06/09/2015 Número de leitores: 784

Conto da devoção

Lucas Mendes Ver Perfil

Eu era feliz. Eu era saudável. Eu tinha tudo.

            Morava em uma bela casa em um condomínio com minha esposa, Lilian. Vivíamos sozinhos, éramos um casal jovem. Um casal jovem, mas que se amava. Nos conhecíamos por 15 anos. A amava desde o momento em que a havia conhecido. Meu mundo era perfeito. Era um escritor psicanalista conhecido, e recebia bastante dinheiro pelas minhas publicações. Acreditava que nada estragaria minha vida. Até aquele momento.

            Estávamos eu e Lilian, numa consulta médica, ela já não se sentia bem há alguns meses, mas dizia que não era necessária a consulta médica. Até que ela já não aguentava mais as dores abdominais e resolveu consultar o médico. Quando meu mundo foi ao chão. Ela fora diagnosticada com câncer renal, e no estágio que havia chegado, a cura era praticamente impossível. Não tinha reação. Tudo aquilo na semana de publicação de meu quinto livro, que se tratava justamente sobre comportamento humano diante a perda de entes queridos.

            Alguns meses depois, minha querida veio a falecer. Ela usava um belo vestido vermelho em seu enterro, que combinariam com suas maçãs do rosto, quando viva. Me isolei de qualquer parente, fosse dela ou meu, queria estar comigo mesmo naquele momento, ninguém me entenderia. Voltei para casa. Pela primeira vez, eu estava sozinho. Tranquei o quarto em que dormíamos, guardei meus pertences no quarto de hóspedes e fui para o escritório. Assentei-me diante meu computador para escrever algo, mas não conseguia extrair nenhuma ideia. Saí para tentar espairecer a mente, mas nada me fazia esquecer a perda dela. Já não conseguia ter mais um contato social saudável. Logo eu, um psicanalista. Minha vida real era uma droga. Quando decidi experimentar a vida virtual.

            Lembrei-me de algumas conversas que tivera com um amigo meu, um analista de sistemas. Ele havia me explicado muitas coisas sobre as “camadas” da internet, e o que eu poderia fazer na chamada “deep web”. Decidi tentar esse mundo digital. Fechei as cortinas, para escurecer o escritório e eu não ter de me preocupar com horário. Comecei apenas com alguns sites e fóruns que já conhecia, sobre religião, psicanalise depressão e assuntos relacionados. Depois fui me guiando por caminhos do ritualismo, criptografia para sites que se escondiam mas eu gostava de acessar, já não utilizava-me mais de dinheiro real, somente de bitcoins, e o mundo acreditava que eu estava recluso para um tratamento de depressão devido à perda de minha esposa. Seis meses haviam se passado. Eu não ligava, mantinha hábitos rotineiros, nada havia mudado. E mantive assim, como acreditava.

            Quando finalmente quatro anos havia se passado, resolvi levantar a cabeça para além de meu monitor, ver o mundo. Comecei abrindo as cortinas, já muito empoeiradas. Já era fim de tarde, mas mesmo assim o sol cegou meus olhos. Fui ao banheiro, lavei a face e me olhei no espelho. Estava pálido, os olhos fundo e com grandes olheiras, os ossos à mostra devido à baixa nutrição. Eu estava doente. Física e mentalmente.

            Minha vida real de nada valia, não me relacionava com pessoas de forma normal. Minha vida virtual me transformara em um enfermo. Minha vida de mais nada valia. Já era hora de acabar. Existia um sedativo, utilizado para esquizofrênicos, que em grande quantidade, poderia parar meu coração. Naquele mundo virtual, poderia adquiri-lo sem grandes dificuldades.

            Alguns dias depois, o produto estava em minhas mãos. O ingeri, e o gosto amargo era ruim. Mesmo assim consumi um frasco inteiro, deitei-me na cama em que dormia com minha amada esposa já morta há anos, e lentamente fechei os olhos enquanto o calor dominava meu peito e então se dissipava, junto à minha consciência.

Lucas Mendes