02/10/2015 Número de leitores: 762

Pai

Nãna Damino Ver Perfil

Ontem reencontrei um “pedacinho” de você. Magro, franzino, como você bem mais jovem. Quase um clone!

Estive anos longe deste “pedacinho”, mas os momentos valeram mais do que minhas medalhas. Tentamos reunir seus quatro “pedacinhos”, mas, não era para ser assim e tenho certeza de que você intuiu com seu “dedinho” nisso.

Horas se passaram sem serem notadas, com apenas três “pedaços” reunidos e a promessa de nunca mais se escaparem.

Prosa vai, conversa vem, assisti o quanto esse teu “pedacinho” se comovia ao recordar você, nas coisas mais banais.

Pena você ter vivido tão pouco para mim, quase nem me lembro, porém, enraizou cicatrizes ácidas, doídas e até embriagadas.

A cada narrativa desse teu “pedacinho”, atentei o quanto não te apreciava e que te perdi, na nebulosidade de meus cinzentos sentimentos, notando que havia te atropelado entre as brumas da rebeldia.

Durante toda minha vida, tantas privações desnecessárias e descabidas fizeram-me apenas olhar para teu lado escuro, que de tão denso, anteparou qualquer feixe de luz que pudesse penetrar entre nós.

Ao pilotar dos anos, apenas o traçado preciso entre trilhos a evidenciar que seu desamparo, seus ludíbrios e sua avareza, apesar de ter gerado em mim um verdadeiro motim, foram um verdadeiro combustível a me detonar adiante, inflamando a vida, libertando uma energia vigorosa que convergiu minha locomotiva desafiante de mim mesma, guiando, prosseguindo e me sobressaindo. Apenas isso é o que vislumbrava.

A despeito de tudo, por muitas vezes senti sua ausência, pois conhecia nossas semelhanças, mas, a lembrança da fome, da carência e das humilhações rapidamente tiravam meu foco de qualquer partícula de purpurina que pudesse luzir em você, intencionando desviá-lo dos rastros de minha vida.

Notei o quão privilegiado e sagaz fora esse teu “pedacinho”, enquanto valeu-se de tua morada, pois embarcou em um trem bala, apanhando pelo caminho apenas as essências, pois a velocidade não lhe traria detalhes que me foram apresentados transformados em sonetos, até então desconhecidos.

Quanto tormento ao entender que deveria ter desembarcado nas estações da tua vida, talvez assim pudesse ter te cultuado e retocado minhas cicatrizes com tua natureza cômica e nostálgica.

Somente ontem pude perceber que o suceder dos anos descarrilou meus desejos em relação à você, e que nunca é tarde para tirar a cancela que te anteparava de mim mesma.

O ano está acabando e 2014 já ultrapassa o passado com meu coração a bordo de você. Pela primeira vez quisera poder “telegrafar-te” meus amorosos desejos e reconstruir nossos laços fora de trilhos, onde quer que tua alma paire, esperançosa de que nossa tortuosa “viagem”, exemplifique transformando um novo mundo, iluminado e guiado por seus admiráveis “faróis” azuis.

Nãna Damino