08/09/2015 Número de leitores: 1761

Belo Belo, de Manuel Bandeira

A. Zarfeg Ver Perfil

“Belo belo belo,

Tenho tudo quanto quero.

 

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.

E o risco brevíssimo – que foi? passou – de tantas estrelas cadentes.

 

A aurora apaga-se,

E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

 

O dia vem, e dia adentro

Continuo a possuir o segredo grande da noite...”

 

Manuel Bandeira é o nosso maior poeta lírico e esse lirismo decorre essencialmente da luta que travou, durante toda sua vida, contra a tuberculose, doença então tida e havida como incurável.  Quantos poetas, sobretudo românticos, perderam a vida precocemente vitimados por esse mal? Agora, imaginemos alguém que, embora marcado para morrer na flor da idade, conseguisse atingir 82 anos de idade? Pois MB conseguiu essa façanha. Daí a alegria dele em cantar a vida, sem deixar de provocar a morte com a vara curta do lirismo.

 

Belo Belo trata disso. No poema, Bandeira retoma temas importantes de sua vida, especialmente sua juventude, deixando transparecer uma nostalgia das coisas boas, como Recife, sua terra natal. Mas, nele, há também marcas do cotidiano, até porque estamos diante de um poeta observador que interpretou como poucos o mundo à sua volta, privilegiando as coisas simples, o prazer de viver, a comunhão com as pessoas (o bicho homem também). Parodiando Guimarães Rosa, nada de humano é estranho a Manuel Bandeira.

 

Dessa maneira, com simplicidade, mas, sem prescindir da reflexão, Belo Belo nos brinda com um mundo ideal que renega as coisas ruins e celebra as belas.

 

Como a lírica de MB se funda na nostalgia, nos alumbramentos e nas emoções fortes (talvez por causa da luta com a “Indesejada das gentes”), em Belo Belo o artista opta por uma temática voltada para a juventude, uma fase ideal e feliz, ou mesmo para um estilo de vida desejado por ele. Nisso, aliás, fica patente outra preocupação constante na obra de Bandeira, qual seja, a transitoriedade da vida.

 

No entanto, o poema sinaliza também o momento em que o poeta se encontra com a maturidade, a paz de espírito, desapegado das coisas sofisticadas ou disputadas. Afinal, ele quer apenas “a delícia de poder sentir as coisas mais simples” da vida.

A. Zarfeg