27/08/2015 Número de leitores: 1658

Quando setembro chegar...

A. Zarfeg Ver Perfil

O quid agis? – Horácio

 

eu quero estar preparado pra dizer tudo que está preso na garganta, faço questão de gastar verso por verso do meu latim vulgar, pra gritar as verdades que tenho colecionado nestes tempos bicudos, de noites mal dormidas, pesadelos intermitentes, expectativas traídas e decepção filha da mãe, assim espero fazer nem qu’eu tenha que romper o gogó botando pra fora um aurélio de imprecações, desaforos mas também desabafos qu’eu tenho engolido contra minha vontade e índole, com certeza vou cometer uma série de desatinos ainda qu’eu tenha que me implodir por inteiro, rompendo grilhões, vasos e sonhos, botando pra fora tudo aquilo que meus irmãos não tiveram coragem de dizer, vou gritar tudo aquilo que meus compatriotas não conseguiram rechaçar, que vocês – fulanos, beltranos e sicranos – preferem esconder do povo não pra protegê-lo mas pra se beneficiar usando tal estratégia em proveito próprio pra viver no bem-bom, enquanto os pobres-diabos são atirados à própria sorte, humilhados e espezinhados, nesse cadinho de palhaçadas curtidas anos a fio, mas eu sei que o maior culpado disso tudo é você, esperança, que não presta, nunca prestou e agora, pela enésima vez, passa bosta na boca dos da silva, mas eu não estou aqui pra engolir tanta provocação, tanta indignidade, tanta sujeira e merda juntas, como s’eu também fosse um fdp que não merece ser considerado herdeiro da espécie humana que usa dez por cento da sua capacidade animal, mas no fundo eu sou isso mesmo, ora, pois é assim que você, puta velha, espera qu’eu me veja e me sinta pro resto da vida, e assim será até setembro chegar...

 

porque eu já estou farto de tanto conto do vigário lesa-pátria tanta armação ilimitada e safadeza pra cima dos que menos podem dos que nunca tiveram voz nem vez nem como reagir à tamanha falta de vergonha na cara e mau-caratismo oficiais daqueles que deveriam zelar pela coletividade/alegria pelo bem comum da respublica em vez disso não fazem nada ou melhor fazem tudo e muito mais destruindo a ética cuspindo nos bons costumes reduzindo todos a estrume coisa de somenos valia deixando a nação morrer à míngua com a língua de fora arquejando feito uma cadela sarnenta que tem que morrer na sarjeta enquanto você, esperança, se dá bem em janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto...

 

mas, quando setembro chegar, quando chegar setembro, eu vou gritar firme e forte, ainda que tenha que fazê-lo em língua morta, qual seja, na língua daqueles que desistiram de lutar, em tupi-guarani, itanhém, pedra oca, saravá,  qu’eu vou fazer o cabra da peste sambar no meio do redemoinho de termos chulos expressões discursos sem vênias deferências ou sentimentalismo, pra fazer frente à indignidade nacional, lançar meu desdém na cara da desfaçatez canalha daquela que, escolhida para liderar um período de bonança e abastança, liberdade e alegria, acabou liderando um complô maior que o do vil macbeth contra a nação que continua sem resolver o velho problema de identidade adiado há séculos, numa armação reinventada com tintas de modernidade que não tem outra serventia senão nos empurrar intimidados acovardados ao sem-volta dos quintos

 

porém, quando setembro chegar, eu vou incendiar o país porque junto com a primavera virá a beleza (o belo salvará o brasil?), o perfume das flores (pra não dizer que não falei delas!) e, especialmente, a espada da coragem, pois eu vou precisar disso pra desafiar os picaretas, senhoras e senhores, quando será rompido o longo interstício de passividades e declarado o primeiro round do ódio que vai se propagar pelos quatro cantos da nação em cadeira de rádio e televisão, eis meu poema sujo, meu porradão sonoro, poetando a exclusão social dona de todos os índices de audiência desta terra de facínoras duma figa, porquanto o cidadão vai falar, minha gente, vai gritar berrar ladrar vagir urrar esgoelar por todas as humilhações, crueldades e injustiças cometidas contra nosotros que, de esperançados, acabamos vítimas fáceis da desdita, da traição e da canalhice, vai dizer não às irregularidades perpetradas à luz da manhã inocente horário nobre conivente ou calada da noite mais traiçoeira contra o erário indefeso, a frágil e vulnerável caixa-forte respublicana, vai dizer não ao cinismo dos que deveriam se apresentar com a cara da seriedade

 

por tudo isso, a minha reação implacável e dilacerante, pois você, esperança, não é digna de beijar a sola do pé-rapado que mendiga de norte a sul deste país carregando na corcunda os efeitos da corrupção assassina, você não merece um grama que seja do respeito e consideração da massa maltrapilha e faminta, você, canalha, corrupta e fdp, mas a ignomínia não há de me abater qu’eu estarei blindado com a armadura do verbo, a inspiração não há de me faltar na hora h, quando setembro chegar, quem não cagar nas calças vai comemorar, quando setembro chegar, nós vamos à forra, se vamos, ainda que disparando palavras ao léu, semeando grãos de revolta que nunca vão germinar / companheiro

A. Zarfeg