16/09/2015 Número de leitores: 867

Um Real

Nãna Damino Ver Perfil

Um Real era um moço com uns trinta e poucos anos, que morava em uma pequena e simples cidade do interior de São Paulo. Ninguém sabia seu nome e a única coisa importante para o povo de Cruzeiro era fazer piadinhas e atormentá-lo.

Sabia-se pouco sobre ele, mas era fato que tinha algum tipo de doença mental, pois seu comportamento era estranho, suas feições eram diferentes e falava muito sozinho.

Todos os dias o rapaz acordava cedo e saia de sua pobre casa, andando e tocando a campainha nas casas, aleatoriamente.

— Tem um real?

Muitas pessoas davam o dinheiro, outras diziam as tradicionais frases:

— Vai trabalhar vagabundo!

— Vê se não toca mais aqui!

Um Real tinha uma particularidade, não aceitava moedas.

Sempre que recebia sua nota, abaixava a cabeça e falava algo baixinho, que ninguém ouvia, mas, quando não lhe davam o dinheiro, olhava fundo nos olhos da pessoa, lacrimejando os olhos, cerrando os dentes e esbravejando em tom nervoso, também sem que ninguém entendesse nada.

Ninguém sabia o que fazia com o dinheiro, nunca ninguém tinha entrado em sua casa e também não conheciam nenhum parente dele. As únicas cenas em que podia ser visto eram: tocando a campainha das casas, comprando comidas no mercadinho, comprando remédios na farmácia, entrando ou saindo de casa e nos finais de tarde, sentado pensativo num banco da praça, ao lado do coreto, onde algumas pessoas da cidade costumavam se encontrar para jogar conversa fora.

Era impossível não o notar na praça, pois algumas pessoas falavam coisas em voz alta só para provocá-lo. A conversa que o povo mais gostava de falar era a do dinheiro em baixo do colchão.

— “Seis” viram? Saiu no jornal que um “homi” morreu e deixou a família rica! Lá “nu” jornal fala que ele guardava dinheiro de baixo do colchão!

— Há, há, há.... - As risadas corriam soltas e os olhares se voltavam para Um Real, sentado quieto no banco da praça.

— “Se” tá “pur” fora amigo! Esse “causo” é “poco”. Tem gente que deixa a cidade “intera” rica, de tanto dinheiro que guarda em baixo do colchão, né Um Real?

Um Real levantou, cabeça baixa, lágrimas nos olhos e partia para casa.

Aquela manhã amanheceu tristonha, céu nublado, passarinhos sem cantar, um friozinho arrepiante e a garoa fina que parecia cortar a pele, mas, ele estava lá, firme e forte.

— Tem um real?

— Só um minuto querido, respondeu Dona Ana, que amavelmente, na medida do possível, sempre ajudava.

Como sempre, recebeu seu dinheiro e abaixou a cabeça, mas desta vez disse algo para ser ouvido:

— Vou te dar flores!

Dona Ana sorriu. Era a primeira vez que alguém ouvia o que ele dizia.

— Tem um real?

— Já não disse pra não tocar a campainha aqui, seu vagabundo.

Um Real olhou fundo nos olhos de Jovino, lacrimejou os olhos, cerrou os dentes, mas também se fez ouvir.

— Vou te dar um real!

Jovino não entendeu nada e entrou.

Durante aquele dia, Um Real tocou muitas campainhas e repetiu as mesmas frases que disse para Dona Ana e Jovino, quando recebia ou não o dinheiro.

Daquele dia em diante, Um Real sumiu. Nunca mais tocou campainha, nunca mais comprou comidas no mercado, nem remédios na farmácia, muito menos apareceu na praça.

A cidade ficou esquisita! Para alguns ficou o vazio e a preocupação, para outros ficou a curiosidade, mas com uma pitada de piadinha.

Dona Ana estava incomodada e resolveu ir à casa de Um Real. Bateu palmas por um bom tempo, mas ninguém apareceu. Entrou pelo pequeno e podre portão de madeira e bateu na porta. Ninguém abriu. Preocupada, mas receosa, resolveu acionar a maçaneta que por sorte, estava destrancada.

— Um Real - gritava adentrando a casa. Um Real! É a Dona Ana, desculpe estar entrando em sua casa, mas você sumiu e fiquei preocupada.

Andando chamando e procurando, Dona Ana foi entrando nos pequenos cômodos da casa. Dê repente, uma voz fina e fraca falou.

— Entre Dona Ana, pode vir.

— Quem é a senhora? Está doente? O que faz aqui?

— Sou a mãe de Amado, mas parece que vocês o conhecem por Um Real - disse a senhorinha com muito esforço.

Dona Ana olhou em volta e nunca tinha visto tanta pobreza, apesar do capricho.

— Ele não está mais aqui. Já se foi. Apenas ajeitou minhas costas neste colchão que fez para mim. Ah, não sabe como este colchão aliviou minhas dores.

Dona Ana ficou perplexa. Um Real havia feito um colchão para sua mãe, com as notas de um real! Pegou as mãos da mãe de Amado, trouxe até seu peito e as beijou. Quando as levou de volta à cama, o último suspiro já havia levado a vida daquela senhorinha.

Dias se passaram cheios de interrogações para toda cidade. A mescla de tristeza e curiosidade pioravam com o tempo frio e nublado.

Porque Um Real sumiu? O que teria acontecido com ele?

O sol voltou a raiar após noventa e nove dias e aos poucos o povo de Cruzeiro já não falava mais no assunto.

No centésimo dia....

— Din don – Tocou a campainha de Dona Ana, no horário que Um Real costumava aparecer.

Ansiosa e com o coração batendo forte, correu até a porta e abriu rapidamente. Lá fora havia flores ao pé do portão e de longe, do outro lado da rua ele acenou e sumiu como miragem.

— Din don – Tocou a campainha de Jovino, no horário que Um Real costumava aparecer.

Marchando como um general e doido para falar poucas e boas, gritou de lá de dentro.

— Já sei que é você seu vagabundo, agora sua mãe se foi, está pedindo dinheiro para que?

Jovino abriu a porta, quase arrancando a maçaneta e não viu ninguém, apenas encontrou um bilhete que dizia:

Que este um real possa “comprar” senso de caridade para o seu coração!

Jovino ficou gelado e com medo. Esticou a nota de um real pensativo e quando foi entrar, viu Um Real acenando, do outro lado da rua. Jovino ia dizer algo, mas o rapaz sumiu como fumaça.

A história se espalhou por todo o Brasil e por muitos anos, Um Real continuou tocando campainhas e deixando flores ou bilhetes com uma nota de um real, em muitas casas no país.

De uns tempos para cá, Um Real sumiu. Será por isso que recolheram as notas de um real no país?

 

Nãna Damino