26/03/2015 Número de leitores: 330

Jacques Tourneur: a nova face do terror

Cláudio Feldman Ver Perfil


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Hoje, quando os filmes de terror são explícitos, sangrentos, estridentes, coloridos de efeitos especiais e imbecis, é bom saber que as películas de Jacques Tourneur eram exatamente o contrário: produções B, em preto e branco, mas sutis, eficazes e inteligentes, que mais insinuavam que mostravam o pavor do desconhecido.

Mas quem é, afinal, o indivíduo citado acima e que, nesta era de inversão de valores (inclusive cinematográficos), quase todos ignoram?

 


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Jacques Tourneur nasceu em Paris, em 1904, fillho da atriz Van Doren e do cineasta Maurice Tourneur. Quando este foi a Hollywood para trabalhar nos Estudios Éclair, em 1914, levou o filho consigo. Jacques, portanto, acompanhou, com muito interesse as realizações paternas, predestinando-se a seguir carreira no Cinema.

E foi o que aconteceu: dirigiu alguns filmes tanto na França quanto nos Estados Unidos, todos francamente comerciais, mas que serviram para seu adestramento expressivo.

Sua grande oportunidade, agora também artística, ocorreu quando o produtor Val Lewton chamou-o para sua série de terror. Aí Tourneur, obscuro diretor de filmes inexpressivos, revelou sua garra para o gênero horrorífico.

Embora sua filmografia contenha notáveis películas de aventuras, como “O Gavião e a Flecha”, ou filmes “noir”, como “Fuga ao Passado”, foi com suas obras de terror que alcançou relevo no

cinema.

 

 

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Em 1941, começou uma das associações mais frutíferas da história de Hollywood, quando Val Lewton comunicou ao amigo Tourneur que ia produzir, para RKO, o filme “Sangue de Pantera” (“The Cat People”)e queria que Jacques o dirigisse. Juntos,retrabalharam o roteiro de De Witt Bodeen, idealizando a história de uma mulher obcecada pelos felinos, que se convertia em um deles ante uma agressão sexual.

O estúdio lhes impunha a protagonista, a francesa Simone Simon, cujo sotaque denunciava sua origem, o que os obrigou a converter a personagem numa mulher estrangeira, vinda de um vilarejo da Sérvia. Do outro lado, o orçamento era muito reduzido, o que obrigou-os a reciclar materiais de outras produções e a utilizar uma fotografia sombria que ocultasse as deficiências de cenários; isto, ao invés de prejudicar o filme, converteu-o em um dos marcos do gênero, pois criou um clima apropriado ao tema, onde tudo era mais sugerido que imposto, deixando a imaginação livre para atingir o terror por conta própria. A sequência mais famosa é, sem dúvida, aquela em que uma das personagens nada solitariamente em uma piscina coberta, enquanto sente a presença próxima de um animal que, na verdade, é a mulher pantera.

Na realidade, não se vê o felino, senão sua sombra projetada de forma difusa na parede. Após ensaiar de diversas maneiras, Tourneur conseguiu o efeito que buscava mediante a sombra de seu próprio punho! Em somente 21 dias, Jacques deu por finalizada a rodagem desta obra-prima, que inaugurou uma nova face do filme de terror: o implícito. (Bem diferente, portanto, da refilmagem de 1982, “A Marca da Pantera”, dirigida por Paul Schrader, onde tudo é óbvio).

Quando os chefões da RKO assistiram à película, já montada, consideraram-na tão estranha que perderam o interesse. Tampouco os exibidores se entusiasmaram e nenhum cinema quis arriscar-se a programá-la. Um deles, voltou atrás e resolveu mantê-la em cartaz por apenas uma semana, pois não tinha nada para exibir durante este período. O êxito foi tão retumbante, que ficou 13 semanas com lotação contínua. O filme havia custado 130.000 dólares, mas arrecadou um milhão, salvando da ruína a RKO, cujas produções não haviam tido um bom ano. Um fator predominante do sucesso foi que, em um país que acabava de entrar na Segunda Guerra Mundial, os espectadores se sentiam atraídos pelo cine de terror.

Por esta razão, Lewton e Tourneur decidiram seguir a trilha do gênero em suas duas colaborações posteriores.



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A seguinte, de 1943, “A Morta-Viva” (“I Walk With a Zombie”), também se converteu em um dos clássicos do gênero e é o filme preferido do diretor. A ideia inicial consistia em realizar uma adaptação inconfessa de “Jane Eyre”, transportando para o Haiti a ação da célebre novela de Brontë.

A este país chega uma enfermeira contratada para cuidar de uma inválida com paralisia nervosa, esposa de um fazendeiro, por quem a mulher de branco se enamora. A profissional descobre que a demente transformou-se em um zumbi, devido a efeitos de vodu.

Ao invés de permitir que a esposa morra para ficar com o marido, a enfermeira decide submetê-la aos rituais vodu dos nativos, para uma reversão. Após uma trama onde não faltam respingos românticos, o vilão morre nas ondas do mar. A sequência mais notável é a da caminhada do título, quando a enfermeira e sua cliente se embrenham numa plantação de cana, topando com um nativo esguio, de olhos esbugalhados. Longe dos excessos fantásticos de outras produções sobre mortos-vivos, o filme de Tourneur resulta surpreendente em seu realismo enxuto, mas sem deixar que hálito do sobrenatural esteja ausente.

 

 

 

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No mesmo ano de 1943, Jacques Tourneur realizou sua terceira colaboração com Val Lewton, “O Homem Leopardo” (“The Leopard Man”). Numa cidade do Novo México, um leopardo, participante de um “show”, assusta-se com som de uma castanhola e foge. A partir daí, várias mortes se sucedem e o animal é considerado o culpado, porém o assassino é uma pessoa com problemas mentais que se usa do leopardo para ocultar seus crimes.

As vítimas são: uma jovem, no cemitério, a dançarina de castanholas, na rua escura, e uma menina. A cena mais notável é a da morte desta. A garota, obrigada pela mãe a comprar algo, após o anoitecer, caminha por ruas vazias, atemorizada. Quando volta para casa,ela sente (e o espectador) que está sendo seguida. Ao chegar à porta da casa, bate, aflita, para a mãe abrir, mas esta demora. A câmera mostra a porta, do lado de dentro, com o som de um rosnado animal e um rasto de sangue que escorre sob ela. Esta elipse sintetiza a estética de Jacques Tourneur (e do produtor Val Lewton). Apesar disto, o filme não obteve o mesmo êxito de bilheteria e crítica dos trabalhos anteriores, desfazendo a dupla.

 



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Somente em 1958, 15 anos após, Tourneur voltou ao gênero terrorífico, com “A Noite do Demônio” (“The Curse of the Demon” ou “ Night of the Demon”, Inglaterra). O filme, que Martin Scorcese coloca entre as 11 melhores películas de horror do cinema, mostra um psicólogo americano que viaja a Londres para desmascarar o líder de uma seita demoníaca, demonstrando que o homem e seus seguidores são uma farsa. Entretanto, diversas mortes acontecem até que o incrédulo se encontre ante o imponderável. Se não fosse a idiotice do produtor, que encartou, sem o conhecimento de Tourneur, a aparição explícita de um ridículo demônio, este filme seria outra obra-prima de terror sutil. Apesar disto, o diretor se esforçou para insinuar a presença de elementos sobrenaturais, pelo qual conseguiu que a maior parte da película fosse memorável. A obra veio provar que, sem Val Lewton (falecido em 1951), Jacques Tourneur também conseguia realizar um filme “com a nova face do terror”.

 

 

 

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Infelizmente, devido a circunstâncias, esta foi a última oportunidade do cineasta de mostrar seu poder fílmico. Depois de dirigir “A Batalha de Maratona”,com Steve Reeves, musculoso ator sem talento (e outras calamidades, inclusive televisivas), Tourneur faleceu na França, em 1977, legando à Sétima Arte diversas obras significativas.

 

 

 

Cláudio Feldman