29/09/2015 Número de leitores: 735

O Rio e a Flor

Erisvaldo Vieira da Silva Ver Perfil

Havia nas montanhas íngremes e azuis, escondido do resto do mundo, um belo jardim selvagem. Desses que a natureza presenteia a ela mesma, longe do alcance dos homens. Centenas e centenas de flores nasciam, cresciam, reproduziam e morriam naquele local de incomum beleza. Eram lilases, flores silvestres, paeonias, margaridas, coreópsis, papoulas. Muitas papoulas. Longe do mundo civilizado, elas se mantinham na mais completa sintonia com o sol, com a chuva, com o orvalho, com os ventos... Como únicos viventes companheiros, tinham apenas a visita esporádica de algum beija-flor ou de algumas abelhas. No lado paralelo àquele jardim, havia um grande rio que desembocava no mar.

Elas já estavam acostumadas com ele.

Numa primavera brilhante e cheia de cores, nasceu Pitonisa, a flor de cosmos mais bela e mais vaidosa daquele jardim. Por ser das belas a mais bela, ouviu um dia de uma velha margarida, que do outro lado do mundo havia um mar. Ficou curiosa. Como será que era o mundo do outro lado? Queria conhecer, mas só tinha um jeito: quando o vento batesse forte, torceria para que ele a desprendesse do seu galho e a jogasse rio abaixo. Levada pela correnteza, certamente conheceria o mar, conheceria o mundo do outro lado. As flores sempre ouviam dos pássaros que existia um mundo maravilhoso do outro lado. Pitonisa crescia a cada dia e sua beleza transcendia a mais bela das flores. Ficou esbelta, pura, mostrando a sublimidade de Deus em seu perfume e em suas cores. Já era uma flor adolescente. Adolescência de flor. Certo dia, um pequeno colibri pousou nela e revelou-lhe muitos segredos do mundo do outro lado. A alma adolescente da pequena flor inquietou-se. Como podem suas ancestrais se contentarem em viver apenas ali, naquele cantinho, sem nunca ter conhecido o outro lado da vida? Não entendia. A cada dia que passava, Pitonisa sentia crescer em si o forte desejo de sair dali, ir embora, descer rio abaixo... Conhecer o mundo do outro lado. Numa bela manhã de outono, quando as folhas caem para dar lugar às novas gerações, um vento potente sacudiu o pequeno jardim selvagem, levando as flores de um lado para o outro, de um lado para o outro, como dançarinas de um balé. Quando o vento passou, todas as plantas se ajeitavam. Umas observavam suas matizes, seus galhos, seus ramos; outras não ligavam para nada. De repente, uma velha senhora papoula observou que Pitonisa não mais estava em seu galho. A tristeza naquele jardim apoderou-se de todos. Durante muitos e muitos dias, as flores remanescentes sentiram a falta da mais bela entre todas as belas flores. O rio a levou... Enfim, conheceria o mundo lá fora que os pássaros canoros tanto disseram que era belo.

Pitonisa desceu o rio em direção ao mar.

Durante a jornada, inúmeros obstáculos lhe sobrevieram. As águas do desconhecido, com suas ondas traiçoeiras, gigantes para uma simples flor, por inúmeras vezes tentavam jogá-la no fundo do rio. Quando ainda estava lá no seu jardinzinho selvagem, não pensava que as águas lhe fossem causar tantos obstáculos. Inúmeros peixes, de todas as espécies, não lhe davam descanso. Os galhos, presos no leito dos rios, eram seus maiores inimigos. Mas a florzinha desce rio a baixo... Desce... Desce... Quer ver o mar. Quer ver o mundo do outro lado. As manhãs, as tardes, as noites se sucedem. Pitonisa está cansada. Não pensava que querer conhecer o mundo do outro lado, custasse-lhe tão alto preço. Começou a lembrar de sua mãe, de suas irmãs, de suas amigas flores, sentiu vontade de chorar... Chorou. Estava ainda mergulhada em reflexões, quando sentiu à sua frente uma enorme cachoeira. Um desespero se apoderou dela. Não suportaria o baque daquela queda. Estava perdida. Não mais veria o mar. Chorou laconicamente desejando que alguém ou algo a salvasse daquela queda. Não tinha jeito. Era o fim. Olhou para o céu e despediu-se do mundo. Na queda barulhenta, a pequena flor flutuou no ar, largando-se das garras da água. Não viu mais nada. Apenas sentiu que “alguém” a segurava pelo bico. Era um pequeno inseto que logo a soltou sã e salva outra vez no meio do rio. Com muito frio, desmaiou e deixou-se levar pela correnteza afora. Acordou já num domingo. Espantada. É que a seu lado, centenas de outras florezinhas também passavam, a maioria já estava morta. Não aguentaram os problemas daquela difícil jornada e padeceram, vencidas pelo cansaço e pelas inúmeras dificuldades.

—Eu quero ver o maaaarr! – Gritou com todas as forças de flor que possuía.

Parece que até o rio se sensibilizou com aquele persistente desejo e colaborou para que a pequena conseguisse seu intento.

Amanhecia um dia esplendoroso, de raios solares perenes e belos. Já acabada e sem esperanças de conseguir ver o mar, a florzinha abriu os olhos de flor e viu a coisa mais bela que sua breve vida poderia ver. Eis a sua frente toda a imensidão de um mar belo e azul.

Estavam certos os pássaros canoros, quando diziam que além do horizonte que vemos, existe sempre um horizonte novo, belo, promissor, encantador. Mas para atingi-lo, é preciso passarmos por inúmeras e implacáveis provações. Vence, aquele que tem coragem de enfrentar o desconhecido, o inusitado. Como falam os filósofos “o verdadeiro caminho é o não-caminho”. São vencedores todos aqueles que acreditam em um mundo novo e lutam para conquistá-lo. 

Erisvaldo Vieira da Silva