15/01/2015 Número de leitores: 934

Biografia, polêmico gênero

Sílvio Tamaso D'Onofrio Ver Perfil

Estudando biografias há alguns anos, diante dos (sempre) atuais questionamentos acerca desse estilo de escrita, gostaria de tentar fazer alguns comentários que, quiçá, possam ser úteis a alguém. A abordagem escolhida é de cunho histórico, procurando as origens do que se convencionou chamar de biografia. Que é a biografia? Como surgiu? Quem a inventou?
       

Normalmente se considera Plutarco como o inventor da biografia. Mas já essa afirmação é arriscada de fazer, porque é como se ele tivesse pensado: “Vou criar um novo estilo de escrita, a isso darei o nome de biografia. Eureca!”. Não sabemos se foi dessa maneira. Não podemos afirmar isso. É arriscado fazer essa teleologia, ou estudar as intenções de Plutarco. Sabemos que ele foi um dos primeiros a escrever biografias, e é mesmo considerado por muitos como o “pai da biografia”, veremos porque, mas daí a afirmar que ele queria criar um novo estilo de escrita, vai certa distância. Para piorar um pouco mais as coisas, é de conhecimento geral que até hoje, quase dois mil anos depois de “inventada” a escrita biográfica, não existe uma teoria da biografia, por assim dizer. Ninguém propôs qualquer tipo de método para o que seja o fazer biográfico, portanto, no limite, a discussão sobre o que é ou não uma biografia continua aberta, daí, talvez, o interesse da investigação que se complica com as autorizações, “ou não” (para lembrar alguém), dos pretendentes a biografados.
      

Afinal, quem inventou, em termos amplos, de fato a biografia? Se foi Plutarco e outros, quem eram esses outros e a que obras estamos nos referindo? Vamos nos ater então, aos anteriores ou contemporâneos a Plutarco, no ocidente, para tentar detectar quem chegou antes no estilo de escrita biográfica.
       

Plutarco viveu entre o primeiro e o segundo século de nossa era, para ser mais exato, entre os anos (aproximados) de 45 e 120 d.C. Como possíveis biógrafos anteriores a ele, no século I antes de Cristo, há Cornélio e, já no século IV a.C., Xenofonte.

       

Vejamos o caso de Xenofonte, ou Xenofonte de Atenas. Felizmente, há um competente, elucidativo e atual estudo sobre esse autor grego, que usarei em meu socorro para percorrer suas principais obras. Trata-se da tese de doutorado de Alessandra Carbonero Lima, defendida na USP.
       

Se Xenofonte viveu tantos anos antes de Plutarco e também escreveu biografias, por que ele não seria “o” inventor da biografia? Ocorre que podemos, de fato, considerar algumas obras de Xenofonte como possuidoras de aspectos biográficos, mas isso, penso eu, num aspecto mais geral. Quando nos dedicamos a uma análise mais minuciosa dessas obras “de caráter biográfico”, vemos que, uma a uma:

 

Apologia a Sócrates é atualmente considerado um diálogo filosófico;

Ciropédia (ou A vida de Ciro, o velho), e Hierão, um diálogo, na proposta de Alessandra Lima, ocupam-se de constituição política e da paideia, ou seja da formação, da educação, do governante. Sob o meu ponto de vista: são menos retratos de pessoas do que ensaios filosóficos. Segundo Pierre Chambry (Xenophon. Paris: Garnier, 1932), Ciropédia é um romance histórico, com a apresentação de um Ciro pouco explorado em sua complexidade e psicologia. Outros personagens também são descritos sem profundidade. Ainda segundo Chambry, objetivo principal da Ciropédia seria mostrar a excelência das instituições da monarquia comandada por Ciro.

Anábase, é o retrato dele mesmo, Xenofonte, portanto seria mais uma autobiografia do que uma biografia. Segundo o estudo de Alessandra Carbonero Lima, essa obra, Anábase, bem como, Helênicas, que retrata Ciro, o jovem, são “relatos históricos”.

      

A tese de Alessandra Lima, a qual estamos nos referindo, dedicada ao estudo das obras de Xenofonte, não apresenta, em nenhum momento, a palavra “biógrafo” e traz impressa uma única vez a palavra “biografia”, isso ocorrendo quando a obra estudada é Agesilau, cujo conteúdo é um panegírico, um elogio, feito por Xenofonte, a um rei espartano recém-falecido. Essa única ocorrência da palavra “biografia” em uma tese de 196 páginas, impressa depois de um estudo detalhado e que durou anos para se concretizar, é sintomática, possivelmente indique que a autora compreendeu muito bem o que se pode e o que não se pode dizer a respeito de Xenofonte e da obra deixada por ele. Não deve ser por outro motivo, portanto, que Xenofonte costuma ser excluído das listagens de “antigos biógrafos”, tanto em estudos sérios como na virtualidade da internet. Normalmente ele é referido como historiador.
       

Segundo Pierre Chambry novamente, Agesilau foi escrita como uma resposta de Xenofonte às polêmicas provocadas pela morte do rei, quando circulou um texto crítico a que Xenofonte tomou por injurioso ao falecido. Chambry também afirma que esses escritos de Xenofonte serviram de fonte para que Plutarco, alguns séculos mais tarde, escrevesse a vida de Agesilau dentro das Vidas Paralelas.

       

Seguindo nossa linha temporal em sentido aos dias de hoje, depois de Xenofonte, que viveu lá no século IV a.C., quem é o mais antigo “biógrafo” antes de Plutarco? Para responder a essa questão devemos nos ater inicialmente ao conceito De viris illustribus (sobre homens ilustres, ou famosos), que foi uma espécie de estilo literário, surgido ao redor de Cícero (106-43 a.C.), Cícero que não deixou, ao que parece, obras biográficas, num sentido mais estrito, mas sobre filosofia, retórica e também discursos.
       

As obras De viris illustribus dedicavam-se a isso mesmo, retratos biográficos, e essa escrita tornou-se um dos estilos típicos da Roma antiga. Várias obras publicadas ganharam essa denominação, no título ou no estilo, seja na antiguidade clássica, seja durante a Renascença italiana, quando esse estilo ganhou novo impulso e difundiu-se também pelas artes visuais.
       

Quer nos parecer, no entanto, que as produções biográficas dessa estética De viris illustribus, foram muito mais de caráter episódico do que uma dedicação com afinco, por parte dos autores envolvidos, a um novo modo operatório na arte da escrita. Pelo menos em termos de antiguidade clássica. Tiveram lá, um ou outro lampejo no estilo, com obras de envergadura, e em alguns casos, autoria, discutível, e depois continuaram suas produções no caminho tradicional.
       

Uma exceção pode ser feita, no entanto, quando nos referimos a Cornélio, ou Cornélio Nepos, que viveu nos séculos II e I a.C., entre os anos (aproximados) de 100 e 25, ou seja, praticamente contemporâneo a Cícero e cerca de um século e meio anterior a Plutarco, Cornélio escreveu uma obra intitulada De viris illustribus. O problema principal é que praticamente nenhum escrito de Cornélio chegou até os nossos dias, “quase” tudo o que ele escreveu nós apenas conhecemos de “ouvir falar”, ou seja, citações em obras de terceiros. Portanto tudo indica que existiu uma obra dele, provavelmente uma biografia, intitulada Vida de Crato, assim como possivelmente existiu a, também dele, Vida de Cícero, (mencionada nas Noites Áticas). Infelizmente, esses textos a história não guardou. Guardou apenas uma: Vidas de eminentes comandantes, traduzida para o inglês no último quartel do século 19. Dessa obra, ainda que composta por fragmentos e esparsos, temos mais material de análise, inclusive com a afirmativa do próprio autor (xvi.1.1) de que se tratavam, sim, de escritos biográficos, não era história o que ele estava fazendo.
       

Portanto, do visto até aqui, de biógrafos anteriores, antecessores de Plutarco, existem dois: Xenofonte e Cornélio. Somadas as produções desses dois autores e que permaneceram até os dias atuais, temos uma única biografia, essa Vidas de eminentes comandantes, de Cornélio.

      

Chegamos a Plutarco. Plutarco, investiu, segundo estudiosos, mais de duas décadas biografando figuras importantes de sua época e de tempos anteriores, figuras que foram enfeixadas como uma única obra hoje conhecida como Vidas, ou Vidas paralelas. São 23 pares de pessoas descritas além de quatro pessoas “avulsas”, sem formar par comparativo. Ainda segundo estudiosos, esse também é o material que sobrou da produção original de Plutarco. Estima-se que seja a metade do produzido pelo autor, tendo a outra metade se perdido.
       

Ao que tudo indica, Plutarco teve uma família próspera, em diversos sentidos, o que facilitou sua vida de viagens e estudos. Viajou pelo Egito, Ásia e depois para o local onde viria ser a Itália. Depois, regressando à Grécia, torna-se importante figura pública, político, espécie de embaixador em questões e missões externas e também sacerdote no templo de Delfos. Esse espectro de atividades desenvolvidas durante a vida propiciou a Plutarco o contato com todo tipo de pessoa, dos mais ricos aos mais pobres, dos maiores aos menores. 
       

Escreveu uma vasta obra, supostamente catalogada por seu filho Lamprias, que listava 227 volumes (RUSSELL, Donald A. Plutarch, London: Duckworth, 1973). Desse total, cerca de 130 chegaram até nós.
       

Essa constatação de que conheceu e conviveu com muita gente é levantada por alguns de seus pesquisadores como preparação e encaminhamento intelectual, espécie de justificativa para suas grandes obras, grandes em sentido e também em dimensão: Moralia ou Ensaios Éticos, a maior parte deles no formato diálogo, e Vidas Paralelas.
       

As Vidas Paralelas têm sido objeto de estudo desde a antiguidade. Para citar apenas três casos conhecidos, ela teria sido uma das influências na elaboração da peça Henrique VI, publicada entre os anos de 1588 e 1590, por William Shakespeare, além de ter ocasionado uma mudança nos rumos da escrita dramática desse autor ao produzir outra obra influenciada pelas Vidas de PlutarcoJulius Cesar. Quem defende a tese é James Shapiro, acadêmico norte-americano. Segundo esse professor, as várias facetas da política, dos caracteres e a intimidade das reflexões no ato da escrita começam a se afetar mutuamente (SHAPIRO, J. 1599: A year in the life of William Shakespeare. London: Faber and Faber, 2005, p. 151).
       

Julie Sanders (Adaptation and appropriation. New York: Routledge, Taylor and Francis, 2006) também afirma ser clara a utilização de textos de Plutarco em adaptações e imitações promovidas por Shakespeare.
       

Os Ensaios, de Michel de Montaigne (I, 1, ed. francesa, 1906-1933) também trazem muitas referências a Plutarco e sua obra. Quando trata de Alexandre o Grande, por exemplo, da Macedônia, o texto é cravado de menções a Plutarco.
       

Montaigne explica seu gosto por Plutarco: “Ora, os que escrevem as vidas, na medida em que se ocupam mais das intenções que dos acontecimentos, mais daquilo que provém do íntimo que daquilo que acontece fora, esses me são mais apropriados. Eis porque em todos os aspectos Plutarco é meu homem”. (Os Ensaios – II. Trad. Rosemary C. Abílio. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 127).
       

Jean-Jacques Rousseau também admirava Plutarco, desde as primeiras leituras de infância, a informação está nas suas Obras completas (em francês, I, p. 9). Na vida adulta, segundo Morel: “Rousseau coloca toda sua engenhosidade para interpretar seu autor, e adequá-lo ao seu próprio pensar“. MOREL, J. Jean-Jacques Rousseau lit Plutarque. In: Revue d`Histoire Moderne, n. 2, 1926.
       

Do que vimos até aqui, alguém poderá pensar que as Vidas, de Plutarco, pode ser considerada o marco inicial da escrita biográfica pela extensão da obra, por sua profundidade, sua feliz construção ou, ainda, pelas repercussões posteriores. Tudo isso é correto. Mas há outros aspectos que podem ajudar a compreender o alcance da obra. Segundo Edgard Cavalheiro, crítico que atuou no século 20, mais conhecido por ter sido o primeiro biógrafo Monteiro Lobato, Plutarco é ainda atual porque “continua a ser percorrido com o prazer das grandes descobertas […] (é) seguro como retratista, preciso como pesquisador […] serve […] de receita para todos quantos se infiltrem pelo gênero biográfico […] seus perfis permanecem de pé, possuem vitalidade e alma”. Ainda segundo Cavalheiro, Plutarco não expôs vidas em paralelo numa tentativa de “bitolar existências que no fundo são sinuosas e surpreendentes, vivas e desiguais” porque sabia, como ninguém, da diversidade humana. Colocou-as em paralelo para ressaltar aproximações e afastamentos, convergências e divergências.

      

E se algumas críticas podem ser lembradas, nas Vidas Paralelas, quanto à exatidão de datas e fatos históricos, eis a opinião de Plutarco: “Sirvo-me da história, como de um espelho ante o qual procuro de certo modo compor e assemelhar minha vida às imagens que se me apresentam. Que importa uma data inexata ou um pormenor duvidoso? Vale mais examinar o caráter e os costumes do personagem através da sua conduta política, do que discutir esta ou aquela data, este ou aquele detalhe de importância secundária para a clara compreensão do homem, sobretudo do homem íntimo. Sem esquecer de que este é um produto do meio, também é preciso lembrar o que ele possui de individual, de ímpar”.
       

As figuras expostas em Vidas Paralelas não eram construídas como objetos de adoração heroica, defeitos e virtudes foram ressaltados: seu objetivo era, ao mesmo tempo, apontar acertos e desacertos da política imperial, e, no âmago da atuação pública dos retratados, identificar o sentimento humano à maneira de um psicólogo.
       

Segundo tese de Maria Oliveira Silva, Plutarco “não compôs sua obra para exaltar ou glorificar o Império romano ou ainda a cultura grega. Sendo assim, seus escritos representam a expressão da singularidade e da utilidade da tradição cultural grega para o fortalecimento político do Império. O objetivo principal de Plutarco está, pois, em construir uma identidade grega no Império, pautada na história do seu povo e em sua tradição cultural, para exibir ao mundo romano a contribuição dos gregos para a formação do Império” (SILVA, Maria A. Oliveira. Plutarco e Roma: o mundo grego no Império. Tese. DH FFLCH USP, 2007).
       

Em 1992 foi publicado um estudo de Thomas Rosenmeyer (Begginings in Plutarch`s Lives, Yale Classical Studies, vol. XXIX, 1992, p. 207) sobre as introduções escritas por Plutarco antes de cada biografia, nas Vidas. Rosenmeyer entende que nesses preâmbulos o que existe de fato são reflexões filosóficas e morais em que as noções de virtude (areté) e de caráter (ethos) são as gregas tradicionais.
       

Apesar de aparentemente defensor de uma moral tradicional, Plutarco, no pensamento de Edgard Cavalheiro, mencionado anteriormente, afirma que considerar o antigo como moralizador ou excessivamente pedagógico, no mau sentido, somente poderia ser fruto de incompreensão ou leitura superficial.
       

Algumas das Vidas Paralelas não são exemplares senão pela antítese, ou seja, acreditava Plutarco que compreender um mau exemplo, como os de Antônio, o triuviro, ou Artaxerxes, por exemplo, já era educativo no sentido da boa conduta. Mas fazer apologia de qualquer tipo: isso não há nas Vidas.
       

Para valorizar o belo, seria necessário, ainda que por poucas vezes, contemplar o feio. Com a palavra, o autor: “Escrevendo história assiduamente e aplicando-nos no seu estudo, preparamo-nos para receber em nossas almas a memória dos maiores e mais ilustres varões, e para afastar e renegar o ruim, o mau, o ignóbil que nos rodeia, volvendo nosso espírito, plácido e benigno, para os mais belos modelos”.
      

Possivelmente a trajetória, dedicação, compreensão do tema e vastidão da obra, como tentei mostrar nestes modestos escritos, sejam alguns dos motivos que auxiliaram a história, pelo menos a literária, a eleger Plutarco como um dos principais, senão o inicial nome na escrita biográfica.
       

Após Plutarco, muitíssimo resumidamente apenas para trazer a discussão para os dias atuais, o que vemos é uma espécie de degeneração da biografia em louvação pura e simples, muitas vezes com pretensões científicas e históricas.
       

No início do século 20, Lytton Strachey, com seus “Eminentes Vitorianos” (A Rainha VitóriaA Rainha Elisabeth), depois Stephan Zweig, por exemplo, mostra que o concurso da história com a arte e a vida é muito mais natural do que aquele da história com a ciência.
       

Se, no início, essa nova roupagem da biografia, moderna, apresenta contornos sóbrios e até mesmo ácidos, com ironias ferinas travestidas de inocentes gentilezas, por exemplo, em Emil Ludwig (Jesus, o filho do homem, Três titãs), com o passar do tempo o apelo artístico ganha espaço e a sensibilidade, de leitor e autor, é exaltada: a biografia torna-se psicológica, com exploração mais aprofundada dos caracteres e, em seguida, biografia romanceada, tendo em André Maurois (A Vida de Shelley, Byron, Voltaire) o seu maior exemplo.
       

Essa “nova biografia”, do século 20 para cá, toda ela foi, poderíamos generalizar, bem-sucedida. Uma vertente histórica também alcançou sucesso de crítica e de público, especialmente com Lion Feuchwanger (O juseu Suss, O fim de Jerusalém).

      

Chegando finalmente ao Brasil, na primeira metade do século 20, temos também biografias modernizadas com obras de Lúcia Miguel Pereira (sobre Machado de Assis), Raimundo de Magalhães Júnior (sobre Machado e Rui) e Vianna Moog (sobre Eça de Queiroz). No Brasil dos dias de hoje, o que vemos? Que a biografia está aí, semanalmente, na cotação dos mais vendidos, mais lembrados e mais lidos. De Steve Jobs a Lobão, de Napoleão a Gianechini, de Garrincha a Vampeta.
       

Biografias são bastante vendidas também, imagino, inclusive porque as biografias confundem-se, com certa facilidade, com os livros de autoajuda, outro gênero de grande sucesso no mercado (para desespero de muitos e autoajuda de autores e editores).
       

Alguns estudiosos tentam compreender o por que dessa busca incessante, por parte do público, de histórias de gente, muitas vezes, enterrada há décadas. Uma das explicações parece ser a de que, cada vez mais anônimo na massa popular, o público sente-se realizado “encarnando” uma figura importante, vivendo com o autor a vida de um famoso; é como uma compensação por uma vida medíocre. Há quem veja nisso um sintoma do declínio do valor humano, ou do individualismo, ou simples escapismo: pode ser. Alarmistas denunciam: vendagens altas de biografias significam que a civilização está corrompida. Outros dizem isso acusando os livros de autoajuda ou de autores “secundários”, seja lá o que isso signifique.
       

O fato é que vende: a biografia Chatô, de Fernando de Morais, vendeu 96 mil exemplares em 1994, seu ano de lançamento.
       

Segundo seu estudo de 2011, Rubem Barros (A (re)construção do passado: música, cinema, história. Dissertação ECA USP 2011) afirma que Brasil sofre “explosão biográfica”, a partir dos anos 90, na literatura, pelo momento de recuperação da “autoestima” nacional, onde personagens que elevavam a história nacional eram demandados e apreciados. No cinema, entre 2000 e 2009, mais de 20 longas-metragens “biográficos” foram lançados, por exemplo Villa-Lobos: Uma vida de paixão.
       

O estudo de Barros culmina na abordagem da grande questão, no meu entender, a respeito da potência da biografia nos dias atuais, questão que já mereceu detidos estudos de Peter Burke e Pierre Bordieu, para nomear apenas alguns autores (A invenção da biografia e o individualismo renascentista, A ilusão biográfica, respectivamente). Pergunta o autor Rubem Barros: “Até que ponto é possível escrever a vida de um indivíduo? E até que ponto uma vida pode ser significativa para a compreensão de uma época ou de um determinado contexto histórico?”.
       

A questão se torna mais aguda quando acompanhamos o raciocínio do sociólogo Sergio Miceli, para quem não pode haver estudo sério e fontes documentais com relevância explicativa “sem um cuidado metodológico trivial, que consiste em tentar explicitar as condições de produção das fontes com que lidamos” (MICELI: 2001, p. 349).
       

Não explicitando detalhadamente como as fontes foram produzidas, por quem, com que objetivos, com que premissas e sob qual enfoque, o biógrafo tem poucas chances de produzir algo que não seja apologia (contra ou a favor). Em sendo assim, se não transcendemos a pura apologia, mais ou menos velada, Plutarco continuaria não apenas como um dos fundadores da biografia, mas ainda não superado.

 

 

Sílvio Tamaso D'Onofrio