20/08/2015 Número de leitores: 1083

A propósito de “Desejada Dor”

A. Zarfeg Ver Perfil

Tirei esta tarde domingueira para mergulhar, de novo, no livro de poemas de Bianka de Andrade, “Desejada Dor”.

 

Como sempre, tive que experimentar a dor para, depois, saborear o alívio; tive que enfrentar a tempestade para receber, em troca, a bonança.

 

Em versos em sua maioria discursivos mas não lineares, o livro de Bianka constitui convite especial para os amantes da boa poesia (lembrando sempre o conselho de Mallarmé de que “não é com ideias que se fazem versos, é com palavras”).

 

E Bianka sabe muito bem disso, de sorte que, em 37 poemas, ela nos provoca, machuca, incita e, sobretudo, compartilha conosco a sua (desejada) dor e seu "soll" de cores e delícias.

 

Mais: Bianka nos envolve (prontamente nos deixamos envolver, por que não?) na teia de palavras, diálogos intertextuais e planos fônicos e semânticos, conduzida por ela com visível habilidade.

 

Artesã das palavras que ela é, e sedentos da boa poesia que nós somos – essa parceria só poderia dar nisto: muito prAZer estético.

 

Para ratificar o que acabo de dizer, segue “A partida”, poema em que se percebe um pouco de tudo que foi dito:

 

Ora Circe,

Ora Penélope.

 

Penélope, mas Circe.

Circe, portanto Penélope.

 

Mais Circe que Penélope.

Tão Penélope quanto Circe.

 

Penélope quando Circe.

Circe, embora Penélope.

 

Circe ou Penélope.

Penélope e Circe.

 

Nem Penélope,

Nem Circe.

 

Com certeza, voltarei ao assunto antes que Ulisses retorne de Troia...

A. Zarfeg