18/01/2015 Número de leitores: 551

O anacronismo telemático de Mimo Steim

Fábio Oliveira Nunes Ver Perfil

Em 14 de setembro de 2013, um artista chamado Mimo Steim resolveu lançar-se em uma proposta no mínimo provocativa: a partir daquele dia deixaria de lado todas as relações que não tivessem meios tecnológicos a mediá-las, eliminando, consequentemente, todo contato face a face. Lançou-se ainda em um paradoxo propício para o tempo das redes: se por um lado ele está isolado de todos, ao mesmo tempo, está disponível em uma escala global – aliás, parte de sua proposta é permanecer todo o tempo acessível em um chat que ele mesmo teria disponibilizado em seu site pessoal (www.mimosteim.me), nomeando tudo isso como “O artista estah tele presente” (o “estah” grafado assim mesmo, em internetês), em referência clara a conhecida performance da artista Marina Abramovic – The artist is present, apresentada em 2010 no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). No caso de Abramovic, a artista ficou sentada, em silêncio durante três meses, enquanto visitantes revezavam-se em uma cadeira em frente à dela. Troca de olhares, artista muda, nada mais. Steim, ao contrário, só permanecerá em silêncio se ninguém vier a encontrá-lo em seu site: mas tal como Marina, estará lá invariavelmente disponível.


Em uma primeira vista, a proposição de Mimo Steim pode ser vista como bastante anacrônica. Explico: artistas dos novos meios vêm trabalhando com propostas que questionam o tempo real, a distância e a telepresença a mais de trinta anos – no Brasil mesmo, há vários artistas que envolveram-se em experiências telemáticas utilizando slow-scan TV (televisão de varredura lenta), aparelhos de fax e redes digitais, como o Videotexto, quando a rede Internet ainda não havia se popularizado. E mesmo, nos anos 90 do século XX, quando surgem os primeiros trabalhos de web arte, a transmissão de imagens em tempo real é naturalmente uma vertente bastante significativa; o uso de webcams e as potencialidades de ação em espaços remotos via Internet, ocupam os artistas na discussão/reavaliação de conceitos como presença, simultaneidade, ubiquidade, permanência. É claro que ainda hoje qualquer transmissão em tempo real ainda nos causa uma natural atenção: se fosse diferente, não teríamos mais emissoras de TV marcando suas imagens com o selo “ao vivo” – mas, caberia somar a isso nosso desejo contemporâneo de apreensão do agora. Então, seria Steim, um antiquado “artista tecnológico”?


Digamos que o percurso de Mimo Steim também não ajuda muito: antes de acessamos ao chat do artista, podemos navegar por algumas de suas “netarts”, disponíveis no mesmo endereço. Os nomes de suas experimentações são pouco digeríveis como “Indio Warhol” e “O banquete da sociedade dos figurantes”, aqui provavelmente uma referência (descontextualizada) ao crítico Nicolas Bourriaud em Estética Relacional. Ao acessá-las encontramos, associadas uma às outras, assemblages digitais de gosto muitíssimo duvidoso, nas quais o artista provavelmente se apropria de imagens da própria rede Internet. De tão aleatórias, as imagens lembram muito o célebre Net Art Generator, criada pela artista alemã Cornelia Sollfank: “artistas espertos fazem a máquina fazer o trabalho”, diria. Aliás, todo o seu site demostra exagero e certa mitificação de sua própria pessoa. Mas ele não mostra o seu rosto, limitando-se a mostrar o seu braço com os dizeres: eu sou arte. Ou no lugar de sua cabeça, um ábaco. Não seria bobagem associá-lo a um famoso ídolo contemporâneo sem face: o notório artista urbano britânico Banksy, para o qual até hoje se cogita possíveis nomes reais (individuais ou de uma equipe) diante do desconhecimento de sua verdade identidade. Mas ao contrário do grafiteiro britânico, Mimo quer ser polêmico, mas engana-se em uma visão passível de ser julgada como ultrapassada, por ser assumidamente moderna: “quero transformar toda a minha experiência de vida em arte”, daí a intenção de apresentar a si mesmo como “objeto de arte”. Ao mesmo tempo, ao tentar se mitificar recorre a um culto a certa superioridade do artista, destoante das discussões que reposicionam a autoria nos novos meios, visto que o público – ativo, participativo ou interator – ganha valor.


Mas, voltando: seria mesmo Mimo Steim um artista anacrônico? A despeito de todas as questões até aqui pensadas, há que observar a possível consciência do artista sobre estes pontos – e que sua proposta talvez seja muito mais crítica do que parece. Isso é uma hipótese que desconstruiria o que eu disse até aqui. Por outro lado, especialmente no que diz respeito a sua “tele performance” chamada de “O artista estah presente”, há um ponto que merece muita atenção: o artista fala de alcançar um estado “máximo de midiatização” – isso é, de maneira significativa, um dado novo. Explico.


Midiatização é uma denominação difundida entre especialistas da comunicação para discriminar a dimensão mediadora dos meios tecnológicos, como bem determina Muniz Sodré, no livro Sociedade Midiatizada (organizado por Dênis de Moraes, 2006): “trata-se de dispositivo cultural historicamente emergente no momento em que o processo da comunicação é técnica e mercadologicamente redefinido pela informação, isto é, por um produto a serviço da lei estrutural do valor, também conhecida como capital”. Não seria nem um pouco equivocado argumentar que todas as nossas relações mediadas pelas tecnologias estão sujeitas a este entremeio – basta observar como o Facebook busca direcionar os nossos olhares às pessoas que compartilham coisas parecidas, distanciando-nos daqueles que pensam diferente de nós, mas, desta forma, mantendo todos mais tempo conectados, isso para utilizar um exemplo incrustado nas redes. Ao mesmo tempo, há que se observar que os meios ganham cada vez mais um potencial legitimador – se está na mídia, existe. Daí cada vez mais espaço para boatos, calúnias ou fakes de todos os tipos.


Ao propor então, como opção, chegar em um “estado máximo de midiatização”, Steim hiperbolicamente trata de uma existência cada vez mais direcionada pelas tecnologias, sob o risco do nosso domínio sobre uma realidade sensível - a ver como tecnologias móveis ressignificam nossa noção de lugar (com o uso de geolocalização, realidade aumentada, entre outros), na perspectiva de dispositivos cada vez mais implicados na maneira como percebemos a realidade como o fabuloso Google Glass, anunciado como uma revolução neste sentido. Opção que não é nem um pouco fora de moda, pelo contrário. A escolha do artista para trazer metaforicamente à tona esse estado particular de mediação é a linguagem verbal – a linguagem em si é naturalmente uma mediação, diga-se – que, por sua vez, apresenta-se como arremedo da linguagem verbal usada nos meios digitais: Steim não usa acentos e evita letras maiúsculas como referência à submissão do texto às condições técnicas e contextuais dos meios tecnológicos. Isso acontece inclusive em seu chat. A experiência de falar com o artista é uma experiência a parte, que poderia muito bem ser o estímulo para um texto futuro.

 

 



Para acessar:
Site do artista tecnológico Mimo Steim
www.mimosteim.me  

 

Fábio Oliveira Nunes