27/09/2015 Número de leitores: 272

O Perfume das Flores

Erisvaldo Vieira da Silva Ver Perfil

 

Camila estava literalmente mergulhada em livros, revistas e almanaques. No quarto, sentada no tapete, radinho de pilha ao lado, ouvia um som antigo de Roberto Carlos, música da década de 60. Ela, Camila, apesar dos seus 11 anos de idade, tinha uma predileção especial em gostar daquilo que não era novo; tanto faz fosse um filme, desenho animado ou músicas. Não trocava “Meu Primeiro Amor” por nenhum outro filme; o Tom & Jerry ou o Papa-léguas lhe eram os melhores desenhos do mundo e, quanto à música, gostava dos artistas de décadas anteriores, especificamente da década de 70, 80, onde tudo mudou no mundo. Culpa dos pais que desde cedo incutira nela, “à força”, o gosto pelo inusitado para sua idade. Todos os dias a radiolinha estava ligada.

— Minha filha, você ainda nem comeu nada e já metida no meio desses livros?

— A professora nos desafiou com uma pergunta, mãe. Vale 1 ponto.

— Que pergunta é essa?

— Que vantagem tem para as flores o seu próprio perfume? É aula de ciências.

— Já descobriu?

— Nada! Meu pai bem que podia comprar mais livros se não gastasse tanto com cerveja.

— Psiu! Ele está do outro lado! — Sussurra a mãe.

— E não é mesmo?

— Camila, já tomar banho, vamos! A manhã você procura isso.

— Mas é pra manhã, mãe!

— Já para o banho, já disse!

— Já não se faz mais mães como antigamente! — Comenta baixinho e chorosa indo ao banheiro.

            Camila era na escola uma das mais aplicadas. Cabelos lisinhos bem pretos, olhos semicerrados, bem à chinesa, pele branquinha, em tudo lembrava uma oriental. Todos comentavam que ela parecia não ser desse mundo, pois gostava de tudo aquilo que a maioria de suas colegas da escola não gostava.

            Por volta das onze horas da noite, ela levantou da cama bem devagar, atravessou a sala, ligou um pequeno abajur e localizou em um almanaque algo sobre as flores, o perfume das flores. Estava para descobrir a resposta quando a mãe lhe apareceu à porta, de camisola branca, feito um fantasma.

— Eu não te disse para ir dormir, Camila? Mas que insistência, menina! — Falou serenamente, mas com um tom de decisão na voz. Camila assustou-se.

— Ai, mãe! Assim a senhora me mata!

— Já para a cama, Camila, e não me desobedeça. Amanhã convenço o teu pai a te tirar daquela escola. Quando você estudava na outra escola, não inventava essas doidices.

— Mas mãe...

— Mas mãe nada. Já! — E apontou para o quarto.

               Numa noite fria e silenciosa, Camila adormeceu, aborrecida. Teve um sonho. Ela estava em um jardim com centenas de outras flores. Aproveitou e foi de uma em uma para saber o porquê de as flores terem perfume. Dirigiu-se à primeira:

— Dona Flor, por que a senhora tem perfume?

— Ora, mas me admira você, um ser humano, não saber disso! O que você faz na escola, hein, menina!?

— Ora, eu estudo. Ninguém nasce sabendo de tudo. Eu só queria saber...

— Psiuu! Silêncio! Está vindo uma abelha. Saia, saia, saia! — Pediu a flor, insistentemente. Camila resolveu perguntar a uma outra flor.

— Dona Flor, por que a senhora tem perfume?

— Essas crianças de hoje! Só se interessam por bobagens. Como pode você, sendo um ser humano, não saber disso? Mas que educação a de hoje, não saber nem por que temos perfume!

— Dona Flor, ninguém nasce sabendo de tudo. Eu só tenho 11 anos de idade. Eu só queria saber...

— Silêncio! Está vindo um beija-flor. Vou ser beijada. Afaste-se, afaste-se, afaste-se, se não ele não vem para mim.

              Camila ficou triste, pois nenhuma flor quis dizer a ela por que tinham perfume. Estava assim quando se aproximou dela um gambá fedorento e soltou seu maldito odor. Camila correu de perto e, muito cansada, sentou-se embaixo de uma árvore.

— Ainda não descobriu, menina, por que as flores têm perfume? — Questiona-lhe um jasmim, ali perto.

— Não. Amanhã vou perder meu ponto.

— Ninguém pensa em aprender por prazer, só pensam em ganhar pontos. Eu ia dizer, mas agora não digo mais, não merece. — Aborrece-se o jasmim.

— Mas eu gosto de aprender, dona flor, só estou tentando unir o útil, que é esse ponto, ao agradável; que é o perfume das flores.

— Está bem, está bem, vou dizer.

— Vai mesmo? Oh, dona Flor deixe-me te dar um beijo.

— Ora, ora, não precisa, não precisa! Responda-me, menina, o que o cheiro do gambá fez com você?

— Bem... Me fez correr de perto dele.

— E se fosse um cheiro gostoso? — Pergunta-lhe a orquídea.

— Ora... ora... é... Ah!! Matei a charada! O perfume das flores serve para atrair os insetos, abelhas e beija-flores.

— É isso aí, garota, bate aqui!! — Sorriram.

— Mas, peraí, dona Flor. Pra quê que a flor quer abelhas, insetos e beija-flores?

— É uma anta mesmo essa menina! E como a gente ia se reproduzir se as abelhas, os insetos e os beija-flores não nos polinizassem?

— Camila, acorda! Achei a resposta para você. — Declara-lhe a mãe.

— Hein!? Hein!? Que horas são? Onde estou?

— Achei a resposta do perfume das flores enquanto você dormia, olha aqui.

— Ah! Eu já descobri, mãe.

— Quem te contou? — Surpreende-se a mãe da menina.

 — Um passarinho! — E pulou da cama com um sorriso largo. 

 

 

Erisvaldo Vieira da Silva