13/09/2015 Número de leitores: 1201

SÃO FRANCISCO DE ASSIS: FILÓSOFO E CIENTISTA

Marcelo Moraes Caetano Ver Perfil

Algumas pessoas do meu convívio mais íntimo me questionam sobre como eu, sendo cientista e filósofo, posso ter tanta devoção por São Francisco de Assis. Uma vez mesmo, eu conversando com um tio da Bélgica, que é um grande pensador, ele me mostrou um trecho de Bertrand Russell em que ele, defendendo o livre pensamento e o apanágio da dúvida para o desenvolvimento da ciência e da filosofia, retrucava o verso do "Cântico do Sol" de São Francisco que diz: "Onde houver dúvida, que eu leve a fé". Sobre isso, Russell tece uma dura crítica em que afirma: "O que os homens de fato querem não é o conhecimento, mas a certeza."

 

Segundo a análise de Russell, que é talvez o filósofo que eu mais respeite ("respeitar" é a palavra exata), o "sono dogmático" de que Kant falava (a "certeza" como inimiga do "conhecimento"), que precisou ser extinto para criar a "crítica da razão pura" e, portanto, a filosofia, a ciência e a filosofia da ciência (epistemologia) modernas, seria de certa forma estimulado pelo pensamento de São Francisco. Também o "Aufhebung" de Hegel ("a suspensão do ideal") seria ferido com essa fidelização apriorística aparentemente intrínseca nas palavras de São Francisco.

 


Respondi ao meu amado tio: a concepção de Russell estaria completamente correta se três fatores não fossem levados em consideração.

 

 

O primeiro diz respeito ao fato de que a única formação verdadeira do conhecimento humano (e reitero que Russell é defensor do conhecimento, não da certeza) nasce da dialética; somente a dialética e seus opostos têm o condão de criar cognição em seu sentido mais largo. Portanto, a dúvida deve existir, sim, como apanágio da ciência e da filosofia, mas a fé também (não a "certeza", mas a fé, que se aproxima muito mais da utopia e da esperança, da "aposta", até da idealização apriorística rechaçada por Hegel, concordo) a fé também deve existir como apanágio da própria ciência e da filosofia, porque se eu, como cientista ou filósofo, não tiver fé até mesmo na dúvida que formulo, não apenas no resultado que pretendo atingir, nada criarei, a nenhuma conclusão, sequer provisória, chegarei.

 

O segundo fator que me veio à cabeça foi um trecho da "Ciência da Lógica" de Hegel, que sei de cor: "Assim como o entendimento pode ser considerado separado da razão, a razão dialética pode ser considerada separada da razão positiva. Porém, em sua verdade, a razão é espírito, e o espírito [por isso sua principal obra se chama "Fenomenologia do Espírito"] está por cima de ambos (do entendimento e da razão), e pode ser concebido como razão que entende ou como entendimento que raciocina." Ou seja, uma parte da nossa razão assenta no positivismo, que muito se aproxima da fé. Sem esse polo, não haveria o espírito de que Hegel fala, porque não haveria o complexio oppositorum necessário para a forja ígnea da dialética.

 

O terceiro fator é quase uma ironia no sentido socrático ("ironia" é palavra grega que compartilha raiz com o verbo "perguntar"). Eu pergunto, portanto: se é preciso que se duvide de tudo para que a ciência e a filosofia caminhem, em algum momento não será inevitável que duvidemos de algumas dúvidas? Seria exatamente nesse feixe de luz quântica que surgiria a fé, inesperada como a brisa que balança a folha e que, sem poder ser vista, pode ser verificada não de modo imediato, mas de modo mediato, comprovado pelo bailar da folha.

 

Em resumo: São Francisco não é um estimulador da inércia, do "sono dogmático", um suposto inimigo do livre pensamento, da filosofia e da ciência. Ele apenas foi brilhantemente (eu diria até cientificamente e filosoficamente) dialético ao exprimir o verso "Onde houver dúvida, que eu leve a fé", porque, ao evocar o oposto da dúvida, fundamental para ciência e filosofia, razão, entendimento e raciocínio, o que São Francisco fez foi prover a epistemologia (filosofia da ciência) da sua antítese igualmente necessária para que atinjamos o espírito de que Hegel falou, que é "a razão que entende e o entendimento que raciocina".

 

E ainda porque (e meu tio e eu concluímos juntos a dialética São Francisco-Bertrand Russell), no fundo, as dúvidas são meras técnicas provisórias e estrategicamente artificiais cujo objetivo último é a produção da fé, ainda que uma fé provisória, que venha a ser substituída, na ciência e na filosofia. O salto ao abismo de que Russell fala, quando se refere à coragem e ao destemor necessários ao pensador, é também a síntese da dúvida com a fé, que São Francisco expressou. É o ato puro, quase desprovido da razão de que Hegel falou, quase um "Aufhebung" às avessas. Não é à toa que Russell tenha sido professor de Wittgenstein, e que este tenha sido basicamente o fundador da ciência da Pragmática, e que, nada paradoxalmente, tenha como um de seus mais famosos aforismos das "Investigações filosóficas", que ele teceu como intertextualidade com as "Investigações Lógicas" de Edmund Husserl (que analisou o que viria a ser uma gramática sistêmico-funcional muito antes de Halliday) o seguinte: "O ideal está na gramática. Não existe nada lá fora. Lá fora falta o ar" ( § 103 das "Investigações" de Wittgenstein).

 

Nós duvidamos porque temos necessidade de ter fé, e de ancorá-la na exclusão de incertezas que o exercício da dúvida propicia. "O indispensável é o absoluto" -- foi o que disse kierkegaard. E nós temos fé porque temos necessidade de duvidar, e toda dúvida se lastreia em algum momento no salto ao abismo, no ato puro, pragmático, que se aproxima muito da fé no sentido filosófico e científico, sem a qual filósofos e cientistas quedariam no tão indesejável sono dogmático, por medo de avançar. Para ter dúvida, é necessário ter fé. E vice-versa.

 

São Francisco de Assis é, portanto, inelutavelmente simples em seu método científico e filosófico.

 

Se a fé sem "a razão que entende e o entendimento que raciocina" é temerária e tende a ser fortemente injusta, "a razão que entende e o entendimento que raciocina" sem a fé serão limitados e paralisados em algum momento. Isso é filosofia, é ciência e é filosofia da ciência.

Marcelo Moraes Caetano