26/08/2015 Número de leitores: 1223

Relendo “O País do Carnaval”, de Jorge Amado

A. Zarfeg Ver Perfil

O primeiro romance oficial de Jorge Amado fundamenta-se em Paulo Rigger, que, após uma temporada na Europa, volta ao Brasil, em pleno Carnaval, disposto a fazer sucesso por aqui como político ou escritor. Funda, com alguns amigos, o jornal “Estado da Bahia”, decepciona-se e, em pleno Carnaval, retorna à Europa, agora decidido a esquecer o Brasil de uma vez por todas.

 

Dividido em 16 capítulos, O País do Carnaval já traz em suas páginas a marca que haveria de fazer de Amado o primeiro escritor brasileiro mais lido dentro e fora do país. Ou seja, a deficiência de uma análise psicológica dos personagens é ricamente compensada por um lirismo gostoso de se ler e, também, por um realismo comprometido com as questões sociopolíticas da Bahia e, por extensão, do Brasil. Por isso mesmo, é preciso que nos detenhamos um pouco mais no binômio lirismo/realismo, tão caro à obra amadiana.

 

Em seu livro de estreia, o jovem escritor já anunciava o que seria um dos pontos basilares da sua narrativa: o sentimento lírico. Com efeito, esse romantismo sensual e apimentado renderia à literatura brasileira obras do quilate de “Mar Morto” e “Gabriela, Cravo e Canela”.

 

Em O País do Carnaval, esse mesmo lirismo, aliado aos acontecimentos de cunho político dos anos 30 do século passado, constitui o pano de fundo para a história de Paulo Rigger – baiano herdeiro da aristocracia do cacau que, a despeito da formação intelectual europeia, guia-se no mundo pela sensação e pelo sentimento de amor, próprios dos latinos. Estereótipo do brasileiro que experimentou todo tipo de aventura amorosa, Rigger resolve condicionar sua felicidade ao amor de uma mulher, à tranquilidade de um lar burguês. Essa busca, no entanto, torna-se-lhe repleta de altos e baixos. Ou seja, na tentativa de encontrar o amor verdadeiro, Rigger se expõe à dor das traições e ao trauma das decepções sentimentais e, no fim, longe de saciar sua sede de amor e felicidade, converte-se num homem ainda mais triste e infeliz neste imenso país do Carnaval.

 

Aliás, a mesma procura desesperada de Rigger pelo amor/felicidade é também partilhada, em maior ou menor proporção, pelos companheiros de aventura José Lopes, Pedro Ticiano, Ricardo Brás e Jerônimo Soares. Juntos, eles protagonizam uma discussão político-existencialista sem precedentes sobre a natureza do povo brasileiro, passando em revista todos os valores da sociedade tupiniquim: sua política, cultura e arte. Vale lembrar que todas essas preocupações são ambientadas no agitadíssimo ano de 30, quando as forças revolucionárias, lideradas por Vargas, assumem o poder, derrubando para sempre a República do café com leite.  

 

É nesse clima de agitação que se dá a história de O País do Carnaval. E aqui entra outro elemento marcante na criação do escritor baiano: o neorrealismo.

 

Com razão, o autor de O País do Carnaval faz parte de um grupo seleto de escritores que transformaram definitivamente em tema o universo brasileiro. De modo que, já na sua estreia, o romancista se propõe a criar uma literatura genuinamente nacional embasada na nossa experiência como gente, nação. Tal preocupação com o Brasil real, já no primeiro romance, fica em evidência. Lá estão os conflitos que afligem o homem brasileiro, como os embates entre situação e oposição pelo poder, o arrivismo político, o fascínio das massas pelo Carnaval... Assim, comprometido com as questões sociais, o escritor grapiúna se inspira na nossa dor/alegria, para produzir uma literatura ágil e documental.  

 

Pouco ousado do ponto de vista formal, Jorge Amado pretende tão somente contar a história de Rigger e seus amigos (essa característica, que acompanhou a carreira literária do escritor, lhe valeu alguns juízos maldosos da crítica). Realmente, O País do Carnaval está muito aquém do experimentalismo radical do romance “Memórias sentimentais de João Miramar”, de Oswald de Andrade.

 

Em contrapartida, livres da imposição da gramática, seus personagens se comunicam com simplicidade, fazendo-se entender por meio de diálogos coloquiais e diretos. Verifica-se, portanto, a vitória do coloquialismo do presente sobre a sofisticação vocabular do passado. Isso é fruto das conquistas do modernismo, com as quais o romancista baiano se mostra antenado, optando por retratar com fidelidade este país cheio de contrastes, de desafios, mas também dono de uma cultura exuberante. Por outro lado, o que falta em termos de verticalidade nas personagens amadianas, sobra em sensualidade – expressão maior da baianidade.

 

Além do mais, com O País do Carnaval, Jorge Amado se apresenta como um grande interpretador deste país de carnavais. Aliás, nos últimos oitenta anos, ele escreveu mais de três dezenas de obras, sempre preocupado em fazer uma leitura engajada do nosso jeito brasileiro de ser. De todas essas obras, emerge a figura de um Brasil verdadeiro, cheio de crenças e lendas, que esse “baiano romântico e sensual” soube contar como ninguém. Hoje, graças à obra amadiana, a literatura verde-amarela conquistou leitores e prestígio internacionais, exportando nossa riqueza cultural para os quatro cantos do mundo, mas sem prescindir da denúncia de nossas mazelas atávicas.

 

O romance de estreia de Jorge Amado, portanto, deu início a uma tradição literária cujo objetivo não é outro senão fazer do Brasil um país conhecido e admirado por todos.

A. Zarfeg