20/08/2015 Número de leitores: 862

A menina branca grande e a piscina

Tayson Ribeiro Teles Ver Perfil

 

Eram 16 de fevereiro do ano de 2006, um domingo, quando o menino de 15 anos Roberto recebera pelo telefone fixo de sua casa um convite de seu pai para ir ao clube de associados do trabalho deste. O pai de Roberto, João Cândido, funcionário público lotado em um setor de serviços administrativos do Governo do Estado do Acre, região Norte do Brasil, não era um pai muito presente na vida de Roberto, porquanto se separou da genitora do menino quando este tinha apenas 4 anos de idade. Todavia, sempre que achava por bem – necessário, convidava Roberto para pequenos passeios. Naquele domingo, Roberto fora convidado pelas 8 horas da manha e seu pai havia o dito que partiriam para o clube às 11h, a fim de que lá almoçassem e depois tomassem banho de piscina. João Cândido buscou Roberto em sua casa e pai e filho partiram para o local a ser usado no singelo divertimento daquele dia ensolarado. Ao chegarem ao clube, João Cândido logo se sentou com Roberto em um conglomerado de mesas unidas por vários frequentadores daquele clube – todos amigos de trabalho de João e parentes destes. Havia várias pessoas no clube naquele domingo. Mais de 150 pessoas. João e Roberto comeram um prato de churrasco, conversaram um pouco; João sempre tomando sua cerveja – naquela época a Lei Seca para quem bebia e dirigia não existia com a rudeza dos dias de hoje. Passadas duas horas que lá estavam pai e filho, já tendo Roberto comido uma “Pipoquinha”, um “Esquine”, olhado para homens que jogavam sinuca, chegou ao clube um grande amigo de João Cândido, Merismar, o qual trouxe consigo seu filho Jackson. Roberto e Jackson se conheciam de vista, pois seus pais trabalhavam no mesmo setor da repartição pública na qual estavam lotados. Como Merismar e Jackson já foram ao clube “almoçados”, Merismar logo se sentou e começou a tomar cervejas com João Cândido. Roberto ainda sentado, vendo e analisando o comportamento de todas aquelas pessoas, que, na simplória visão dele, extravasavam o cansaço pela semana de trabalho contentando-se com um simples prato de churrasco e um banho em um buraco cavado no chão rodeado de cimento e azulejo, recebeu um convite de Jackson para entrar na piscina. Roberto não se lembrava da última vez que tinha entrado numa piscina. Pelo fato de seus pais terem se separado quando ainda era um infante, Roberto nunca foi de sair muito, seu pai era ausente, sua mãe laborava o dia inteiro como doméstica para prover-lhe as necessidades e ele ficava a maior parte do tempo sozinho em casa. Roberto aceitou entrar na piscina; por não ter levado sunga – por não usar com constância tal tipo de veste nem o tinha em sua simplória cômoda de roupas, ingressou à água de “short” mesmo. Jackson sabia nadar, tinha 17 anos; nadava e conversava com Roberto. Aqui e acolá exalava conjuntos de vocábulos produzidos em formato de histórias curtas sobre “minas”, “peguetes”, “gatas”, enfim mulheres, que alegava ter ou estar pegando. Roberto era uma criança e apenas ouvia; em seus modestos 15 anos, a maioria deles preso em casa esperando sua mãe retornar do oneroso trabalho doméstico extradomiciliar, ainda não tinha experimentado nenhuma fantasia análoga às contadas por Jackson. Na piscina, Jackson elogiava mulheres que lá estavam, piscava – hoje em dia não se faz mais isso, paquerava e comentava com Roberto sobre a beleza corporal daquelas moças que tratava como “fêmeas”. Roberto apenas auscultava-o, não tinha o que comentar – era virgem de corpo e de boca. Nada sabia sobre fantasias, desejos. Jackson nadava e retornava para contar novas histórias. Roberto não sabia nadar, ficava fixo, inerte encostado a uma das laterais da piscina. Roberto naquele momento jamais teve inveja de Jackson por sua desenvoltura e por suas histórias. Roberto era virgem, nunca havia sequer beijado uma moça, mas achava isso normal - não contava a ninguém apenas para não ser considerado diferente e ser, eventualmente, aviltado. Deveras, não tinha inveja de Jackson e de seus “causos”. Roberto tinha a consciência de que um dia teria desejos, conheceria e se relacionaria com mulheres, seu pai o havia lhe dito isso em data pretérita. Todavia, acreditando que passaria ainda algum tempo sem sentir desejos e atração por mulheres, vivendo apenas para os estudos e para os pequenos serviços domésticos que fazia para adjuvar a mãe no dia a dia, Roberto fora surpreendido quando abruptamente ingressou à piscina uma moça enorme, branca como o cloro daquela água, vestida com um biquíni preto estilo “fio dental”. Roberto já havia visto mulheres lindas antes, mas olhar para o imenso corpo daquela mulher foi deveras impactante para ele. Os cabelos da moça eram enormes, esta possuía seios fartos; uma musculatura nadegal redondíssima. Roberto naquele momento pela primeira vez em sua vida desejou uma mulher. Ao olhar para a moça nadando Roberto sentiu seu corpo responder aos estímulos que penetravam por suas retinas. Na visão de Roberto, a moça era doce, possuía ternura e meiguice inefáveis. Em 2 min de observação daquele corpo Roberto estava apaixonado e não sabia ele que jamais aquela moça sairia de sua mente. Roberto olhou para a moça e, por suas pernas estarem bandas de tanto nervosismo, resolveu sentar na escada da piscina. Jackson que estava nadando e distante de Roberto resolveu sair da piscina para ir tomar um refrigerante. Roberto perpetuou-se na escada e tomou um susto quando viu a moça grande, de brancura incomparável – parecia uma boneca, aproximar-se de sua direção com um sorriso enorme nas faces. A moça andou na piscina rumo à escada e sentou-se ao lado de Roberto. Pensou ela que ele era um homem, um jovem – Roberto, malgrado com apenas 15 anos, tinha um corpo grande, aparentava ter 18, 19 anos, e iniciou uma conversa com Roberto. Disse a moça “Oi, tudo bem?”. Roberto viu em sua faringe a falta de vocábulos e depois de vários segundos conseguiu dizer um “Oi”. A moça disse “Meu nome é Carolina e o teu?”. Roberto disse a ela seu nome. Ela o perguntou se ele estava gostando de estar lá, ele assentiu que sim, o sol e a piscina estavam abradáveis. Indagou ela o porquê de ele lá estar, se algum de seus familiares trabalhava no governo do Acre ou se estava acompanhando algum conhecido de alguém; ele a respondeu que seu pai trabalhava em um órgão administrativo do governo. Ela disse “Haa legal, minha tia é enfermeira do governo”. Os dois conversaram por um tempo, perguntas coloquiais e monótonas (as de sempre). Todavia, a moça ao dizer-lhe que tinha 17 anos, o fez uma pergunta fulcral: “Quantos anos você tem mesmo?” Roberto engasgou. Nos pensamentos confusos de sua mente, não acreditando estar do lado de uma moça tão linda como aquela e conversando com ela, pensou que se dissesse ter 15 anos seria rejeitado, então disse ter 18. Carolina disse “Haa, legal, então se já dirige e pode me levar ao cinema heim?”. Roberto quase enfartou. Sabia como eram as conversas de homens e mulheres interessados um no outro apenas do que havia visto na TV. Não sabia ser comum as mulheres interessadas em homens os “cantarem” – aliás, Roberto nem sabia se Carolina estava nele interessada (Roberto não sabia de nada). Roberto apenas disse “Pois é” e riu. Carolina então pediu para que Roberto passasse protetor solar em suas costas. Para tal, deitou-se em uma das bordas da piscina rente à escada. Roberto, desprovido de muito entendimento do que representava aquela situação, apenas obedecia à moça grande, que agora sabia se tratar de uma menina de 17 anos. Roberto molhou as mãos com o creme de Carolina e passou-as sobre as cotas da enorme moça. Roberto, no âmago daquela espécie de “massagem” que fazia sobre as costas da menina grande, branca e doce, como ele imaginou, não pensava em nada. Em sua mente não havia qualquer pensamento libidinoso. Roberto apenas estava gostando da companhia de Carolina e dela não queria sair de perto. Entretanto, após a moça “pegar” uns 20 min de sol, despediu-se de Roberto. Carolina pediu o número de telefone celular de Roberto, este desconversou e disse que estava sem telefone – Roberto não tinha telefone, pois sua mãe doméstica ainda não tinha tido condições pecuniárias de lhe dar um aparelho telefônico e seu pai era ausente e não se importava com os anseios do filho, o usando apenas para desfilar pela sociedade propalando ser um “bom pai”. Carolina então pegou um guardanapo que estava sob uma das mesas localizadas no interior da área da piscina e com a caneca que prendia seu cabelo, que havia pegado em sua bolsa após parar de mergulhar, anotou seu número de telefone e entregou a Roberto. Disse-lhe que já ia embora, pois sua tia já havia acenado sobre o fato de já irem embora. Carolina deu um beijo no rosto de Roberto e disse-lhe que aguardaria sua ligação. Roberto atordoado, sem acreditar que conversou com aquela moça sem ter precisado erigir esforço algum – foi ela quem sentou ao seu lado e eliciou uma conversa, disse que tudo bem, depois a ligaria. Imediatamente, após Carolina sair da piscina Jackson retornou do bar onde fora tomar um refrigerante e, ao ingressar novamente na piscina, comentou com Roberto: “Cara, cê viu aquela gata, uauuu, que TOP, haaa se eu pego” – Jackson não viu nada do que tinha acontecido entre Roberto e Carolina. Roberto disse: “vi sim, é uma linda moça”. Roberto ficou mais um tempo na piscina com Jackson e após saiu; secou-se e esperou seu pai terminar uma cerveja para irem embora. Roberto guardou o pequeno guardanapo com o número de Carolina em sua bermuda e não conseguia parar de pensar naquela linda menina, branca, de cabelos longos, corpo imenso. Roberto não acreditava que tinha tocado naquele corpo. Ainda conseguia sentir a pele de Carolina nos epitélios de suas mãos. Seu pai terminou a cerveja, despediu-se dos amigos e partiu com Roberto para deixa-lo em sua casa. No caminho, perguntou ao filho se ele havia gostado do passeio. Roberto, em um misto de êxtase e medo reprimido disse que sim, adorou o passeio. Naquele momento, próximo a sua casa, Roberto pensou em dizer ao pai o que havia acontecido e pedir-lhe conselhos de como agir, como ligar para Carolina, o que dizer, como contar a ela que não tinha 18 anos etc. Porém, teve vergonha de contar a seu pai que nunca tia nem ao menos beijado uma moça. Os dois chegaram frente à casa de Roberto, este se despediu de seu genitor e entrou em casa. Roberto passou duas semanas pensando toda hora em Carolina. Mas, Roberto não tinha ideia de como proceder. Em sua humilde casa havia telefone fixo, mas este tinha chave e apenas sua mãe o usava – ele apenas recebia ligações. Roberto então se lembrou de ter 20,00 reais guardados dentro de uma gaveta que sua tia Gênova, irmã de sua mãe, outrora lhe deu em carinho por ser o sobrinho tão estudioso. Roberto pegou o dinheiro e comprou no mercantil próximo a sua residência um cartão de telefone público (orelhão). Pegou o número de Carolina, ligou e, sabendo que por estar ligando de um orelhão para um celular seus créditos logo acabariam, depressa disse: “Oi Carolina, aqui é Roberto, do clube, tudo bem?” A moça lhe disse: “Roberto, quem? Não me lembro! Roberto retrucou com a primeira coisa que lhe veio à mente (na verdade o que não saia de seu cérebro): “Passei protetor nas suas costas!”. Carolina disse: “Haaa, oi menino, tudo bem sim, deixa eu te dizer eu e meu ex-namorado voltamos semana passada então vamos ter que cancelar o cinema tá. Beijoooo, Tiau”. Antes que pudesse dizer adeus, Roberto teve a ligação cessava por Carolina. Para a moça, Roberto era apenas mais um pretendente que a ligara interessado em sair, ir ao cinema, transar, ir a uma balada etc. Para Roberto, Carolina era seu primeiro amor. Ele havia tocado seu corpo e jamais esqueceria daquela sensação. Roberto não queria nada de Carolina. Ligou-a apenas movido pelo instinto de querer novamente estar perto daquela menina branca grande que conhecera em uma piscina. Carolina não sabia, mas estava fazendo Roberto sofrer pelo resto de sua vida. Roberto cresceu, beijou moças, deixou de ser virgem. Seus estudos lhe renderam um emprego fixo no governo. Aos 19 anos de idade saiu de casa, financiou um apartamento, comprou um carro. Aprendeu a conhecer mulheres, a amar, a ser “homem” – chegou até a machucar emotivamente algumas moças. Mas, não pode nunca mais ver Carolina, porquanto seu número não atendia mais e nunca a viu no clube do trabalho de seu pai outra vez. Tentou descobrir o nome da tia da moça com seu pai, mas não adiantou, pois várias enfermeiras frequentavam o clube na época em que Roberto tinha 15 anos e seu pai não conhecia todas as pessoas que lá iam. Roberto hoje tem tudo. Pode conquistar todas as mulheres que deseja (as que são possíveis e vivem em sua realidade), mas se pudesse trocaria tudo o que já viveu pela oportunidade de reencontrar Carolina, sua eterna menina branca, grande e sorridente. Porém, a vida trai Roberto e não o deixa encontrá-la. Talvez a vida o esteja livrando de mais uma decepção. O importante é que Roberto teve sua vida modificada por Carolina. Roberto por ela teve uma amor puro. Desde 2006, Carolina todos os dias habita as concepções cerebrinas de Roberto, que a terá para sempre como a menina branca grande. Roberto é mesmo um infame garoto. Ainda é um infante. Não compreende depois de anos que Carolina foi apenas um sonho entre tantos outros. Sonhos, devaneios, êxtases, exíguas felicidades e perenes decepções; estas inconstantes palavras são o escorço da vida de Roberto e de todos os homens do mundo. 

Tayson Ribeiro Teles