completas.

 

LÁPIDE 2

epitáfio para a alma

 

aqui jaz um artista

mestre em disfarces

 

viver

com a intensidade da arte

levou-o ao infarte

 

deus tenha pena

dos seus disfarces


 

Esta poesia é formada por dois epitáfios. Epitáfio é um pequeno texto que se escreve no túmulo das pessoas, quando elas morrem. Paulo Leminski escreveu essa poesia pensando no que poderia ficar escrito em seu túmulo, quando ele partisse desse mundo...


Mas, de forma criativa, ele escreveu um epitáfio para o seu corpo, um corpo como outro qualquer, que um dia acaba, e um epitáfio para a sua alma, sua alma de artista, uma alma que buscou disfarçar a fragilidade da vida através da arte e da expressão.


Infelizmente, Paulo Leminski já morreu. Mas, com toda a certeza, continua vivo em sua poesia!


Que tal fazer literatura?

O haikai é uma pequena poesia, formada por 17 sílabas, distribuídas em 3 versos. Porque você não tenta escrever um haikai? Escolha um tema da natureza, como por exemplo: os animais, as plantas, as rochas, a areia da praia, etc... Depois, escreva sobre isso usando as regras do haikai.

 

Eliana Pougy